Capítulo. 05. Ansiedades

Hoje estou aqui tendo todo esse devaneio sobre o caos que anda a minha vida porque estou à beira de mais uma crise.

Começa sempre assim.

Pensamentos de como nada saiu do jeito que eu sonhei. De como eu sempre me esforço e, na maioria das vezes, é em vão. De como ainda vai demorar para melhorar… se é que vai melhorar. A carreira que não decola. As dívidas que não param de crescer. A solidão que eu finjo não sentir quando estou ocupada demais para pensar.

Aí vem a sensação que eu mais detesto.

Mesmo estando sentada, parece que algo pesado se senta bem em cima do meu peito. Só que o aperto não vem de uma vez. O peso vem pressionando lentamente, centímetro por centímetro, até que respirar vira um esforço consciente. É torturante. As mãos formigam. A visão fica um pouco turva nas beiradas. O mundo parece fechar em volta de mim, e eu fico pequena demais dentro do meu próprio corpo.

Logo hoje.

Logo hoje que eu me dei conta de uma verdade que vinha empurrando para debaixo do tapete há meses: se eu continuar assim, vou acabar me apaixonando de verdade.

Se é que já não estou.

O pensamento sozinho já aperta o peito com mais força.

Eu realmente não queria chamá-lo.

Não queria bater naquela porta de novo. Não queria admitir, nem para mim mesma, que o único remédio que realmente funciona ainda está do outro lado da parede. Que depois de um ano de “só sexo”, o corpo dele virou meu ponto de segurança. Que o cheiro dele, o peso dele, a voz baixa dele quando diz “sempre que precisar” conseguem calar o barulho dentro da minha cabeça de um jeito que nenhum ansiolítico conseguiu.

Já tentei de tudo. Remédio. Terapia. Técnicas de respiração. Aplicativos de meditação que ficam acumulando poeira digital no celular. Nada me ancora por muito tempo. Nada tem o efeito imediato que o toque dele tem. E é exatamente isso que me apavora.

Só preciso de uma notícia boa.

Uma notícia boa para me acalmar.

Qualquer coisa.

Um cliente novo. Um processo que finalmente ande. Um “parabéns, doutora” de alguém que não seja obrigado a falar. Qualquer merda mínima que me faça sentir que a vida não está só me engolindo devagar.

Mas não vem nada.

O celular continua em silêncio em cima da mesa. A caixa de entrada do e-mail está vazia de coisas boas. O apartamento está quieto demais. E do outro lado da parede… também está quieto. Pela primeira vez em muito tempo, não tem gemido nenhum. Só silêncio.

O peso no peito aumenta.

Eu fecho os olhos e tento respirar fundo, contando até quatro, segurando, soltando. A técnica que a psicóloga ensinou e que quase nunca funciona quando eu mais preciso. O ar entra ralo. Sai ainda mais ralo.

O silêncio do celular começa a doer mais do que o silêncio do apartamento. É como se o mundo inteiro tivesse esquecido que eu existo. Como se eu estivesse gritando por dentro e ninguém fosse capaz de ouvir.

Minha mão já está trêmula quando pego o celular.

O dedo paira em cima do nome dele na lista de contatos.

Allan.

Alladim.

O homem que me fodeu contra a parede na primeira noite. Que me fez café na manhã seguinte com um sorriso que eu não consegui tirar da cabeça. Que abriu a porta de toalha e me ensinou o que uma língua perfurada pode fazer. Que me redescobriu e, sem querer, me viciou.

Eu não queria precisar dele de novo.

Não hoje. Não agora. Não depois de ter admitido, mesmo que só dentro da minha cabeça, que o que sinto já passou da linha do “só sexo”.

Mas o peito continua apertando.

E eu já sei como isso termina.

Comigo batendo na porta do lado.

De novo.

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