Mundo de ficçãoIniciar sessãoAcontece que, como médica, eu tinha um juramento a cumprir. Tá, tecnicamente eu ainda não tinha feito o juramento porque ainda não tinha me formado. Mas ensaiei o juramento várias vezes dentro do meu quarto apertado, que cheirava a mofo. Isso era mais ou menos a mesma coisa. Não era?
Salvar vidas, agir com beneficência, não causar dano, manter o sigilo profissional, respeitar mestres e pacientes... aquela coisa toda reverberava na minha cabeça quando larguei as moedas, soltei o vestido e me joguei na água.
A seda ficou encharcada em um segundo, e me dei conta de que eu ia acabar sem dinheiro nenhum mesmo! Tentei me convencer de que era o instinto de médica falando mais alto do que a minha crise financeira. Mas não era. Era meu instinto pessoal. O instinto de uma menina que viu a mãe morrer e prometeu a si mesma que cresceria e salvaria quantas vidas pudesse.
Nadei em direção ao homem, sentindo o lodo e a água me envolverem, e o arrastei com muita dificuldade até a margem gramada. Ele estava pálido, com os lábios arroxeados. Coloquei-o deitado e comecei as manobras de primeiros socorros, pressionando o peito do homem com ritmo. Eu senti a adrenalina expulsar o cansaço do meu corpo, a respiração acelerar e o medo desaparecer enquanto eu continuava.
— Vamos, respira! — eu ordenei, mantendo as minhas mãos firmes sobre o peito dele.
Depois de alguns segundos que pareciam horas, ele soltou um jorro de água e tossiu com força. O peito dele subiu em uma forte baforada de ar e ele finalmente abriu os olhos, piscando contra a luz e tentar focar no meu rosto.
De repente, com uma força que um senhor que quase tinha morrido afogado não deveria ter, ele agarrou o medalhão de ouro velho que eu levava no pescoço — a única lembrança que eu tinha da minha mãe. Ele olhou confuso para mim, depois olhou para o medalhão e depois para mim novamente. As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto enrugado.
— Eu te procurei tanto — ele sussurrou, a voz tremendo de emoção. — Eu procurei por toda parte, minha neta!
A água do lago ainda pingava do meu vestido, gotejando sem parar, assim como meus pensamentos que não paravam de escorrer para todos os lados sem chegar a lugar nenhum. Eu estava perdida! Logo, Alícia contaria a verdade sobre meu namorado falso para todo mundo... eu devia uma fortuna... tinha destruído a porcaria do vestido... e agora... minha neta? Que raios esse homem estava falando?
Tá, tudo bem. Eu precisava organizar minha cabeça e sentimentos ou então quando eu chamasse uma ambulância a paciente seria eu mesma.
Tentei me agarrar ao instinto de médica: confusão mental, desorientação, talvez o início de demência piorado pelo quase afogamento.
— Senhor... o senhor lembra o seu nome? — Eu perguntei, tentando começar pelo básico.
— Augusto — respondeu, sem tirar os olhos de mim. — E o seu?
— Zara... — eu respondi, sem pensar muito. — Certo. Senhor Augusto... — eu comecei, tentando manter a voz calma, o tom que eu usava nos estágios para acalmar pacientes em crise. — O senhor se lembra do que aconteceu? Lembra de onde veio?
— Eu lembro de tudo agora que te vi — ele respondeu, tossindo o resto da água, mas não soltou o meu medalhão. — Mas você pode me chamar de vovô, minha querida. Eu reconheço esse rosto em qualquer canto do mundo. Você tem a cara da sua mãe.
Respirei fundo, sentindo o nó na garganta apertar. Ele estava delirando, era óbvio.
— O senhor está um pouco confuso. Tem alguém aqui no parque com o senhor? Algum acompanhante?
— Eu estava sozinho, fugindo dos seguranças que não me deixam nem respirar. — Ele deu um sorriso travesso, mas logo o sorriso virou um olhar de curiosidade. — Quantos anos você tem? Onde você mora? Me conte tudo.
— Precisamos te levar ao hospital — eu insisti, ignorando as perguntas. — O senhor pode ter sofrido lesão na cabeça com a queda. Tem alguém para quem eu possa ligar?
— Não sei onde está o meu celular. Deve ter ficado no lago — deu de ombros, parecendo não se importar com o fato de que quase morreu minutos atrás.
Ah, onde eu tinha me metido?! Eu não tinha nem um centavo na conta bancária, não tinha como voltar para casa e, ainda por cima, eu estava segurando um idoso confuso nos braços. Eu não podia deixá-lo ali. Pessoas maldosas facilmente se aproveitavam de idosos, ainda mais um em estado de confusão mental.
— Tudo bem, não tem jeito — murmurei. — Eu levo o senhor para a casa. O senhor sabe o endereço?
