GRÁVIDA DO ALFA POR UM ERRO
GRÁVIDA DO ALFA POR UM ERRO
Por: Fátima Souza
1. O NASCIMENTO DE AURORA

A primeira coisa que Lívia Monteiro ouviu foi o choro. Forte. Agudo. Inconfundível. Seu coração disparou.

— É uma menina.

As palavras da médica chegaram até ela como se viessem de muito longe.

Lívia estava exausta, os olhos marejados e o corpo ainda tremendo depois de horas de trabalho de parto. Mas nada disso importava. Ela virou o rosto na direção do pequeno embrulho nos braços da enfermeira. Sua filha.

Durante nove meses, imaginara aquele momento. Imaginara o primeiro choro. O primeiro olhar. O instante em que finalmente seguraria nos braços a criança que havia desejado por tanto tempo.

Mas havia algo estranho. Muito estranho. A enfermeira não se aproximou imediatamente. Permaneceu parada ao lado da médica, olhando para o bebê com uma expressão que Lívia não conseguiu compreender.

— O que aconteceu?

Ninguém respondeu.

Lívia tentou se levantar.

— Quero vê-la.

— Senhora Monteiro, por favor, fique deitada.

— Eu quero minha filha.

A médica trocou um olhar rápido com a enfermeira. Então caminhou até Lívia.

— Sua filha está bem.

— Então por que estão olhando para ela desse jeito?

A médica respirou fundo.

— Porque há algumas características que precisamos investigar.

Lívia sentiu o coração apertar.

— Ela está doente?

— Não sabemos.

A resposta foi suficiente para fazê-la entrar em pânico.

— O que significa que não sabem?

Finalmente, a enfermeira colocou o bebê em seus braços. Lívia olhou para a filha. E esqueceu de respirar. A menina era linda. Tinha cabelos escuros, delicados e surpreendentemente espessos para um recém-nascido. Mas foram os olhos que fizeram Lívia estremecer. Eram de um tom incomum. Um dourado profundo, quase âmbar.

— Isso é normal?

A médica permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Precisamos fazer alguns exames.

Lívia apertou a filha contra o peito.

— Ela é minha.

— Ninguém está dizendo o contrário.

— Então não tirem minha filha de mim.

A voz dela falhou. A médica suavizou a expressão.

— Não vamos tirar.

Lívia baixou os olhos novamente. A pequena menina havia parado de chorar. Estava olhando diretamente para ela. Como se a reconhecesse. Como se soubesse exatamente quem era sua mãe. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Lívia.

— Eu esperei tanto por você...

A menina fechou os dedos minúsculos ao redor do dedo de sua mãe. E Lívia sorriu. Naquele instante, decidiu que nada no mundo poderia separá-las.

Ela só não sabia que, em algum lugar distante dali, existia um homem que nem sequer sabia que aquela criança havia nascido.

Um homem que, anos antes, havia fornecido uma amostra genética para um procedimento médico. Uma amostra que jamais deveria ter sido utilizada. Uma amostra que acabara dentro do corpo de Lívia. E que carregava um segredo capaz de mudar o mundo sobrenatural.

***

Três dias depois, Lívia deixou o hospital. A filha dormia em seus braços enquanto ela atravessava a porta principal. Nenhum homem esperava por elas. Nenhum pai. Nenhuma família.

Apenas sua irmã, Helena, que segurava as lágrimas enquanto caminhava ao lado dela.

— Você escolheu um nome?

Lívia olhou para o bebê.

— Aurora.

— Aurora?

Ela sorriu.

— Porque ela chegou quando eu mais precisava de luz.

Helena tocou delicadamente a cabeça da criança.

— Ela é diferente.

Lívia parou.

— Diferente como?

Helena hesitou.

— Os olhos.

Lívia olhou novamente para a filha.

— O médico disse que algumas crianças nascem com características incomuns.

— E você acredita nisso?

— Preciso acreditar.

Helena não respondeu. Porque havia outra coisa. Uma coisa que nenhum médico conseguira explicar. Aurora tinha uma temperatura corporal estranhamente elevada. Seus batimentos cardíacos eram mais fortes do que o esperado. E, durante a madrugada anterior, uma enfermeira jurara ter visto os olhos da recém-nascida refletirem uma luz dourada no escuro.

Lívia, porém, não queria ouvir teorias. Queria apenas levar a filha para casa.

***

Naquela mesma noite, a milhares de quilômetros dali, Dante Valerius entrou em uma sala onde ninguém ousava falar. Ele era o Alfa Supremo. E todos naquela sala conheciam sua autoridade.

Dante colocou alguns documentos sobre a mesa.

— Começaremos a investigação amanhã.

Um dos homens assentiu.

— Sim, Alfa.

Dante se virou para a janela. A lua cheia iluminava as montanhas. Por algum motivo, sentia uma inquietação que não conseguia explicar. Seu lobo estava agitado. Não era comum.

Durante anos, Dante havia aprendido a controlar cada instinto, cada emoção e cada impulso. Mas naquela noite havia algo diferente. Uma sensação inexplicável. Como se uma parte dele estivesse despertando.

— Alfa?

Dante não respondeu. Seus olhos permaneceram fixos na lua. Então ouviu o rosnado baixo dentro da própria mente. Ela nasceu. Dante franziu a testa.

— Quem?

O lobo não respondeu. Apenas repetiu: A herdeira. Dante fechou os olhos. Ele não sabia quem era a criança. Não sabia onde ela estava. Não sabia sequer que existia.

Mas, naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, seu instinto lhe dizia que algo havia mudado.

E ele ainda não fazia ideia de que, em uma pequena casa do outro lado do país, uma recém-nascida de olhos dourados dormia tranquilamente nos braços da mulher que, sem saber, carregava o maior segredo de seu reino.

Lívia havia pensado que sua filha era apenas um milagre. Mas Aurora não era uma criança comum. E quando Dante descobrisse a verdade... nada no mundo seria capaz de impedir o Alfa de encontrar sua filha.

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