Mundo de ficçãoIniciar sessão*O Desaparecimento da Herdeira*
A chuva começou de madrugada.
Fina. Persistente. Gelada.
Caía sobre as montanhas italianas como um véu silencioso de luto.
Luzes vermelhas e azuis cortavam a estrada destruída onde, horas antes, o comboio Romano fora emboscado. Policiais, investigadores e equipes de resgate trabalhavam desde a noite. Destroços espalhados pela encosta, fotógrafos registrando cada detalhe da tragédia que já dominava os jornais do país.
O cheiro de combustível ainda pairava no ar, misturado à terra molhada, ao sangue, à fumaça, à morte.
Os corpos de Lorenzo e Isabella Romano tinham sido retirados pouco antes da meia-noite.
Mas Ariana continuava desaparecida.
E isso mudava tudo.
O investigador Carlo Benedetti analisava relatórios sobre o capô de uma viatura, chuva escorrendo pela gola do casaco. A expressão fechada, a mandíbula travada. Algo naquela cena não fazia sentido. Muitas coisas não faziam sentido.
O ataque foi profissional. Planejado. Executado com precisão militar. Conheciam a rota, o horário, a formação do comboio. Cada detalhe.
Aquilo não foi emboscada. Foi execução. Sentença de morte cuidadosamente preparada.
— Encontraram alguma coisa? — perguntou, sem tirar os olhos da encosta.
Um perito se aproximou, balançando a cabeça.
— Nenhum sinal da garota.
Carlo passou a mão pelo rosto, cansado. A noite inteira sem dormir começava a pesar.
— Nenhum?
— Nada. Nem corpo. Nem roupas. Nem sangue compatível. É como se ela tivesse evaporado.
Benedetti ficou em silêncio, observando a escuridão da floresta que engolia a montanha. O instinto gritava. Ariana Romano sobreviveu ao acidente.
Mas sobreviver talvez fosse a pior notícia. Porque significava que alguém a levou. E quem planeja uma operação dessas não leva uma herdeira para devolver.
Na mansão Romano, o caos era absoluto.
O que seria a festa mais importante da família virou velório antecipado. Flores importadas decoravam os salões, mesas postas com porcelana francesa, lustres acesos refletindo no mármore. Mas a alegria desapareceu. No lugar, só horror.
Homens armados circulavam pela propriedade com rádios colados à boca. Aliados chegavam de toda a Itália em carros blindados. Os telefones não paravam. As notícias corriam mais rápido que a polícia.
Lorenzo Romano morto.
Isabella Romano morta.
Ariana Romano desaparecida.
A única herdeira. A última Romano. Sumiu sem rastros.
— Encontraremos ela — a voz de Matteo Romano saiu firme, autoritária, cortando o murmúrio da sala.
O irmão mais novo de Lorenzo andava pelo escritório principal, maxilar travado, punhos fechados, olhos vermelhos de raiva e insônia. A dor pela morte do irmão ainda não havia sido processada. Mas não havia tempo para luto. Quanto mais tempo passava, menores as chances.
— Quem fez isso sabia exatamente o que estava fazendo — disse Vittorio, um dos conselheiros mais antigos da família. — Não queriam só matar Lorenzo. Queriam destruir os Romano. Apagar o nome.
Matteo apoiou as mãos na mesa de carvalho. A madeira rangeu sob a força.
— Então encontraremos os responsáveis. Um por um. E quando encontrarmos, vão implorar pela morte que deram ao meu irmão.
A ameaça ficou no ar. Pesada. Sombria. Mortal.
Mas ninguém imaginava que Ariana estava muito mais longe do que qualquer busca alcançaria.
Ariana despertou devagar.
A cabeça latejava como se alguém martelasse atrás dos olhos. Corpo inteiro queimando. Pulsos e tornozelos em carne viva, lacerados pelas cordas.
Por segundos não entendeu onde estava. O ar era denso, úmido. Então sentiu. Cordas grossas prendendo braços e pernas.
Abriu os olhos. Escuridão quase completa. Cheiro de mofo, ferrugem, umidade, sangue antigo impregnando tudo. O gosto de ferro na boca dizia que o sangue era dela.
Tentou mover os braços. Amarrados. As pernas também.
O pânico veio brutal, violento. Coração disparado, respiração irregular, curta.
— Não... — a voz fraca, rouca, irreconhecível. — Não...
As lembranças voltaram como facadas. O almoço. A estrada. A explosão. Os tiros. O carro capotando. O rosto do pai imóvel. A mãe sussurrando _seja forte_. A floresta. A captura.
Lágrimas vieram imediatas. Fechou os olhos, tentando respirar, tentando não enlouquecer. Impossível.
Mãe morta. Pai morto. Ela, presa. Sozinha. Completamente sozinha.
Uma porta metálica se abriu com um rangido que reverberou nos ossos.
Ariana ergueu a cabeça. Luz do corredor invadiu a cela, forte, ofuscante, fazendo seus olhos arderem.
Uma silhueta masculina surgiu. Alta. Imponente. O terno caro não escondia o que ele era: predador.
O homem entrou devagar, passos ecoando no concreto. Observando. Não como pessoa. Como mercadoria num galpão.
Ariana sentiu o estômago revirar de náusea e ódio.
— Finalmente acordou — a voz grave, fria, sem emoção. Sem humanidade.
Ela tentou recuar. As cordas cortaram mais fundo.
— Quem é você?
Ele sorriu. Um corte fino que não alcançou os olhos.
— Isso não importa.
— Onde estou?
Silêncio.
— O que vocês querem?
Ele se aproximou. Cada passo calculado. Os olhos percorreram os cabelos loiros emaranhados, o rosto sujo de sangue seco, as roupas rasgadas do aniversário, os hematomas. Sorriu de novo, mais perturbador.
— Você vale muito dinheiro, Ariana Romano.
O sangue sumiu do rosto dela. O frio na espinha virou gelo.
— O quê?
— Muito dinheiro. Mais do que seu pai movimentava em um ano.
Ariana sentiu o coração afundar no peito. Compreendeu. Não haveria resgate. Nem negociação. Nem liberdade. Planos piores. Muito piores.
O homem se inclinou, o hálito com cheiro de cigarro caro batendo no rosto dela. Olhos frios nos dela.
— A partir de hoje... — a voz virou sussurro, carregada de promessa — o mundo inteiro vai acreditar que você morreu com seus pais.
Ela parou de respirar.
Ele se endireitou, ajeitou o punho do paletó e caminhou até a porta. Antes de sair, lançou um último olhar que gelou o sangue dela até os ossos.
— Ariana Romano desapareceu.
A porta fechou. Som metálico, definitivo, como o de um caixão.
E pela primeira vez desde o massacre, Ariana entendeu que talvez nunca mais visse a liberdade.







