Capítulo 7
O relógio já marcava o meio-dia do dia seguinte quando Bernardo despertou daquele sono denso e exaustivo.

Antes mesmo que sua consciência retornasse por completo ou que ele compreendesse o espaço ao seu redor, o nome de Natacha escapou de seus lábios num ímpeto de angústia.

— A cirurgia dela correu bem? Como ela está agora? Já acordou? — Disparou ele, atropelando as palavras com a voz rouca pela fraqueza.

Diante daquela aflição tão palpável, Rafaela sentiu o peso da noite em claro cobrar o seu preço. Ela assentiu com um gesto contido, enquanto a própria voz soava áspera pelo cansaço acumulado.

— O médico garantiu que não houve complicações graves, precisando apenas de alguns meses de repouso absoluto para se recuperar. — Respondeu ela, tentando transmitir uma tranquilidade ausente.

Ao ouvir aquelas palavras, Bernardo soltou um longo suspiro, livrando-se de um peso sufocante nas costas. No entanto, a calmaria durou pouco. Ignorando as restrições médicas e as tentativas frustradas de Rafaela para contê-lo, ele afastou as cobertas em um movimento brusco, determinado a ver a garota com os próprios olhos.

A situação só foi dominada quando a enfermeira entrou no quarto com os medicamentos e o obrigou a deitar na cama outra vez.

Encarando a bolsa de soro conectada ao braço, um brilho de impaciência cruzou o olhar dele, que transbordava uma preocupação irrefreável por Natacha. Após alguns instantes de silêncio e reflexão, seus olhos pousaram na cesta de frutas sobre a mesa de cabeceira, oferecendo a desculpa perfeita para aplacar sua ansiedade.

— Rafaela, liguei para os pais da Natacha ontem à noite. Eles pegaram o primeiro voo de volta ao país e já devem ter chegado ao hospital. — Explicou ele, num tom quase de súplica. — Você poderia levar esta cesta de frutas até o quarto dela para cumprimentá-los e ver como ela está se sentindo?

Rafaela o encarou num silêncio profundo, absorvendo a gravidade daquele pedido inusitado por longos segundos antes de murmurar uma concordância fraca. Sem dizer mais nada, ela segurou a cesta de frutas e deixou o quarto com passos pesados, subindo as escadas em direção ao andar superior onde Natacha estava internada.

Ao levantar a mão para bater na porta do quarto indicado, Rafaela hesitou ao notar a madeira entreaberta. Pela fresta estreita, uma cena inesperada se revelou. Natacha descansava aninhada de forma íntima e carinhosa nos braços de um homem desconhecido.

— Heitor, você não prometeu me levar para conhecer a sua família? Por que apareceu aqui sozinho hoje? — Indagou ela, esbanjando charme.

— A minha vontade era trazer meus pais comigo, mas achei o momento ruim com você ainda se recuperando dessa doença. Prometo te levar para a nossa casa assim que receber alta, tudo bem para você? — Respondeu o rapaz, afagando os cabelos dela.

O choque diante daquela conversa fez os dedos de Rafaela se fecharem com força ao redor da alça da cesta, as unhas quase marcando a pele. A revelação a deixou atônita, pois Natacha estava em um relacionamento sério, a ponto de ser apresentada aos sogros, enquanto Bernardo se consumia de preocupação por ela no andar de baixo?

Antes que pudesse processar o turbilhão de pensamentos, a aproximação de um médico em sua ronda de rotina obrigou a abertura total da porta, sobressaltando o casal no interior do quarto.

Ao erguer os olhos e deparar com Rafaela parada ali no corredor, a feição de Natacha se transformou, substituindo a doçura por uma palidez de susto.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntou ela, sem esconder a hostilidade na voz.

Em vez de retrucar ou exigir explicações, Rafaela optou pelo silêncio. Ela depositou a cesta de frutas no chão frio do corredor, deu as costas para a cena e iniciou seu trajeto de volta para as escadas, sentindo o peito apertar de indignação.

Ignorando a debilidade de seu estado de saúde, Natacha saiu em disparada pelo corredor, alcançando a outra mulher no topo da escadaria e agarrando seu braço com uma força surpreendente.

— Você está indo correndo fazer fofoca para o Bernardo, não é mesmo? — Acusou ela, os olhos semicerrados em tom de ameaça.

Rafaela virou o rosto sem pressa, capturando o traço de pânico cruzando as feições da rival por uma fração de segundo, e devolveu um olhar gélido.

