Capítulo 6
Assim que o grupo atravessou as portas do hospital, encontraram Bernardo do lado de fora da sala de cirurgia, compondo uma imagem desoladora.

Ele estava com as roupas encharcadas de sangue, o suor frio escorrendo pela testa e um pânico indomável transbordando pelo olhar, uma vulnerabilidade tão crua que Rafaela nunca o tinha visto em um estado tão miserável.

Os amigos logo se aglomeraram ao seu redor, bombardeando-o com perguntas sobre o que havia acontecido, enquanto ele puxava os próprios cabelos em um gesto de puro desespero.

— Foi tudo culpa minha. — A voz dele embargou, carregada de uma dor palpável. — Eu nunca deveria ter dito aquelas coisas para provocar a raiva dela, muito menos ter deixado que fosse embora sozinha daquele jeito. Ela só pisou fundo no acelerador e sofreu esse acidente terrível porque queria me castigar...

Ouvir aquele homem assumindo toda a culpa pelo desastre fez os cílios de Rafaela tremerem de leve, enquanto uma onda de clareza amarga a atingia.

Se aquelas palavras que ele havia dito antes eram apenas da boca para fora por pura birra, qual seria a verdadeira realidade?

A verdade nua e crua era que ele sempre esteve esperando Natacha, ansiando por uma reconciliação desde o primeiro dia?

Sim, talvez fosse exatamente isso. Ela balançou a cabeça de forma sutil, recusando-se a deixar que aqueles pensamentos a corroessem ainda mais.

Naquele instante, as portas duplas se abriram e uma enfermeira surgiu com uma expressão de extrema urgência, cortando o silêncio pesado do corredor.

— A paciente teve uma hemorragia muito grave e o nosso estoque de sangue está no fim. — Ela avisou, olhando ao redor com seriedade. — Algum de vocês tem sangue tipo O para fazer uma doação de emergência?

Os amigos se entreolharam em um silêncio constrangido, pois todos sabiam que eram do tipo A e do tipo B, e ninguém ousou dizer nada.

Bernardo era o único com o sangue compatível. Sem hesitar por um único segundo, ele arrancou o casaco sujo e vestiu a roupa esterilizada, sumindo pelos corredores atrás da equipe médica.

O tempo pareceu se arrastar de forma torturante, até que, meia hora depois, a mesma enfermeira reapareceu amparando um Bernardo pálido como cera. Era impossível saber a quantidade exata de sangue que havia sido retirada de suas veias, mas ele estava tão fraco e tonto que acabou desabando nos braços de Rafaela antes mesmo de conseguir dar um passo firme.

A enfermeira permaneceu ali, com o rosto ainda tenso, e fez um novo apelo ao grupo.

— O quadro dela apresenta uma melhora bem gradual, mas precisamos de mais 400 mililitros. Vocês conseguem entrar em contato com algum outro amigo que tenha o mesmo tipo sanguíneo?

Durante aquele tempo de espera, todos já haviam vasculhado as listas de contatos em seus celulares, ligando para conhecidos e familiares, sem conseguir encontrar uma única pessoa disponível.

Diante daquele silêncio sepulcral que tomou conta do ambiente, uma angústia feroz consumiu Bernardo, que reuniu as últimas forças que lhe restavam para ficar de pé, apoiando-se na parede.

— São só mais 400 mililitros? Podem tirar de mim de novo. — Ele exigiu, com uma teimosia implacável.

A enfermeira se virou para encará-lo com os olhos arregalados, chocada com tamanho descaso pela própria vida.

— Você já doou seiscentos mililitros! Vai acabar sofrendo um colapso se continuarmos com isso!

O pavor tomou conta do rosto dos amigos, que se aproximaram de imediato para tentar colocar algum juízo na cabeça dele.

— Bernardo, você precisa parar com isso agora mesmo. — Um deles pediu, segurando o braço do rapaz. — Vou pedir para o meu secretário rodar a empresa inteira e achar alguém para vir até aqui doar, relaxa.

