Mundo de ficçãoIniciar sessãoPassei o restante da manhã tentando prestar atenção nas aulas.
Tentei. Porque conseguir era outra história.
Toda vez que eu abria o caderno para copiar alguma explicação do professor, minha mente voltava para a mesma frase: "Grupo sete: Daniel Carter e Helena Albuquerque."
Eu nunca havia feito um trabalho com alguém como ele. Na verdade, eu nunca havia conversado com ele.
Tudo o que sabia era o que qualquer aluno da Westbrook sabia. Que ele era inteligente, mas desperdiçava isso. Que colecionava advertências. Que brigava quando provocavam seus amigos. Que faltava às aulas sempre que podia. E que parecia não se importar com absolutamente nada.
Era exatamente o tipo de pessoa que eu evitava. Não por preconceito. Mas porque pessoas imprevisíveis me deixavam desconfortável. Eu gostava de planejamento. De organização. De saber o que esperar. Daniel parecia representar justamente o contrário.
— Helena?
Levantei a cabeça.
A professora de Literatura sorria para mim.
— Gostaria de compartilhar sua interpretação do poema?
Meu rosto esquentou. Eu sequer havia percebido que ela tinha feito uma pergunta.
Respirei fundo. Olhei rapidamente para o texto. Li duas estrofes. E comecei a responder.
Quando terminei, a professora sorriu satisfeita.
— Excelente análise.
Como sempre, alguns colegas olharam para mim admirados, outros reviraram os olhos discretamente. Já estava acostumada. Desde pequena descobri que boas notas despertavam tanto admiração quanto antipatia.
*** Assim que a aula terminou, Sofia praticamente me puxou para o corredor.— Você ainda está pensando no trabalho.
— Está tão óbvio assim?
— Para mim? Sempre.
Suspirei.
— Não sei como isso vai funcionar.
Ela sorriu.
— Talvez funcione melhor do que você imagina.
— Sofia...
— O quê?
— Ele é completamente diferente de mim.
Ela cruzou os braços.
— Justamente por isso pode dar certo.
Balancei a cabeça.
— Ou dar muito errado.
Ela deu uma risadinha.
— Confia.
Às vezes as melhores histórias começam com pessoas que jamais imaginariam ficar no mesmo lugar.
Olhei para ela.
— Você anda lendo romances demais.
— E você lê romances de menos.
***No final das aulas, enquanto guardava meus materiais, senti alguém parar ao lado da minha carteira.
Levantei os olhos. Era Lucas. Ao lado dele... Daniel. Meu coração acelerou por um motivo completamente sem sentido. Lucas sorriu primeiro.
— Oi. Helena, né?
Assenti.
— Sim.
— Só para confirmar... Segunda-feira, biblioteca? Às quatro?
— Sim.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Daniel falou pela primeira vez diretamente comigo.
— Se atrasar cinco minutos, eu sobrevivo.
Pisquei algumas vezes.
— Eu não costumo me atrasar.
Ele deu um pequeno sorriso. Um sorriso diferente dos outros que eu já tinha visto nele. Menos ebochado.
Quase... divertido.
— Imaginei.
Ficamos alguns segundos em silêncio. Foi Lucas quem resolveu a situação.
— Então fechou.
Até segunda. Os dois saíram.
Fiquei olhando para a porta por alguns instantes.
Sofia apareceu ao meu lado imediatamente.
— Vocês conversaram!
— Foram... duas frases.
— Já é um começo.
Revirei os olhos.
— Você realmente precisa diminuir a quantidade de filmes românticos que assiste.
Ela apenas sorriu.
***Assim que saímos da sala, Lucas começou.
— Cara... Você foi simpático.
— Não exagera.
— Eu te conheço há dez anos. Aquilo foi simpatia.
Ri baixo.
— Só marquei o horário.
— E ainda fez uma piadinha.
Coloquei a mochila nas costas.
— Ela parecia nervosa.
Lucas parou de andar.
— Espera. Você percebeu isso?
Olhei para ele sem entender.
— Era impossível não perceber. Ela quase travou quando a gente chegou perto.
Lucas ficou alguns segundos me encarando.
Depois sorriu daquele jeito irritante de quem acha que descobriu alguma coisa.
— Interessante...
Empurrei o ombro dele.
— Para de inventar teoria.
— Não inventei nada. Só achei curioso.
Continuei andando sem responder.
Mas ele tinha razão em uma coisa. Eu realmente havia percebido. Helena escondia bem. Muito bem. Mas bastava prestar atenção para notar.
Ela apertava o caderno contra o peito quando ficava desconfortável. Mordia discretamente o lado interno da bochecha enquanto pensava. Respirava mais devagar antes de responder qualquer pergunta. Coisas pequenas. Quase imperceptíveis.
Não fazia ideia de por que eu tinha reparado. Talvez porque eu sempre prestasse atenção em detalhes. Era útil para desenhar. Só isso.
***Na oficina, naquela tarde, Augusto percebeu meu silêncio.
— Brigou com alguém?
Neguei.
— Então o que foi?
— Trabalho da escola.
Ele riu.
— Nunca imaginei que isso fosse te preocupar.
Comecei a desmontar o carburador de uma moto sem olhar para ele.
— Também não.
Augusto me observou por alguns segundos. Depois voltou ao serviço.
— Com quem caiu?
Suspirei.
— A garota mais certinha da escola.
Ele sorriu.
— E qual o problema?
— Todos.
— Talvez nenhum.
Olhei para ele.
— Você nem conhece ela.
— Não preciso. Você já decidiu que ela vai ser um problema antes mesmo de trabalhar com ela.
Fiquei em silêncio. Ele limpou as mãos novamente.
— Sabe qual é o erro das pessoas, Daniel?
Balancei a cabeça.
— Julgar quem elas ainda não conhecem.
Continuei desmontando o motor. Mas as palavras dele ficaram ecoando na minha cabeça. Porque... Se eu fosse completamente honesto... Perceberia que tinha feito exatamente isso.
***À noite, quando cheguei em casa, encontrei minha mãe na cozinha pela primeira vez naquela semana antes das onze horas. Ela ainda vestia o uniforme do hospital. Os cabelos presos de qualquer jeito. O rosto cansado. Mas sorriu quando me viu.
— Achei que hoje você chegaria tarde.
— O movimento foi pequeno.
Ela colocou um prato de comida sobre a mesa.
— Como foi a escola?
Sentei.
— Normal.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você nunca responde "normal".
Sorri de lado.
— Professor passou um trabalho em grupo.
— E isso explica essa cara.
Comecei a comer.
— Caí com a primeira da turma.
Minha mãe riu.
— Ótimo. Talvez ela coloque você na linha.
Olhei para ela fingindo indignação.
— Você está do meu lado ou do dela?
— Sempre do seu.
Ela bagunçou meu cabelo como fazia desde criança.
— Mas isso não me impede de torcer para que alguém faça você estudar um pouco mais.
Ri. Era estranho. Nossa casa era pequena. O dinheiro quase sempre era contado. Ela trabalhava mais do que qualquer pessoa que eu conhecia. Mesmo assim... Sempre encontrava um jeito de fazer aquele lugar parecer um lar.
Enquanto terminava o jantar, pensei novamente em Helena. Não nela exatamente. Mas na forma como ela parecia carregar o peso do mundo sobre os ombros. Como se errar fosse proibido.
Talvez aquele trabalho fosse um desastre. Talvez não. Mas uma coisa era certa. As primeiras impressões que tivemos um do outro... Provavelmente estavam completamente erradas. E nenhum de nós fazia ideia disso ainda.