O homem recitou um endereço em um dos condomínios mais exclusivos da cidade. Eu aceitei, mesmo achando que ele poderia estar inventando.
Ajudei ele a se levantar e caminhamos vagarosamente até a saída do parque. Preciso admitir que o olhar curioso dele me deixava desconfortável. Mas eu precisava ir até o final.
Acenei para um táxi que passava e o ajudei a entrar.
— Só um probleminha, senhor Augusto… — comecei, sentindo o meu rosto arder de vergonha enquanto o taxista nos observava pelo retrovisor. — O senhor tem dinheiro para pagar o táxi? Porque eu estou meio...
Dura? Ferrada? Sem um tostão furado? Sem um puto no bolso? Como dizer isso de uma maneira educada?
Ele soltou uma risada curta, mas cheia de autoridade.
— Dinheiro nunca mais será um problema para você, Zara. Pode escrever o que estou dizendo.
— Está, está bom. Vamos para a casa — eu respondi, balançando a cabeça.
Ele tem sorte porque eu encontrei ele e não um aproveitador, pensei.
Durante o trajeto, ele não parava de me olhar. Perguntou sobre os meus estudos, sobre a minha vida. Eu respondia com o mínimo, não queria alimentar o delírio dele. Mas eu comecei a reparar que havia algo nos olhos daquele homem… uma familiaridade que me deixava incomodada.
Quando o táxi parou em frente aos portões de ferro pesados de uma mansão digna de filme, eu perdi o fôlego. Nós entramos e os funcionários nos receberam com um olhar tenso, como se estivessem à beira de um ataque de nervos.
— Senhor Augusto! Onde o senhor estava? — perguntou a governanta, correndo em nossa direção.
— Eu estava encontrando o meu maior tesouro — ele disse. Ele apontou para mim com um orgulho que me deixou sem graça.
Eu tentava intervir, pedindo para ligarem para um médico, explicando que ele precisava de avaliação, mas os funcionários pareciam ocupados demais seguindo as ordens dele. Augusto me pegou pela mão e me guiou escada acima.
— Venha aqui, eu quero mostrar a você uma coisa.
O homem parou diante da porta de carvalho e abriu devagar. O quarto estava limpo, mas parecia parado no tempo. Havia brinquedos antigos, um berço entalhado e roupas de bebê preservadas.
— Ficou intacto — ele sussurrou. — A sua mãe cresceu aqui, conhecendo cada canto dessa casa. Sinto falta dela. Eu preparei tudo para o seu nascimento, mas a tragédia nos separou. Vamos precisar da reforma, claro, você está crescida, uma moça! Você vai vir morar comigo, minha neta, não vai?
Olhei ao redor e senti uma pena enorme dele. O homem estava tão perdido sua na confusão que quase me fez acreditar. Estava pronta para tentar convencê-lo de que ele precisava de um hospital. Meus olhos pararam em uma porta‑retratos no canto do quarto. Corri até lá.
Peguei o objeto com as mãos trêmulas. Na foto eu vi uma mulher jovem que sorria para a câmera. Um sorriso.... Um sorriso que era o mesmo que eu via no espelho todos os dias.
Aquela mulher da foto era a minha mãe!
Eu senti o chão desaparecer. Olhei para a foto e depois olhei para o senhor Augusto. A ideia de que ele não era tão louco assim começou a bater na minha cabeça, e o meu coração disparou.
— Padrinho? Padrinho!
Eu ouvi uma voz familiar, grave e forte, ecoar no corredor, fazendo cada pelo do meu corpo arrepiar.
— O senhor nos deu um grande susto! Todo mundo estava procurando por você.
Eu me virei devagar, ainda segurando o porta‑retratos contra o peito. Senti o coração apertar ao ver a última pessoa que eu pensei que fosse encontrar de novo parada ali, no batente da porta.
Arthur.
Quando ele me viu, ele parou. Os olhos verdes se fixaram nos meus, com uma força que quase me fez cair.
— Zara? — O nome saiu da boca dele como um suspiro de surpresa.
Eu vi Augusto dar o passo à frente, radiante.
— Desculpa, meu afilhado, eu não queria deixar você preocupado — o velho falou, batendo no ombro de Arthur. — Mas olha quem eu encontrei! Esta é a Zara, a minha neta!
Arthur continuou me encarando, o silêncio entre nós sendo preenchido apenas pelo som da minha respiração curta. Ele olhou para o meu vestido molhado, para a foto na minha mão e por fim para o rosto do padrinho.
— Zara... — Augusto continuou, pegando a minha mão e pegando a mão de Arthur. — Este é o Arthur. Arthur é o meu afilhado e o meu braço direito. E, se o plano que as nossas famílias fizeram há anos ainda valer, Zara, esse é o seu futuro noivo!







