Capítulo 6

A governanta apareceu no batente da porta com a postura rígida de quem carrega o peso do mundo nos ombros e já estava acostumada com isso há muito tempo. Ela era uma mulher de meia idade, com cabelos grisalhos presos num coque rígido e um avental limpo.

— Senhor Augusto, desculpe interromper — ela falou, com uma voz firme que ainda tremia levemente, mostrando o alívio de ter encontrado o senhor Augusto inteiro. — O doutor Henrique chegou. Ele está esperando no escritório.

— Que médico, que nada! — Augusto levantou a mão com a energia irritante para alguém que tinha quase se afogado — Estou muito bem, dona Carmem. Tão bem quanto não se sinto há anos, se quiser saber.

Arthur e eu nos intrometemos ao mesmo tempo:

— Mas o senhor quase se afogou...

— O senhor não pode brincar com a saúde, padrinho.

Paramos os dois. Nossos olhos se cruzaram por um segundo involuntário, e eu desviei rápido, como se tivesse tocado em algo quente sem querer. O tipo de calor que deixa marca.

— Bom — Augusto cedeu, levantou as mãos em rendição teatral. — Se os dois insistirem.

Então ele apontou o dedo para mim, e seus olhos brilhavam com uma luz que eu ainda não conseguia entender. Não era a confusão de antes. Era outra coisa. A convicção firme de quem encontrou o que procurava e não tem a menor intenção de largar.

— Por favor, não saia daqui. Eu preciso conversar com você, minha neta.

Ele seguiu a governanta para o corredor e desapareceu.

O som dos passos foi diminuindo até que só restou o silêncio do quarto e a minha própria respiração, que eu tentava manter sob controle e não estava conseguindo muito bem.

Não consegui impedir. Meu coração apertou. Olhei para o porta‑retratos que ainda estava na minha mão e vi o sorriso da mulher que eu conhecia de cor, o sorriso que eu aprendi a lembrar com tanto cuidado e que às vezes doía. Eu fechei os dedos em volta do objeto com mais força do que eu queria, como se ele fosse fugir se eu soltasse.

— Então, o que você está fazendo aqui?

A voz de Arthur cortou o silêncio como uma lâmina, ao mesmo tempo em que eu o ouvia fechar a porta atrás de nós.

Eu me virei devagar. Arthur estava no batente da porta, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos verdes dele me observavam com uma frieza que parecia cirúrgica. Não parecia em anda com o homem que me beijou na escuridão de uma tempestade.

— O senhor Augusto estava se afogando no lago do parque, e eu não sabia o que fazer, então...

— Eu sei, eu sei — ele fez um gesto curto com a mão, dispensando uma explicação que não foi pedida. — Os funcionários já me contaram a história toda. Não foi o que perguntei. O que eu perguntei é o que você está fazendo aqui.

Eu olhei ao redor. Vi o berço com flores nas bordas, vi as roupinhas dobradas com cuidado que o tempo transformou em ritual, vi as paredes que guardavam uma vida inteira que eu só descobri há uma hora. O quarto cheirava a madeira velha e a um perfume floral suave que eu não sabia identificar, mas que apertava o meu peito. Por um segundo, eu ouvi a pergunta dele soar na minha cabeça, como se eu também não soubesse a resposta.

— O que significa tudo isso? — perguntei, minha voz saindo mais baixa do que gostaria.

— Não é da sua conta.

— É sim. — Ergui o porta-retratos na direção dele, segurando bem firme. — Quando tem uma foto da minha mãe dentro desse porta-retratos, é sim da minha conta.

Ele olhou para a foto e depois para mim. Seus olhos percorreram o meu rosto com uma atenção diferente agora, menos fria, mais esperta, como se estivesse tentando resolver uma conta que ainda não tinha solução. Então a máscara voltou ao lugar com uma exatidão que parecia praticada.

— Sua mãe?

Eu confirmei com a cabeça, sem desviar o olhar.

Arthur cruzou os braços devagar e pôs as mãos nos bolsos, em um movimento perfeitamente controlado. Quando falou de novo, sua voz ficou com um tom frio e pausado. Eu já reconhecia esse tom como sinal de que Arthur estava chegando a um lugar que eu não ia gostar.

— Olha, Zara, eu realmente não queria acreditar que você fosse a golpista que eles falavam naquela festa. 

— Cala a sua boca e não ousa completar essa frase! — Respondi, sentindo a raiva subir quente pelo meu pescoço.

Ele não se intimidou, e continuou sem sequer desviar os olhos dos meus.   

— Mas você está muito determinada a provar o contrário, não é? Você entrou na minha casa, entrou na vida do meu padrinho… O que você acha que está fazendo? O que nós tivemos foi só diversão de uma noite.

Eu soltei uma risada que saiu mais seca do que eu planejava e arranhou na minha garganta.

— Diversão é o cacete! Você não passa de um playboyzinho de merda. E quer saber? Nem foi tão divertido assim, não foi tão bom.

Foi sim, falou a vozinha lá no fundo, trazendo uma honestidade inconveniente que surgia sempre na pior hora. Não minta para si mesma.

Eu a ignorei.

— E você ainda me deixou com a conta de quase dois mil reais naquele hotel — completei, cruzando os braços. — Eu precisei usar o dinheiro do meu aluguel, só para constar.

Ele riu. Uma risada curta, de verdade, que começou rápido e acabou rápido. Uma risada que teria sido bonita em outras situações. Nessa situação, me fazia querer avançar na jugular dele.

— Foi, é? Eu tive que sair correndo quando recebi a notícia de que o padrinho tinha sumido — Ele deu de ombros, sem um pingo de remorso no rosto.

— Pois é, fui eu quem salvei o teu padrinho, seu idiota. E você não teve nem a decência de pedir desculpa.

— Pedido de desculpas? Foi bem-feito, golpista! Pelo menos você pagou pelo meu tempo.

Eu senti o sangue subir tão rápido que perdi a compostura.

— De onde eu venho, quem recebe por “tempo” — fiz as aspas com os dedos no ar — tem outro nome.

Eu percebi algo brilhar nos olhos verdes dele, mas não era raiva. Era algo ainda pior. Era diversão.

— E de onde você vem, afinal?

— Você sabe muito bem.

— Sei, sei... — ele deu um passo para dentro do quarto e o espaço entre nós ficou menor, me fazendo querer recuar. Não recuei. Pelo contrário, finquei os pés no chão como se o mármore pudesse me dar algum equilíbrio. — Escuta, já que estamos falando de dinheiro...

Ele parou, me olhando de cima a baixo com os olhos de vidro verde. Olhos que não deixavam passar nada.

— Quanto você quer?

Eu pisquei.

— O quê?

— Quanto você quer?

A voz dele saiu com a mesma naturalidade de quem faz essa proposta todo dia, como se fosse um trecho de contrato que ele já tinha decorado. 

— Para sumir da minha vida, da vida do meu padrinho, e voltar para o seu... mundo. É só falar um valor.

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elizbnascimentoBoa resposta
elizbnascimentoQue arrogante
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