A arte da observação

Turin sempre pareceu elegante demais para os pecados que abriga.

As fachadas históricas, os cafés discretos nas esquinas, o rio cortando a cidade com aparência serena… tudo muito bonito à luz do dia. À noite, porém, as sombras são mais honestas. Elas não fingem ser algo que não são.

Eu tenho vinte e oito anos.

Para os jornais sociais, sou apenas o filho único de um dos homens mais influentes da cidade. Educado nas melhores escolas. Fluente em três idiomas. Preparado para assumir um conglomerado empresarial que movimenta milhões.

Eles me veem como herdeiro.

Não como predador.

Não me tornei o que sou por necessidade. Nem por vingança. Nem por trauma infantil mal resolvido.

Foi escolha.

A primeira vez aconteceu aos vinte e dois. Um “problema” que ameaçava a reputação da família. Meu pai não pediu diretamente — ele nunca pede. Apenas comentou, durante um jantar, o quanto certas pessoas eram inconvenientes quando não sabiam o próprio lugar.

Eu resolvi.

Descobri que gostava da sensação. Do planejamento. Do controle absoluto sobre o destino de alguém. Do momento exato em que o medo aparece nos olhos da vítima — aquele segundo em que entendem que não há saída.

Desde então, fui aprimorando a técnica. Contatos certos. Informações certas. Sempre limpo. Sempre invisível.

Até ontem.

Valentina.

Falar o nome dela em pensamento já me trazia de volta àquela rua. À luz fraca refletindo no jaleco branco. À respiração presa. À mão trêmula cobrindo a boca.

Ela não deveria estar ali.

E, ainda assim, estava.

Voltei para dentro do quarto e sentei-me na poltrona de couro, cruzando os braços enquanto organizava a próxima etapa.

Eliminar alguém exige três coisas: tempo, padrão e oportunidade.

Primeiro, o padrão.

Plantões longos no Memorial Peace. Emergência. Turnos imprevisíveis, mas rastreáveis. Provavelmente sai sozinha após madrugadas exaustivas — como ontem.

Segundo, o tempo.

Não posso agir imediatamente. Uma morte tão próxima do “suicídio” da madrugada levantaria suspeitas desnecessárias. Preciso que o medo amadureça dentro dela. Que o silêncio pareça a melhor escolha.

Terceiro, a oportunidade.

Antes de qualquer ação, vou observá-la.

Descobrir onde mora. Com quem convive. Se tem alguém que sentiria falta rápido demais. Se é cuidadosa ou distraída. Corajosa ou frágil.

Talvez ela já esteja em pânico. Talvez tenha passado a noite sem dormir, debatendo se deveria denunciar.

Mas há algo curioso na memória que tenho dela.

Ela não gritou.

Não tentou chamar atenção.

Não correu desesperadamente.

Ela apenas… se afastou.

Isso pode significar inteligência.

Ou choque.

Apoiei os cotovelos nos joelhos e deixei escapar um suspiro quase imperceptível.

Preciso vê-la novamente.

De longe, por enquanto.

Avaliar como se comporta quando acredita estar segura. Pessoas revelam muito quando acham que ninguém está olhando.

Sorri de leve.

Se Valentina decidir manter silêncio, talvez eu precise apenas garantir que continue assim.

Se decidir falar…

Então o destino dela será inevitável.

De qualquer forma, nossas vidas já estão entrelaçadas.

Ela ainda não sabe.

Mas eu sei exatamente onde encontrá-la.

E esta noite, Turin terá mais uma sombra caminhando pelas ruas.

Observando.

A noite caiu sobre Turin como um véu discreto.

As luzes da cidade começaram a refletir nas janelas dos prédios, e o movimento diminuiu até restarem apenas os que trabalham nas sombras… e os que salvam vidas enquanto o resto do mundo dorme.

Eu estava diante do meu computador novamente.

A segurança digital do Memorial Peace era decepcionante. Instituições médicas investem em equipamentos de ponta para cirurgias complexas, mas negligenciam o básico quando se trata de proteção de dados. Alguns acessos indiretos, credenciais mal protegidas, e o sistema de monitoramento se abriu diante de mim como uma porta destrancada.

As câmeras começaram a carregar uma a uma.

Recepção.

Corredor da ala cirúrgica.

Entrada do estacionamento.

Elevadores.

Avancei os horários até o início do turno noturno.

E então ela apareceu.

Valentina.

Caminhando pelo corredor com passos firmes, embora o cansaço estivesse visível na postura. O cabelo preso novamente, jaleco impecável, expressão séria demais para alguém da idade dela.

Ela parou por um segundo diante da porta do próprio consultório, respirou fundo e entrou.

Ampliei a imagem.

Nenhum sinal externo de pânico. Nenhum olhar paranoico por cima do ombro. Nenhuma conversa urgente com colegas. Ela se movia com naturalidade controlada.

Interessante.

Ou era extremamente profissional… ou estava fingindo muito bem.

Troquei para a câmera interna do corredor lateral. Alguns minutos depois, uma enfermeira entrou na sala dela. Conversaram brevemente. Valentina assentiu, pegou uma prancheta e saiu em direção à emergência.

Sem hesitação.

Sem sinais de denúncia.

Inclinei-me para trás na cadeira, analisando cada detalhe.

Se ela tivesse ido à polícia, haveria movimentação. Perguntas. Investigação. Pelo menos alguma tensão diferente no hospital.

Nada.

Talvez ainda estivesse decidindo.

Ou talvez estivesse tentando convencer a si mesma de que o que viu não era real.

Aproximei novamente a imagem quando ela retornou ao consultório, fechando a porta atrás de si. Por um instante, ficou parada, apoiando as mãos na mesa. A cabeça baixa. Ombros levemente tensionados.

Ali estava.

O peso.

Ela lembrava.

Sorri discretamente.

O medo estava lá. Silencioso. Contido.

E isso tornava tudo mais interessante.

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