Mundo ficciónIniciar sesiónIsabela
O e-mail chegou às 17h48. Título simples, remetente direto: Leonardo Santoro. Ela hesitou antes de abrir, como se soubesse que cada palavra ali teria o poder de empurrá-la para um lugar de onde talvez não houvesse retorno. Seus dedos clicaram com calma, embora seu coração já acelerasse como se corresse uma maratona. Assunto: Ajustes no contrato de fusão Corpo da mensagem: “Estarei no restaurante Alvorada às 20h. Você já conhece o caso, e gostaria da sua perspectiva com calma e discrição. Meu motorista pode te buscar às 19h30. Será apenas trabalho, doutora.” – L.S. “Será apenas trabalho.” Ela riu. Não alto, mas o suficiente para reconhecer a ironia daquilo. Porque nada, desde que o conheceu, parecia apenas qualquer coisa. Cada palavra dele era medida, cada gesto calculado, e mesmo o silêncio de Leonardo parecia carregado de intenções. Isabela olhou o relógio. Tinha pouco mais de uma hora para decidir o que vestir — ou melhor, como queria ser vista. E mais do que isso: precisava decidir que tipo de mulher queria ser naquela noite. A advogada impecável e fria, ou a mulher que sentia o corpo vibrar só de imaginar aqueles olhos cravados nos seus? Escolheu um vestido preto de seda, que abraçava sua cintura com elegância e terminava acima dos joelhos. Sexy, mas longe de vulgar. Um salto alto nude, brincos discretos e o cabelo solto, em ondas naturais. Ela sabia o efeito que isso causava. Sabia, e estava disposta a usá-lo — mesmo que fosse só como escudo. O carro estacionou exatamente às 19h30. Um sedã preto, motorista de terno escuro, cortesia silenciosa. Durante o trajeto, ela tentou se convencer de que aquele encontro era apenas parte do trabalho. CEOs como Leonardo exigiam reuniões fora de horário, ambientes mais privados, estratégias confidenciais. Nada além disso. Mas quando entrou no restaurante e o viu — de costas, sentado à mesa em um canto reservado, camisa branca impecável, mangas dobradas novamente, um copo de vinho entre os dedos — sentiu seu ventre contrair. Não havia nada de casual ali. Era um convite disfarçado. Um jogo em curso. Ele se levantou ao vê-la. E por um instante, o mundo desacelerou. — Está deslumbrante, doutora. — disse, e o tom da voz dele parecia um sussurro grave que tocava direto entre suas pernas. — Achei que fosse apenas trabalho. — respondeu, firme, erguendo o queixo. — Trabalho pode ser feito com elegância. — ele sorriu de lado e indicou o assento à frente. O jantar começou com palavras medidas. Discussões sobre fusões, cláusulas contratuais, riscos financeiros. Mas a tensão — aquela maldita tensão — se insinuava entre uma taça de vinho e outra, entre as pausas nos olhos, entre os silêncios longos que diziam mais do que qualquer argumento jurídico. Em determinado momento, ela cruzou as pernas lentamente e percebeu que ele acompanhava o movimento com olhos famintos. Mas não havia pressa. Nenhum dos dois parecia disposto a se lançar no abismo. Ainda não. Até que ele falou, com o olhar fixo nos dela: — Você confia em mim, Isabela? A pergunta a pegou desprevenida. Não pelo conteúdo, mas pelo momento. Pelo tom. Pela sugestão implícita. — Ainda não decidi. — disse, mantendo a voz baixa, quase desafiadora. Ele se inclinou levemente sobre a mesa. — Vai precisar decidir. Logo. Porque eu não costumo convidar duas vezes. O mundo parou de novo. O restaurante ao redor se tornou borrão. Ela sentiu o vinho descer pela garganta como fogo líquido. Sabia que aquilo não era só sobre contratos. Era um prelúdio. Um aviso. Uma isca. E ela… não sabia se queria escapar ou ser devorada.






