De volta ao seu quarto no Residencial Monte Real.
Melina sentiu um arrepio percorrer seu corpo, mal conseguia se manter em pé.
Reunindo suas últimas forças, ela abriu a gaveta há muito trancada. Lá dentro estavam os objetos que ela guardara durante anos, todos carregados de lembranças.
Uma pedra em formato de coração.
Um cartão-postal desbotado da Torre Eiffel.
Um antigo vinil dos Beatles.
Uma corrente de prata mal trabalhada por Leonardo em sua juventude.
E um maço de cartas amarradas com fita, as antigas cartas de amor para ela.
Cada presente precioso que ela havia guardado como tesouro.
Mas o que ela presenciou há poucos dias fez com que todas aquelas memórias parecessem falsas e sem valor, como uma enorme piada.
Falsas.
Cinco anos de mentira.
Qual era o sentido de guardar todo aquele lixo?
Sem expressão alguma, ela estendeu a mão e varreu tudo para dentro da lixeira.
O mundo pareceu girar descontroladamente diante dos seus olhos, suas têmporas latejavam, como se fossem explodir de tanta dor.
Ela tinha acabado de se despir quando se jogou sobre a cama macia.
De repente, com um estrondo, a porta foi aberta de uma vez.
Clarinha, vestindo um tutu rosa, entrou correndo e, sem dizer uma palavra, pulou na beira da cama, sacudindo o braço de Melina com suas mãozinhas.
— Madrinha, madrinha! Vamos brincar de cavalinho! Igual da última vez! Vamos, eu quero ser a cavaleira! — O rostinho dela ficou vermelho de tanto entusiasmo.
Diante dos olhos de Melina, surgiu de repente a cena de alguns meses atrás, na noite em que tinham acabado de se mudar para a casa nova.
Imersa na expectativa de ter uma família, ela tratava Clara como sua própria filha. Sem hesitar, ajoelhou-se no tapete, permitindo que a menina subisse nas suas costas.
Naquele dia, Clarinha pulava alegremente sobre ela. Quanto mais animada a criança ficava, mais irônica soava a risada de Débora, e ela, completamente alheia, aceitava tudo de bom grado, deixando-se montada como se fosse natural.
Ao lembrar que, naquela época, ela realmente chegou a cogitar adotar Clara, uma forte onda de náusea voltou a subir pela sua garganta. Ela se esforçou para se sentar, ofegante.
— Clarinha, a madrinha sempre foi boa com você, não foi? — Encarando o rostinho à sua frente, Melina perguntou com a voz seca.
— Sim! A madrinha é a melhor do mundo! — Clarinha assentiu com firmeza, antes de completar. — Se a madrinha pudesse ser minha mãe, seria ainda melhor!
— Mas você já tem a sua mãe. Por que quer que eu seja sua mãe? — Melina se esforçou para estabilizar o corpo trêmulo e fingiu não entender.
— Porque eu não quero que a madrinha e o papai tenham um irmãozinho ou irmãzinha! Assim o papai só vai amar a Clarinha! — Clara inclinou a cabeça e respondeu com voz clara.
— Madrinha, você pode me adotar como sua filha? Eu prometo que vou ser ainda mais obediente do que uma filha de verdade! Quando você ficar velhinha, eu vou ganhar muito dinheiro para cuidar de você! — Ela se jogou de repente nos braços de Melina, abraçando seu pescoço com força.
Aquelas palavras não soavam como algo que uma criança de cinco anos diria. Claramente havia alguém por trás ensinando.
O sangue no corpo de Melina pareceu congelar. Uma forte repulsa física a tomou, e ela, num impulso, empurrou Clara com força.
Sem esperar, a menina cambaleou e caiu sentada no tapete.
Percebendo a agitação da dona, a cachorrinha lulu-da-pomerânia, Peggy, pulou rapidamente na cama, esfregando-se contra Melina e soltando pequenos ganidos de preocupação.
Os dedos de Melina afundaram na pelagem macia de Peggy, acariciando-a repetidas vezes.
Ela ergueu o olhar para Clara, ainda sentada no chão, surpresa, e disse com voz fria e clara:
— Eu já tenho a Peggy, é o suficiente. Não tenho interesse em adotar uma criança. — Ela balançou a cabeça, o olhar vazio. — Me desculpa, Clarinha.
Clara ficou atordoada por alguns segundos antes de começar a chorar desesperadamente, o grito ensurdecedor e aflito ecoou por todo o quarto.
De repente, como uma pequena bomba, ela avançou e bateu com força contra o abdômen de Melina, ainda cravando os dentes em seu braço.
Melina tremeu de dor, grandes gotas de suor frio escorreram por sua testa.
A porta entreaberta foi empurrada com violência naquele instante. Leonardo entrou às pressas, com o rosto tomado pela preocupação.
— O que aconteceu? Por que a Clarinha está chorando no chão?
Ele nem sequer olhou para Melina, caminhando diretamente até a criança.
— Buá... papai! — Clara, como se tivesse encontrado um salvador, se jogou nos braços dele e apontou para Melina. — A madrinha não gosta mais de mim! Ela não quer que eu seja filha dela e ainda me empurrou com força, eu caí e doeu muito...
— Melina, isso é verdade? — Leonardo pegou Clara no colo e lançou um olhar afiado como uma lâmina para ela.
Melina, recostada na cabeceira da cama, não respondeu. Apenas olhou para ele, com os olhos rapidamente ficando vermelhos.
Leonardo percebeu que a situação talvez fosse mais complicada do que parecia. Seu tom suavizou um pouco, mas ele não afrouxou o abraço em Clara nem por um instante:
— Melina, vou levar a Clarinha para fora e acalmá-la primeiro. Não se preocupe, eu já volto para ficar com você.
Sem esperar resposta, ele saiu rapidamente, carregando Clara, que ainda soluçava.
O quarto voltou a um silêncio mortal. Melina deixou o corpo cair de volta no travesseiro, exausta, e então percebeu algo.
A tontura estava ficando cada vez mais forte. E aquela anemia severa que ela havia desenvolvido tinha começado exatamente, quando Débora voltou ao trabalho após o fim de sua licença-maternidade.
Naquela época, por desmaiar frequentemente sem motivo aparente, Leonardo a fez ficar em casa para se recuperar.
Como ela e Débora eram amigas próximas, antes de sair, Melina transmitiu toda a sua experiência profissional a ela, garantindo que pudesse ajudar Leonardo em tudo, só então deixou o cargo de vice-presidente.
Melina nunca havia desconfiado de nada, mas agora algo parecia errado.
Ela imediatamente ligou para o assistente Daniel:
— Daniel, ainda existem amostras dos meus exames no hospital. Peça para alguém levá-las para uma análise mais detalhada.
— Sim, senhorita. Vou providenciar isso agora mesmo.
Só ao entardecer Leonardo voltou, carregando uma bandeja com mingau e alguns acompanhamentos leves.
Ele colocou a bandeja na mesa de cabeceira, ficou de costas por alguns segundos antes de se virar.
— Melina, você empurrou mesmo a Clarinha? — Sua voz continha uma insatisfação evidente.
— Sim. — Melina baixou o olhar.
— Ela é só uma criança, como você pôde... — O tom de Leonardo se tornou mais duro.
— Ela disse que não queria que tivéssemos filhos. Que queria ser a única. Ela nem é nossa filha biológica. Como uma criança de cinco anos falaria algo assim? — Melina ergueu os olhos de repente.
O corpo de Leonardo enrijeceu quase imperceptivelmente.