Capítulo. 02. Bom dia, Vizinha
Quando voltei a mim de verdade, já era manhã.
A luz fraca entrava pela fresta da cortina. Eu estava nua, o corpo ainda pesado, a pele marcada. O cheiro dele impregnava o lençol.
As roupas dele continuavam jogadas no chão do meu quarto — a camiseta preta, a calça, o cinto. Me xinguei internamente, tentando criar coragem para sair dali e encarar o estranho que eu tinha deixado me foder contra a parede na noite anterior.
Naquele momento eu desejei o clichê mais cafajeste possível: o cara que abandona a moça na cama logo de manhã, sem nem deixar o contato, e depois finge que nada aconteceu. Queria que ele tivesse sumido. Assim eu poderia fingir que a noite inteira não tinha existido.
Levantei e fui tomar banho na esperança de que, ao sair do banheiro, ele já tivesse ido embora.
Quando saí, não havia mais roupas no chão.
Aliviada — e grata, por mais ridículo que isso fosse —, vesti a primeira coisa que achei: uma camisetona surrada do meu pai e um short velho com um buraco nos fundos. Cabelo molhado, emaranhado de arame, sem pentear. Estava mentalmente cansada e só queria procrastinar o dia inteiro. Fui para a cozinha sem nem olhar no espelho.
Minha cara quase caiu no chão.
Ele estava no balcão da minha cozinha, apenas de calça, com a camiseta jogada nos ombros, tomando café. Cabelos pretos bagunçados, olhos âmbar ainda sonolentos, e o leão tatuado que começava na lateral do abdômen definido e terminava na virilha.
Eu não sabia se ficava com medo por ter um estranho ali, com raiva por ele ser tão folgado de ter mexido na minha cozinha, ou… agradecida, porque ele tinha preparado um lanche para mim também.
— Bom dia, vizinha!
Ele disse com um lindo sorriso travesso nos lábios.
— Bom dia, vizinho! — retribuí, mas minha cara e meu tom de voz não eram nada amigáveis.
Ele me analisou de cima a baixo — da camisetona surrada ao short furado, do cabelo emaranhado à cara de quem tinha sido bem comida na noite anterior — e soltou uma gargalhada baixa antes de continuar nosso estranho diálogo.
— Dá pra ver pela sua cara que você não me quer aqui. Não se preocupe, só quero conversar e esclarecer o que houve ontem e logo depois eu sumo daqui.
Sentei. Aceitei o café. Depois de tudo que tinha acontecido, eu pelo menos precisava deixar claro que não se repetiria.
— Bom, pra começar, vizinha… a foda de ontem foi muito boa. É sério! Você realmente foi maravilhosa e a gente se encaixa bem um no outro. Mas eu acho que você é louca e precisa procurar ajuda especializada.
Quase me engasguei com o café.
— Olha, veja bem… ontem eu era uma simples mulher bêbada e revoltada por ter sido largada pelo namorado egoísta e babaca! Não há nada demais nisso — falei bem alterada.
— Você também é péssima mentindo. Quando você entrou em crise na escada eu te peguei no colo e trouxe para dentro da sua casa. Eu te cheirei e você não engoliu nenhuma gota de álcool na noite anterior. Pude confirmar pelo sabor da sua boca quando você me agarrou feito louca e enfiou a língua na minha garganta. A propósito, você me deve uma camiseta nova.
Ele esticou a camisa para que eu visse o rasgo.
Muito envergonhada, pedi que saísse da minha casa. Ele concordou sem rodeios. Acompanhei até a porta.
— Olha, eu não sei o que houve com você. Claramente você não estava bem. Eu não vi problema em te ajudar com a sua revolta reprimida. Também não estou reclamando do que aconteceu ontem entre nós… muito pelo contrário. Compensou a bofetada que eu recebi por sua causa. E caso precise de mim de novo, meu nome é Allan. É só bater na porta do lado. Vai ser um prazer ajudá-la.
Ele me deu uma piscadela cúmplice.
Naquele ponto eu não sabia que poderia existir tamanho descaro.
— Muito obrigada, Allan. Eu me chamo Sara. E eu não vou precisar da sua ajuda novamente, vizinho.
Fechei a porta.
E, mesmo envergonhada até a alma, já sabia que estava mentindo.