Capítulo 4
Com os olhos turvos, Melina ergueu a cabeça, confusa. Viu vagamente um jovem de olhos brilhantes e sorriso radiante, vestido de terno, parado à sua frente. Atrás dele, havia um homem alto e esguio, com o paletó jogado sobre os ombros e um chapéu cobrindo parte do rosto, impossível distinguir suas feições. Ainda assim, emanava uma aura poderosa de autoridade.

Parecia... alguém importante.

Melina olhou ao redor, achava que estava num canto, mas percebeu que estava bem na entrada do estacionamento.

— Desculpe, eu... — Ela pediu desculpas instintivamente e tentou se levantar para abrir caminho. Porém, de repente, sentiu a cabeça pesada, o mundo girou, e ela caiu.

Um abraço forte e firme a segurou.

Ela quis abrir os olhos, mas a tontura intensa a arrastou de volta à inconsciência.

— Senhor, ela desmaiou? Isso é...

— Leve-a ao hospital. — O homem estava prestes a entregá-la ao assistente quando uma rajada de vento afastou os cabelos do rosto dela, revelando o rosto delicado diante dele.

Ele a encarou, apertou o abraço. Logo em seguida, pegou-a no colo e carregou-a até o carro.

— Cancele o jantar. Leve-a ao hospital. — Ordenou em voz baixa.

Melina sofria de anemia severa, o que a deixava fraca e propensa a desmaios.

Ao recuperar a consciência, sentiu-se um pouco mais lúcida. O cheiro de desinfetante indicava hospital. Ela tentou abrir os olhos, mas estava sem forças, seu corpo estava dolorido e fraco.

De repente, ouviu duas vozes familiares. Vozes essas que perfuraram seu coração como agulhas.

— Leonardo... — Era Débora, em voz baixa. — Será que... podemos pedir ao médico para remover o útero dela enquanto ela está inconsciente? — Ela fez uma pausa. — Quando ela acordar, dizemos que foi para salvar a vida dela. O que acha?

Os dedos de Melina se contraíram, com os olhos ainda fechados, ela permaneceu imóvel, ouvindo atentamente.

— Não, Débora. Isso seria cruel demais.

— Cruel? — A voz dela tremeu com as lágrimas. — Mas ela vive tentando engravidar. O que faremos? A Clarinha está crescendo, e o bebê vai nascer em breve. Se ela tiver um filho biológico, como poderá tratá-los bem? Ela nunca aceitaria cuidar deles como se fossem filhos dela!

— Ela tem anemia grave, não tem condições para engravidar. Eu sei disso. — Disse Leonardo com absoluta certeza. — Não se preocupe com isso.

— Mas não dá para fazer ela abortar sempre! E se da próxima vez a gravidez vingar? — Débora questionou Leonardo, com a voz embargada pelas lágrimas. — E a Clarinha? Não posso deixar meus filhos serem bastardos para sempre!

— Ela não vai engravidar. — A voz de Leonardo tornou-se fria. — Já troquei as vitaminas que ela toma à noite por anticoncepcionais.

Melina abriu os olhos de repente, encarando atentamente os dois perto da janela à sua direita.

Eles não perceberam.

— Leonardo, você é tão bom para mim. Eu te amo. — Débora se aninhou nele.

— Claro. Nós somos uma verdadeira família. — Leonardo beijou a testa dela.

Ao ver aquela demonstração de afeto, Melina ficou pálida. Ela estava prestes a se levantar para confrontá-los quando uma onda de tontura a atingiu e ela desmaiou novamente.

Graças ao atendimento médico, três dias depois, ela recebeu alta.

Leonardo, Débora e Clarinha foram buscá-la.

— Madrinha! Você finalmente saiu! Eu estava tão preocupada! — Clarinha correu até ela com um grande buquê de rosas brancas.

— É mesmo? — Melina abaixou os olhos, com a voz fria.

— Sim! Todas as noites, eu pedia às estrelas para você melhorar!

— Melina, ela está falando sério. Essa criança é muito apegada a você, sempre falando que quer ir morar com você até que esteja completamente recuperada. — Débora sentou-se ao lado, com o mesmo sorriso gentil de sempre.

Os dedos de Melina, escondidos na manga, se fecharam com as unhas quase cravando nas palmas das mãos.

— Oh! Clarinha, você quer morar comigo?

— Sim, madrinha! — Clarinha pulou de alegria. — Eu e a mamãe! Eu vou cantar para você, e a comida da mamãe é muito gostosa. Nós vamos cuidar de você e garantir que você fique bem gordinha, pode ser?

Os nós dos dedos de Melina ficaram brancos de tanta força, e o último resquício de força que sustentava seu corpo desapareceu.

— E você, o que acha? — Ela olhou para Leonardo, que até então permanecia em silêncio.

— Já que a assistente Débora está oferecendo, e a Clarinha gosta tanto de você, acho que não tem problema. Estou ocupado com o trabalho mesmo. — Ele segurou sua mão enquanto falava.

— Está bem, se você acha que não tem problema, então está tudo bem.

"Já não importa. Restam apenas vinte e cinco dias. A casa, o homem, a empresa... pode ficar com tudo. Débora, quero ver se você consegue lidar com esse 'grande presente'", pensou Melina.

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