Mundo de ficçãoIniciar sessãoEvitei ao máximo encontrá-lo no corredor.
Mudei horários. Esperei o elevador com o coração na boca. Desci as escadas só quando tinha certeza de que estava vazio. Virei especialista em ouvir antes de abrir a porta, em calcular o tempo exato entre o som do trinco e o silêncio do corredor. Eu não queria vê-lo. Não queria lembrar. Não queria admitir que, no fundo, era exatamente isso que eu mais desejava. Consegui por duas semanas inteiras. Duas semanas de paz. Duas semanas fingindo que a noite da parede não tinha acontecido. Durante o dia, eu era a Doutora Sara Salles, advogada tentando sobreviver. À noite, porém, deitada na cama, o silêncio do apartamento ao lado gritava mais alto do que qualquer gemido. Eu me pegava lembrando do peso do corpo dele, da língua quente, da forma como ele me encostou na parede e me fez esquecer até meu próprio nome. Mas eu resisti. Por orgulho. Por vergonha. Por medo. Até o dia em que não aguentei mais. A crise veio sem aviso, como sempre vinha. Começou com um aperto no peito no meio da tarde, enquanto eu lia um processo. Depois, formigamento nos dedos. A respiração falhou. O quarto pareceu pequeno demais. As paredes se aproximaram. Eu tentei o chuveiro frio, tentei a respiração quadrada que a terapeuta ensinou, tentei sentar no chão da sala com os olhos fechados. Nada funcionou. O desespero subiu pela garganta como um grito preso. Eu precisava de algo real. Algo físico. Algo que me arrancasse daquela agonia imediatamente. E o único pensamento que sobrou, vergonhoso e urgente, foi ele. Antes que eu perdesse o controle de vez, bati desesperada na porta dele. Ele abriu como se já soubesse que era eu. Estava só de toalha. Os cabelos pretos molhados, ainda pingando. Gotas escorriam pelo pescoço, pelos ombros, e desciam devagar pelo peito liso. Era possível contar cada uma delas percorrendo a tatuagem do leão, contornando os músculos do abdômen e desaparecendo no traçado que sumia abaixo da cintura. Minha sanidade escorreu junto com aquelas gotas. Eu não disse nada. Não deu tempo. Me joguei nele. Abocanhei a boca, suguei a língua com fome acumulada de semanas. Foi quando senti. Uma bolinha fria, metálica, deslizando contra a minha língua. Piercing. Eu nunca tinha me imaginado com alguém assim. Sempre torci o nariz para aquilo. Na primeira noite, eu estava tão alucinada, tão consumida pela crise e pelo tesão, que nem tinha notado. Pobre desavisada. Eu não fazia ideia de como aquela mísera bolinha de metal podia ser excitante. Allan não perguntou nada. Só me puxou para dentro, fechou a porta com o pé e me levou até o banheiro. O chuveiro ainda estava ligado. O vapor quente tomou conta do ambiente enquanto ele arrancava minha blusa, descia o short pelas minhas pernas e me virava de frente para a parede fria. A água quente batia nos nossos corpos. Ele colou o peito nas minhas costas, a boca no meu pescoço, e me penetrou de uma vez. Eu gemi sem me importar com o volume. Sem me importar se alguém ouviria, sem me importar com o que aquilo significava. Pela primeira vez em muito tempo eu não estava preocupada em agradar ninguém. Só me permitia sentir. Cada estocada me puxava para fora da crise. Cada gota de água que escorria entre nossos corpos levava embora um pedaço da ansiedade. Era raiva, medo, solidão e desejo se misturando num ritmo descompassado, urgente, necessário. Gozei com um grito abafado contra o azulejo. Mas não terminou ali. Mais tarde, já na cama, com o corpo ainda úmido e o lençol torcido aos nossos pés, ele me mostrou com calma o quanto aquela bolinha de metal também era eficiente em outros lugares. A boca dele desceu por mim sem pressa. A cada toque, eu arranhava as costas dele, arqueava as costas, perdia o ar. Quando o prazer veio de novo, foi seco e intenso. Gozei com a boca aberta, as unhas cravadas na pele dele, o corpo inteiro tremendo. Quando finalmente me acalmei, ofegante, com o coração ainda batendo forte, ele passou a mão no meu cabelo molhado e disse baixinho, como se fosse a coisa mais simples do mundo: — Sempre que precisar. E havia algo naquele tom. Não era deboche. Não era promessa. Era um convite silencioso, uma porta aberta no meio do caos. Foi assim, estranho e vergonhoso, que fiz meu primeiro melhor amigo homem com benefícios.






