Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu estava sentada à mesa da cozinha, mas parecia que não estava ali. Meus olhos fixavam minhas próprias mãos, que não paravam de tremer. A visão turva, um tinido irritante nos ouvidos. Um lobo tinha falado comigo pela mente. Respirei fundo, tentando me acalmar.
Já fazia dez minutos que Luke, ao perceber que eu não conseguia me levantar, me puxara para dentro. Em algum momento meus pais chegaram, mas eu havia perdido a noção do tempo desde que sentei ali, concentrada apenas em não morrer de nervoso.
Alguém me chamava. De longe, como se fosse através da água. “Kallista…” A voz se repetia, mas eu não conseguia ouvir direito. Então meus ombros foram sacudidos. Levantei o olhar atordoada e encontrei os olhos castanhos da minha mãe. Ela mexia os lábios, mas eu não entendia. Até que finalmente consegui ouvir:
— Kallista!
Suspirei, contendo um soluço.
— Preciso que você se recomponha. — disse minha mãe, calma e tranquila.
Fácil falar. Não foi ela quem viu a porra de um lobo imenso na varanda. Olhei para o lado: meu pai, Donavan, estava ao lado de Luke, ambos com semblantes preocupados. Mas Luke… estava quieto demais.
Suspirei e assenti sem forças. Minha mãe largou meus ombros.
— Eu avisei que esse dia chegaria. Eu falei que deviam ter contado para ela antes. — disse Luke, calmo demais.
Meu pai o encarou como se quisesse xingá-lo, mas não tinha moral para isso. Susan, minha mãe, fechou os olhos e suspirou.
— É difícil explicar isso para alguém. Eu mesma, se não tivesse vivido, diria que é mentira.
Mentira? O que era mentira? O que estava acontecendo afinal?
Criei coragem e soltei, a voz trêmula: — Mãe… o que está acontecendo?
Ela me olhou com compaixão, dor… e até luto. Recolhi minhas mãos trêmulas e as escondi sob a mesa.
— Mãe, por favor… — insisti.
Ela olhou para meu pai, que apenas assentiu. Susan suspirou.
— Você muitas vezes perguntou sobre seus pais verdadeiros.
Assenti, mesmo sem entender.
— Tudo isso está acontecendo porque… seus pais eram dois príncipes.
Segurei o ar e soltei pelo nariz, incrédula.
— Isso é impossível. Não existem mais reis e rainhas há eras. O único é na Inglaterra… — parei, pensando. — Mãe… eu sou filha do rei Charles?
Luke soltou uma risada anasalada, interrompida pelo olhar severo de meu pai. Susan sorriu com complacência.
— Não, Kallista. Eles não são príncipes deste mundo.
Fiquei em silêncio, esperando até onde aquilo iria.
— Eles eram príncipes do mundo sobrenatural.
— Príncipes do mundo sobrenatural? — perguntei, tentando manter a calma, sem parecer que eles eram loucos… ou eu. — Está dizendo que eu sou princesa do mundo sobrenatural?
Minha mãe concordou com a cabeça.
Não. Aquilo não tinha a menor graça. Ri de um jeito anasalado, nervoso.
— Isso não tem a menor graça. Seja lá o que vocês fizeram para aquele lobo aparecer, ou todo esse circo… — comecei a bater palmas, sarcástica. — Vocês se superaram. O que era? Um robô? Contrataram algum estúdio de cinema? Quanto gastaram pra me enganar?
Ninguém riu. Ninguém falou nada. Eu era a única que parecia louca ali.
Foi Luke quem quebrou o silêncio: — Não é pra ter graça, Kalli. É tudo verdade.
Balancei a cabeça, rindo sem humor.
— Vocês percebem o absurdo que estão falando? Estão simplesmente dizendo que eu sou uma princesa, que meus pais eram príncipes… Ok, então. E por que caralho eles me largaram aqui? Por que não vivo no luxo, ou sei lá?
Meu pai olhou para Luke, que devolveu o olhar, como se dissesse que ele deveria falar. Donavan suspirou.
— Você é filha de um lobo e de uma vampira. Essa união era proibida. Acabou gerando você. Se as cortes descobrissem, você seria morta. Seus pais também. Então eles fugiram para o mundo dos humanos, tentando escapar das cortes e dos anciões. Mas não durou muito. Eles acabaram sendo encontrados. Antes de matarem seus pais, Katherine, sua mãe, conseguiu te salvar… nos entregando você.
Aquilo não era verdade. Não podia ser. Não fazia sentido algum.
— É loucura… vocês estão loucos. — sussurrei.
Luke se inclinou, sério. — Ela só vai acreditar se eu mostrar.
Antes que eu tivesse a chance de perguntar o que ele queria dizer, Luke se transformou diante de mim. Um lobo marrom, enorme, surgiu no lugar do meu melhor amigo.
O choque me fez cair da cadeira, me arrastando para longe. O lobo avançou, rosnando baixo na minha direção. Mas aqueles olhos verdes… eram dele.
A voz ecoou dentro da minha mente: — Acredita agora?
Puta que pariu.







