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Devorada pelo o inimigo
Devorada pelo o inimigo
Por: Garcia R.
Capítulo 1 - POV. Victoria Kavanaugh

Capítulo 1

POV: Victoria Kavanaugh.

Victoria Kavanaugh

Meu nome é Victoria Kavanaugh. Tenho 20 anos e sou uma garota criada na Zona Norte do Rio de Janeiro. Minha mãe morreu quando eu ainda era um bebê, e meu pai se recusa a falar dela. Tudo o que sei é que ela foi sua amante enquanto ele ainda era casado com a mãe do meu meio-irmão, João. Quando ela engravidou, cuidou de mim sozinha nos primeiros meses, mas acabou falecendo em um atropelamento. Meu pai, por uma mistura de culpa e pena, acolheu-me em sua casa.

A primeira esposa dele não aceitou nada bem; embora tivesse perdoado a traição, agora teria que suportar a presença da "bastarda" sob o próprio teto. Ela acabou pagando-o com a mesma moeda: traiu-o com seu sócio e melhor amigo. Após desviarem uma fortuna da empresa, os dois fugiram, deixando meu pai sozinho com João e comigo. Arrasado, ele mergulhou na depressão e no vício. O prestígio e o dinheiro que lhe restavam escorriam pelo ralo junto com o que sobrou da fortuna. Em um ato de desespero, ele retomou contato com a máfia americana — o clã Callahan.

Por intervenção deles, conheceu sua atual esposa, Maísa, uma mulher mais jovem e proprietária de um grande armazém na Zona Norte. Eu sei que aquele lugar não se limita a compras e vendas convencionais, mas nunca quis me meter. Com ela — essa maldita —, os abusos e os maus-tratos se tornaram minha rotina.

Da minha mãe, guardo apenas duas fotos: uma 3x4, onde ela aparece com olhos fundos e tristes, e outra dela grávida de mim.

Nesta ela está radiante, com olhos grandes de um azul profundo e um sorriso que ilumina o rosto; parecia ser uma mulher incrível. