Capítulo 6

    A semana demorou um pouco a passar, mas assim que ela passou recebi a grande notícia, Dylan iria conseguir me levar nas minas no domingo e iríamos bem cedo. 

    Dylan me contou que as pessoas que não moravam naquela área ou trabalhavam lá, não podiam entrar, então eu estaria entrando clandestinamente. Fiquei empolgada com essa ilegalidade. 

    A reforma da mansão estava indo muito bem, mas a melhor parte foi ver o brilho no olhar dos operários quando paguei eles pela primeira semana de trabalhos. Eu sabia que eles não ganhavam muito em seus antigos trabalhos. 

     Na noite de sábado, eu mal conseguia fechar os olhos para dormir de tanta ansiedade para o dia seguinte. Só espero que tudo dê certo.

    Acordei bem cedo e fui me trocar. Decidi não usar vestido hoje, para ficar mais fácil de andar sem ser reconhecida. 

    Depois desci para tomar café, porém só consegui beber um pouco de café forte, nada descia pela garganta, estava enjoada por conta do nervoso. Será que eu iria conseguir ver meus pais, nem que fosse de longe.

     Quando o movimento começou na rua, devia ser umas 8:00 da manhã, Dylan apareceu na pousada, ele tinha vindo me buscar. Peguei a capa e sai da pousada em direção as minas. 

    Dylan estava certo, as condições de vida naquele lugar eram deploráveis e completamente indignas. Como alguém poderia deixar pessoas viverem daquele jeito, mas pensando bem, as autoridades daquela cidade estavam pouco se importando com isso. 

   Entramos nas Minas sem muita dificuldade, pois as pessoas estavam começando a ir para o trabalho.

    O lugar fedia a lixo, sangue, podridão, ou seja, morte. 

    --Difícil ver esse lugar, não é? — perguntou o Dylan.- Eu sei disso, mas é meu lar.

     --Não estou com nojo desse lugar. — falei e ele me olhou como se perguntasse "certeza?"- Está bem, estou um pouco. Mas o que estou sentindo nesse momento é revolta.

    --Não entendi. Revolta? — ele quis saber.

   --Sim. Revolta, -falei para ele.- Ninguém. Em hipótese alguma, pode viver nesse tipo de condições. É desumano.

    --Há alguns anos, Hope, que não sabemos o que é viver. — ele falou e percebi estar triste.- Nós aqui, apenas... sobrevivemos.

    --Eu entendo isso. — falei.- Quero que me mostre tudo que puder e me apresente as pessoas. 

    --A Senhorita ainda quer continuar vendo este lugar? — ele perguntou, surpreso.

    --Até o fim. — eu estava decidida.

    --Esta bem então. Vou começar te apresentando a minha família.

    Ele me levou por várias viela e caminhos bem estreitos até sua casa. Ela era humilde, mas muito organizada, limpa e acima de tudo, era linda. 

    Dylan era casado. Sua esposa se chama Lena. Eles têm um filho chamado Otto e esperavam outro. Lena estava grávida de 4 meses. Confesso que gostei bastante de conhecê-los. 

    Tomei outro café com a família do Dylan e tenho que confessar que me senti acolhida de um jeito que há muito tempo não sentia.

   Depois disso fomos andar pelas minas e foi andando entre aquelas pessoas que percebi algo. Mesmo vivendo ou sobrevivendo, como o Dylan disse, eles são felizes. Felizes de um jeito que o pessoal que vive no luxo jamais saberá como é. 

     --Escuta, acho que tem um casal que você vai gostar de conhecer. — ele disse e eu estranhei, mas estava disposta a conhecer qualquer pessoa.

    --Esta bem, me apresente esse casal. — eu falei.

    --Vem comigo. — ele falou e sem questionar eu o segui. 

    O casal morava no centro da Mina, aquele lugar estava cheio de pessoas. 

    --Por que aqui tem tanta gente? — eu perguntei para ele.

    --O casal que te falei, faz comida para distribuir para quem precisa. — Dylan falou me explicando. 

    --Eles não tem nada e ainda ajudam? — fiquei bem feliz com isso e surpresa.- Você não me disse o nome deles?

   --Robin e Marion. — eu não podia acreditar que eu iria conhecer meus pais. Estava tão perto disso.- As pessoas ajudam com o que podem e as crianças sempre ficam ao redor nessas horas. 

    --Então não quero atrapalhar o trabalho deles. — eu disse, fazendo o Dylan parar e olhar para mim.- Eles parecem ocupados, podemos voltar depois.

    Eu estava com medo de revê-los, melhor dizendo, de conhecer eles e estava retardando esse momento o maior tempo possível. 

    --Eles não vão se importa. — Dylan falou para mim.- Vem, os dois vão adorar conhecer você. 

    Eu segui ele, mas meu coração estava no meio da garganta de tão nervosa que eu estava para aquele momento.

