Mundo de ficçãoIniciar sessão
Se você acha que a pior fase da vida estudantil é o TCC, eu gostaria muito de te dizer que aquilo é só o aquecimento. O inferno de verdade começa depois: recém-formada, sem contatos, sem grana e com a anuidade da OAB te sugando todo mês.
Há um ano e meio eu sou a Doutora Sara Salles. Vinte e cinco anos, bacharela em Direito, endividada, quase sem clientes e com crises de ansiedade que só param quando um corpo quente está em cima do meu. A vida amorosa? Um fracasso completo. Fecha o pacote. Alguns anos atrás eu ainda era só a Sara: universitária tentando conciliar estudos e um namorado exigente, sempre me esforçando pra agradá-lo, esperando pelo menos morar junto, ter companheirismo, apoio. Hoje não tenho mais nada disso. Só dívidas, silêncio e o barulho que atravessa a parede do meu quarto. Mudei pra este apartamento há um ano. Fica perto do centro comercial, tem movimento, e a placa humilde na varanda já me rendeu alguns casos — o suficiente pra pagar o aluguel. No dia da mudança meu ex ainda estava comigo. Foi quando descobri que eu e o vizinho dividíamos a mesma parede do quarto. Era quatro da tarde, sol escaldante do Rio batendo forte. E mesmo assim dava pra ouvir. Gemidos altos, molhados, desesperados, atravessando o reboco como se a parede fosse de papel. Mulheres diferentes quase todos os dias. Eu me arrependi na hora de ter alugado aquele lugar. Imaginei atender cliente com o som de alguém gozando do outro lado. Maravilha. Demorei dois meses pra conhecer o dono daqueles gemidos. Cabelos pretos na altura do pescoço, alto, olhos âmbar intensos. Não era malhado, mas o corpo magro e definido chamava atenção. Descobri rápido por que nunca era a mesma mulher. No dia em que terminei com meu ex, a discussão foi feia. Ele não aguentava mais minhas crises. Eu não aguentava mais o sexo sem vontade. Subi as escadas já tremendo, o peito apertado, a falta de ar me dobrando no meio do caminho. Me agachei, abracei as pernas, tentei controlar a respiração. Quando levantei o rosto, ele estava no topo da escada. Desceu devagar, sem desviar os olhos dos meus. Se agachou na minha frente. Não me tocou. Não falou nada. Só ficou ali, perto demais, o cheiro dele misturado com o calor do prédio, esperando eu voltar. Minha respiração acalmou aos poucos. O aperto no peito cedeu. E quando consegui falar, a resposta saiu sem filtro: — Agora estou. Ele estendeu a mão. Eu peguei. Naquela noite a parede não ouviu outra mulher. Ouviu a gente. Ele me puxou pela cintura assim que a porta fechou, boca quente, língua exigente, mãos já por baixo da blusa. Eu ainda tremia da crise, mas o tremor mudou de lugar. Virou fome. Ele me encostou na parede que separava nossos quartos e me fodeu ali mesmo, sem pressa de chegar na cama, só com a urgência de quem sabe exatamente o que o corpo do outro precisa. Cada estocada apagava um pouco mais a ansiedade. Cada gemido meu era resposta direta ao aperto que eu carregava no peito há meses. Quando gozei, foi seco, forte, quase dolorido de tão necessário. Ele veio logo depois, enterrado fundo, respiração quente no meu pescoço. E pela primeira vez em muito tempo, o silêncio dentro da minha cabeça foi completo. Desde então a gente se encontra assim. Sem promessas. Sem cobranças. Só corpos se reconhecendo no escuro, minha ansiedade se dissolvendo entre as pernas dele. Eu finjo que não percebo como cada toque me prende mais. Como cada noite me deixa um pouco mais viciada nesse ciclo. Mas uma coisa eu já sei: quando se vive no limite o tempo todo, qualquer próximo passo pode ser o precipício.






