Florescem a noite (a acompanhante do CEO)
Florescem a noite (a acompanhante do CEO)
Por: Maya Saint
Introdução.

CAPÍTULO 1 

 

Chovia fraco quando Maia destrancou o pequeno portão de madeira da casa.

A madeira velha rangeu assim que ela empurrou a entrada, e o cheiro de terra molhada tomou conta do ar imediatamente. Era sempre assim depois de um dia chuvoso. O quintal parecia respirar junto com ela.

Os saltos altos afundaram levemente no caminho de pedras que ela mesma havia colocado meses atrás assim que alugou essa casa, num domingo inteiro de sol forte e música baixa tocando no celular.

A casa ficava em um bairro um pouco afastado da zona sul da cidade. Longe dos prédios luxuosos, dos restaurantes caros e dos hotéis onde passava grande parte das noites fingindo pertencer àquele mundo.

Ali, ninguém imaginaria quanto dinheiro alguns homens pagavam para passar algumas horas ao lado dela.

E Maia gostava disso.

Gostava do anonimato.

Do silêncio.

Da simplicidade.

A casa era pequena, antiga e simples, mas o quintal era o único luxo do qual ela se recusava a abrir mão.

Mesmo que significasse trabalhar mais.

Mesmo que significasse aceitar encontros que odiava.

Porque aquele lugar… era a única coisa que ainda fazia ela sentir que existia alguma parte intacta dentro dela.

A chuva fina escorria pelas folhas largas da bananeira no canto do terreno. Perto do muro havia um pinheiro alto que fazia sombra durante quase toda a tarde, e mais perto da varanda ficava a pequena horta suspensa feita de tijolinhos aparentes que ela mesma construiu depois de assistir vídeos na internet durante madrugadas insones.

Manjericão.

Alecrim.

Cebolinha.

Hortelã.

Ela cuidava de tudo sozinha.

Às vezes chegava em casa às três da manhã e ainda assim molhava as plantas antes de dormir.

Como se aquilo mantivesse alguma parte dela viva.

O salto ficou abandonado perto da varanda antes mesmo que ela acendesse as luzes da sala. Os pés doíam. O maxilar também. Ela nem percebeu o quanto estava apertando os dentes durante o encontro até sentir o gosto metálico da tensão descendo pela garganta.

Por alguns segundos, Maia apenas ficou parada no meio do quintal observando a chuva fraca cair sobre as folhas.

Tentando voltar a ser ela mesma.

Porque aquela mulher que entrava em restaurantes usando vestidos caros, perfume marcante e um sorriso perfeitamente calculado… não era exatamente ela.

Era uma versão construída.

Uma necessidade.

Uma personagem.

Ela caminhou até o banheiro, tirando os brincos devagar. O reflexo no espelho ainda parecia o de outra pessoa. Boca vermelha. Olhar afiado. Postura impecável.

Megan.

Esse era o nome que usava nos encontros.

Às vezes Maia pensava que Megan sobreviveria ao fim do mundo antes dela.

Abriu a torneira e lavou o rosto lentamente até a maquiagem escorrer pela pia branca. Era sempre naquele momento que a armadura começava a cair.

Sem o batom.

Sem os cílios postiços.

Sem a voz baixa e provocante.

Restava só ela.

Cansada.

Muito cansada.

Depois do banho, colocou uma camiseta velha da faculdade e prendeu o cabelo ainda molhado. O cheiro de café antigo misturado com terra úmida preenchia a casa. Livros estavam espalhados pela mesa da cozinha ao lado de folhas de projetos da faculdade, algumas canetas e um vaso pequeno de lavanda.

Ela gostava disso.

Gostava de coisas simples.

Luz baixa.

Chuva na janela.

Terra molhada.

Silêncio.

Gostava de fingir que tinha uma vida normal.

Sentou na cama e puxou o diário da gaveta.

A capa já estava desgastada nos cantos.

Abriu em uma página em branco.

“Hoje eu fui Megan outra vez.”

A caneta parou por alguns segundos.

“E acho que estou ficando boa demais nisso.”

Maia mordeu o interior da bochecha antes de continuar escrevendo.

“O cliente de hoje não tirava os olhos de mim. Homens ricos sempre olham como se estivessem comprando alguma coisa, mas esse era diferente. Ele me observava como se tentasse decifrar cada movimento que eu fazia”

Ela soltou o ar devagar.

“O pior é que eu consegui atuar perfeitamente.”

Perfeitamente.

Ela escreveu aquilo e sentiu vontade de rir.

Era engraçado pensar que a menina que saiu aos 16 anos da casa dos pais e que distribuía panfletos no centro da cidade para ter o que comer agora sabia exatamente:

como sorrir,

como tocar,

como inclinar a cabeça,

como fazer um homem acreditar que era especial.

Tudo aprendido para sobreviver.

Seu celular vibrou em cima da cama.

Uma mensagem.

Número desconhecido.

Ela franziu a testa.

“Você ficou ainda mais bonita depois que te fodi.”

O ar pareceu sumir do quarto.

Maia leu a frase duas vezes.

Depois uma terceira.

O estômago afundou lentamente.

Porque ela nunca dava seu número pessoal.

Nunca.

E naquele instante, sentada na própria cama, ouvindo a chuva bater no telhado da pequena casa enquanto o cheiro de terra molhada invadia o quarto…

Pela primeira vez em muito tempo…

Maia sentiu medo de verdade.

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