Fui forçada a me casar com o homen que quer me matar
Fui forçada a me casar com o homen que quer me matar
Por: Jaianexn
O assassinato, a testemunha.

A madrugada sempre foi minha aliada.

O silêncio das ruas vazias, o eco distante de um carro passando ao longe, o cheiro úmido do asfalto depois da garoa fina — tudo conspirava a meu favor. A cidade dormia. E eu trabalhava melhor quando ninguém estava olhando.

O homem à minha frente tremia.

Ele vestia um terno caro demais para alguém que implorava de joelhos. Suas mãos suavam, os olhos arregalados buscavam qualquer sinal de misericórdia no meu rosto.

Não encontraram.

— Você não precisa fazer isso… eu pago o dobro — ele sussurrou, a voz falhando.

Eu quase sorri.

Dinheiro nunca foi o motivo. Nunca precisei dele. Meu sobrenome abria portas, comprava silêncios, movia influências. Eu fazia aquilo porque podia. Porque gostava da sensação exata entre o controle e o fim.

A arma parecia pesada nas mãos dele — mas não estava carregada quando a coloquei ali. O plano era simples. Elegante. Ele seria encontrado ao amanhecer, sentado dentro do próprio carro, uma arma caída entre os dedos. Um suicídio. Trágico, mas plausível.

Eu me aproximei devagar.

— Ninguém vai acreditar em você — murmurei.

O estampido quebrou o silêncio da rua.

Rápido. Limpo. Preciso.

Segurei o corpo antes que tombasse completamente, ajustei a cena com calma metódica. Posição das mãos. Ângulo da cabeça. A arma encaixada entre os dedos agora inertes. Um último olhar avaliando cada detalhe.

Perfeito.

Ou quase.

Um ruído.

O som não pertencia à noite — era humano. Um passo hesitante. Um pequeno tropeço.

Meu olhar cortou a escuridão da calçada oposta.

E então eu a vi.

Ela estava parada sob a luz fraca de um poste, ainda vestindo o jaleco amassado sobre roupas discretas. O cabelo preso de forma descuidada denunciava o cansaço. Os olhos, porém… estavam arregalados demais para alguém apenas passando pela rua.

Ela tinha visto.

Por um segundo, ficamos imóveis, presos naquele espaço invisível entre predador e testemunha.

Ela levou a mão à boca, o choque estampado no rosto. O medo era palpável, quase tangível.

Eu poderia atravessar a rua em poucos segundos.

Mas ela se moveu primeiro.

Virou-se abruptamente e começou a andar rápido — não correndo ainda, mas perto disso.

Eu ainda não sabia seu nome. Só sabia que seus olhos carregavam a certeza do que tinham presenciado.

E isso a tornava um problema.

Observei enquanto se afastava, calculando possibilidades. Poderia resolver ali mesmo. Um segundo disparo. Duas mortes. Duas histórias encerradas antes do amanhecer.

Mas algo me deteve.

Talvez tenha sido a expressão dela. Não era curiosidade. Não era imprudência.

Era medo.

E medo é fácil de controlar.

Entrei no carro e liguei o motor com tranquilidade. Antes de partir, lancei um último olhar na direção em que ela havia desaparecido.

Se ela falasse, eu saberia.

Se tentasse fugir, eu encontraria.

Ninguém testemunha um erro meu e continua vivendo como se nada tivesse acontecido.

Naquela madrugada, eu finalizei um trabalho.

Sem saber que acabara de começar outro.

Acordei com o sol já alto.

A luz atravessava as frestas da cortina pesada do meu quarto, desenhando linhas douradas no teto. Minha cabeça estava leve. Dormi bem. Sempre durmo bem depois de uma execução limpa.

Então vieram as vozes.

— Ele não pode continuar assim — minha mãe sussurrava do lado de fora, mas alto o suficiente para que eu ouvisse.

— Desinteressado. Preguiçoso. Não aparece nas reuniões, não assume responsabilidade nenhuma — a voz do meu pai soava mais dura, carregada de desaprovação.

Fechei os olhos novamente, apoiando o braço sobre a testa.

Eles falavam como se eu fosse um fracasso.

Mal sabiam que eu era o único naquela casa que realmente sabia resolver problemas.

— Um dia ele vai ter que entender que carrega nosso nome — meu pai continuou. — Não é um garoto.

Os passos se afastaram pelo corredor de mármore. Silêncio.

Eu me sentei devagar na cama, passando a mão pelos cabelos. O quarto era amplo demais, luxuoso demais. Quadros caros nas paredes, móveis importados, uma varanda com vista privilegiada da cidade.

Um império construído com contratos, fusões e alianças.

E eu? Construía o meu com sangue e silêncio.

Levantei-me e caminhei até o espelho. Meu reflexo parecia comum demais para alguém que havia encerrado uma vida horas antes. Olhar calmo. Expressão neutra. Nenhum vestígio da madrugada anterior.

Exceto na memória.

Ela.

A mulher sob o poste de luz.

O jaleco branco destacando-se na escuridão. O cansaço no rosto. O medo nos olhos.

Testemunha.

Não sabia seu nome ainda, mas isso era questão de tempo. Eu sempre encontrava o que precisava.

Fui até a escrivaninha e abri o notebook. Enquanto o sistema iniciava, organizei mentalmente a linha do tempo da noite anterior. Horário exato. Localização. Possíveis câmeras. Testemunhas secundárias.

Nada.

Só ela.

Ampliei o mapa da região e acessei registros públicos. Hospital mais próximo? Memorial Peace.

Madrugada. Jaleco. Passos apressados naquela direção.

Sorri de leve.

Não era difícil ligar os pontos.

Comecei a filtrar funcionários, plantões noturnos, especialidades. Demorou menos do que imaginei até encontrar o nome.

Valentina Moretti.

Cirurgiã. Emergência.

Abri a foto profissional anexada ao perfil do hospital.

Era ela.

Sem o medo estampado, sem a tensão da madrugada — apenas a postura firme de alguém acostumado a salvar vidas. Irônico.

Ela passava as noites tentando impedir a morte.

Eu garantia que ela acontecesse.

Fechei o notebook lentamente.

Eliminá-la seria simples. Planejar um assalto mal sucedido. Um acidente. Um desaparecimento discreto.

Mas algo em mim queria mais do que rapidez.

Queria controle.

Levantei-me e caminhei até a varanda. A cidade pulsava lá embaixo, alheia ao que acontecia nas sombras.

Ela devia estar exausta. Talvez ainda acordada, revivendo a cena. Talvez considerando ir à polícia.

Duvido.

Pessoas como ela hesitam. Pensam nas consequências. Temem represálias.

E com razão.

Apoiei as mãos no parapeito e deixei o vento bater no rosto.

Eu poderia resolver aquilo hoje. Agora.

Mas antes, precisava entender até onde ia o medo dela.

Se ela era impulsiva… ou estratégica.

Se falaria… ou se esconderia.

De uma forma ou de outra, Valentina já estava marcada.

E eu nunca deixo pontas soltas.

O dia mal havia começado.

E minha prioridade era clara:

A testemunha precisava desaparecer.

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