   Eu parei um pouco atrás de onde eles estavam cozinhando, mas Dylan continuou andando e foi até eles.

    --Robin. Marion. — ele chamou os dois.- Ela chegou e veio conhecer vocês.

    Os dois olharam para mim e eu dei um sorriso nervoso. Marion chamou alguém para ficar no lugar deles, eles estavam começando a distribuir a comida agora. 

    --Hope, esses são Robin e Marion. — ele falou quando se aproximaram.- Essa é a Duquesa Hope Prime.

   --Por favor, me chamem de Hope apenas, não sou fã de formalidades. — falei me apresentando.- É um prazer conhecê-los, Dylan me falou um pouco de vocês.

    --O prazer é nosso em conhecer você. — Marion disse sorrindo. Minha mãe sorriu para mim.

    --Dylan nos falou de você também. — Robin pegou a minha mão e deu um beijo nela.- Obrigado por ajudar as pessoas daqui contratando elas e com o dinheiro. 

    --Não foi nada, são trabalhadores e merecem receber por isso e eles são ótimos, tenho que confessar. — falei para eles.- A casa era de vocês, não é? — eles ficaram triste com a pergunta.- Desculpa, não quis ofender.

   --Não ofendeu. — Marion pegou minha mão. Eu estava me segurando muito para não chorar.- Ficamos felizes que a casa está sendo cuidada finalmente. 

   --Espero que quando ela estiver pronta vocês possam vê-la. — eu disse.- É muito legal da parte de vocês o que estão fazendo. — apontei para a distribuição de comida.

   --Fazemos o que podemos fazer, mesmo que seja pouco. — Robin respondeu pela esposa.

   --O pouco feito de coração é muito para quem não tem nada. — eu respondi e eles me olharam de um jeito estranho.- Disse algo errado?

    --Um amigo nosso falava a mesma coisa. — Robin disse.- Sinto falta dele.

    --É o John, certo? — Dylan perguntou e eles concordaram.- Queria ter conhecido ele.

   --E o que aconteceu com ele? — perguntei, pois precisava saber o que eles sabiam.

    --Ele morreu. — Marion respondeu.- Com nossa filha. Aliás, você tem o mesmo nome dela. 

    Então, foi por isso que eles nunca me procuraram, porque nunca saíram daqui. Porque durante todos esses anos eles pensaram que eu e meu padrinho estávamos mortos.

   --Sinto muito pelo amigo de vocês e pela filha também. — falei sendo solidária, mas meu corpo todo desejava contar para eles quem eu realmente sou.- Quantos anos ela teria se estivesse viva?

   --Mês que vem estaria completando 22 anos. — Marion respondeu e percebi que esse assunto ainda é bem difícil para ela.- Desculpe a pergunta, mas quantos anos tem?

   --Mês que vem faço 23 anos. — respondi e acabei contando uma mentira, não podia dar esperanças para eles, não ainda. 

    --Meus parabéns antecipadamente. — Robin falou e sorriu pela primeira vez. Meu pai tem um lindo sorriso.- Não queremos ser indelicados, mas precisamos voltar para nosso trabalho. 

   --Claro. Eu que estou atrapalhando vocês. Bom trabalho e espero que possamos nos reencontrar de novo. 

   --Nós também esperamos. — Marion respondeu.- Nos vemos em breve.

    Eles se viraram e foram embora e eu tive que me segurar muito para não chorar de novo. Era duro ver eles indo embora. 

    --A Senhorita está bem. — perguntou o Dylan.

    --Sim, estou. — menti tentando esconder meus sentimentos.- Só fiquei emocionada em conhecer eles, os dois são muito legais.

   --Sim, eles são. — Dylan concordou comigo.- Agora temos que ir embora, mas se quiser podemos voltar outro dia.

    --Eu vou adorar voltar outro dia, se não for incomodar nem te prejudicar. — eu falei, quase dando pulinhos pelo que ele falou.- E obrigada por ter me trazido aqui hoje.

    --Para mim foi uma grande honra. Vamos?

    Ele esticou a sua mão e eu a aceitei com muita felicidade. Dylan me levou de volta para a pousada e depois que se despediu voltou para sua casa. 

    Fui tomar um banho, eu precisava relaxar, hoje foi muito cansativo e cheio de emoções. Eu não consigo acreditar que conheci meus pais, eu finalmente conheci. 

     Porém, fiquei um pouco triste ao descobrir que nos últimos 20 anos eles pensaram que eu estava morta. Imagina o quanto eles sofreram pensando que a filha que eles tanto amavam estava morta. 

    Eu passei o banho todo pensando nisso e não consigo imaginar em uma dor pior que a de perder um filho e não consigo imaginar o quanto eles sofreram, mas pelo menos eles têm um ao outro, assim como eu tive meu padrinho John. 

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