Bernardo, no entanto, balançou a cabeça em uma recusa categórica, insistindo com a voz embargada por uma determinação inabalável:

— A Natacha não tem todo esse tempo para esperar.

Para provar que falava sério, ele dobrou a manga da camisa suada, expondo a pele já marcada e arroxeada pela agulha anterior.

Ao testemunhar aquela insistência que beirava a loucura, Rafaela não conseguiu mais segurar as palavras que estavam presas em sua garganta e decidiu intervir.

— Os médicos estão fazendo o possível lá dentro, Bernardo. Podemos muito bem entrar em contato com outros hospitais e solicitar uma transferência de bolsas de sangue, não há motivo para você colocar a própria vida em risco desse jeito.

Ele travou o maxilar por um breve segundo, ignorando por completo o apelo da mulher, e deu as costas para retornar à sala.

Observar aquela silhueta caminhando de volta para o bloco cirúrgico sem um único pingo de hesitação mergulhou todos os presentes em um mutismo absoluto. Os amigos soltaram suspiros longos e pesados, carregados de uma frustração imensa por não conseguirem impedir tamanho absurdo.

— É sempre a mesma história, basta o nome da Natacha estar no meio para o Bernardo perder a cabeça por completo. — Um deles resmungou, esfregando o rosto cansado. — Lembra daquela vez em que ele arrumou uma briga daquelas por causa dela e acabou com a perna quebrada? Passou três meses mofando num leito de hospital, e assim que recebeu alta, a primeira coisa que fez foi ir atrás do cara para terminar o serviço!

— E quem poderia esquecer? — Outro amigo concordou, balançando a cabeça em sinal de desaprovação. — Na época do colégio, ele apostou um salto de paraquedas de cinco mil metros de altitude só para conseguir aquela bendita corrente que ela tanto queria. O equipamento falhou no meio da queda e ele quase perdeu a vida por pura irresponsabilidade. E olha só agora, arriscando a própria pele para salvá-la de novo... Eu fui um idiota por tentar empurrar os dois para se resolverem, achando que ele ainda tinha sentimentos por ela. No fim das contas, a gente só causou mais confusão!

A conversa fluía entre eles de maneira tão espontânea que pareciam ter apagado a existência de Rafaela ali no mesmo ambiente.

Absorver todos aqueles relatos sobre o passado tempestuoso do rapaz a deixou entorpecida. Foi apenas naquele exato momento que a ficha caiu, mostrando-lhe o quão ridícula e ingênua tinha sido a esperança que havia brotado em seu coração no dia do próprio casamento.

A ideia romântica de que o tempo curaria tudo e de que ela poderia, aos poucos, aquecer um coração já entregue a outra pessoa não passava de uma grande ilusão.

O amor não obedecia a regras justas.

Desde o primeiro instante, ela havia feito a escolha errada. Diante daquela situação onde já não restava mais nada a ganhar, a única saída que lhe cabia era aceitar a derrota de cabeça erguida.

O relógio no alto da parede parecia ter parado no tempo até que, por fim, a temida luz vermelha da sala de cirurgia se apagou.

A equipe médica cruzou as portas empurrando duas macas lado a lado, fazendo com que o coração de todos desse um salto no peito enquanto corriam para saber o veredito.

O médico enxugou o suor da testa com as costas da mão e observou o rosto desacordado de Bernardo, soltando um murmúrio carregado de admiração genuína:

— Imagino que os dois sejam namorados, não é? Hoje em dia é muito raro encontrar um rapaz disposto a um sacrifício desses pela pessoa que ama.

Alheia ao alvoroço do grupo, Rafaela permaneceu alguns passos atrás de todos. Ela ergueu o rosto em direção à forte luz fluorescente do teto e permitiu que um sorriso mudo, carregado de uma tristeza lúcida, escapasse por seus lábios.
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