— Se você já tem um namorado e está construindo uma vida com ele, por que insiste em manter o Bernardo preso nessa teia de ilusões? — Questionou, a voz soando firme e afiada como uma lâmina.

Diante da acusação direta, Natacha ergueu uma das sobrancelhas num gesto de deboche, recuperando a compostura e a arrogância num piscar de olhos.

— Gosto de manter as minhas opções abertas e ter os dois na palma da minha mão. É um prazer enorme ser o centro das atenções e aproveitar os mimos que me oferecem, será que você é ingênua demais para perceber isso? — Rebateu ela, sem um pingo de remorso.

— Você precisa mesmo pisotear a sinceridade e os sentimentos dele dessa forma tão cruel? — Indignou-se Rafaela, incapaz de compreender tamanha frieza.

Observando a revolta estampada no rosto da interlocutora, Natacha soltou uma risada de escárnio, transbordando exibicionismo em cada sílaba.

— Tenho os meus encantos e sei muito bem como deixar os homens obcecados por mim. Nem mesmo o Bernardo, o garoto de ouro, consegue resistir aos meus caprichos. Qual o problema, isso te corrói de inveja? Seria mais digno admitir a sua inferioridade. Quem sabe, num dia de bom humor, eu não decida te ensinar alguns truques para prender um marido?

Aquele orgulho doentio por atitudes tão manipuladoras deixou Rafaela sem palavras, paralisada pela audácia da rival. Esse silêncio carregado de perplexidade serviu apenas para inflar o ego de Natacha.

Com um sorriso vitorioso brincando nos lábios, ela percorreu a figura de Rafaela dos pés à cabeça com um olhar de desprezo, até que sua atenção parou na aliança de casamento brilhando no dedo dela.

— Você não passa de alguém que pegou as minhas sobras, então me diz, com que moral você quer bater de frente comigo? — Disparou Natacha, destilando veneno a cada palavra. — Vou te contar um segredinho. Naquela época, nunca saí do país coisa nenhuma. A verdade é que bebi demais na noite anterior, fiquei na farra com dois veteranos da faculdade até a madrugada e não consegui sair da cama no dia seguinte. Se o Bernardo não tivesse ficado mordido de raiva e tentado me provocar com um casamento repentino, você jamais teria a chance de virar a esposinha dele nesta vida!

A raiva que Rafaela vinha engolindo a tanto custo entrou em erupção, rompendo qualquer limite de autocontrole e civilidade. Cega pela indignação diante de tamanha baixeza, ela ergueu a mão e desferiu um tapa no rosto da garota.

O impacto passou longe de ser forte, mas Natacha encenou um golpe brutal, despencando escada abaixo num teatro impecável.

Antes que Rafaela pudesse processar o absurdo daquela queda proposital, um empurrão violento a tirou do caminho.

Bernardo acabava de sair do elevador no andar. Ele desceu os degraus aos pulos, o desespero estampado nas feições ao acolher o corpo encolhido de Natacha em seus braços, enquanto lançava um olhar carregado de fúria contida na direção da esposa.

— Ela não te fez nada de mal para merecer isso! Por que você precisava agir com tanta agressividade e bater nela assim? — Rugiu ele, a decepção escurecendo sua expressão.

Aproveitando a oportunidade perfeita, Natacha virou o rosto de propósito para exibir a marca vermelha dos dedos na pele clara, soluçando num choro de dar pena enquanto se escondia no abraço protetor dele.

— Deixa isso para lá, Bernardo. A Rafaela deve ter muita raiva acumulada por eu ser a sua ex-namorada, e eu entendo o lado dela nessa história toda. Não guardo mágoa, vamos sair daqui, por favor... — Sussurrou ela, com a voz muito embargada e trêmula.

Aquela atuação impecável de vitimismo bloqueou as palavras na garganta de Rafaela, formando um nó de injustiça quase impossível de desatar. Observando o rosto do marido assumir uma expressão cada vez mais sombria, ela teve certeza de que qualquer tentativa de explicação ou defesa seria um desperdício de energia diante daquela cegueira.

Para Bernardo, aquele silêncio profundo se traduziu como uma confissão inegável de culpa. Com o semblante pesado de frustração, ele desviou o olhar com repulsa, acomodou a garota nos braços e virou as costas para descer o resto da escadaria.

Ele sumiu pelo corredor do andar inferior sem lhe conceder um único olhar de despedida, deixando apenas um vazio esmagador para trás.
Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App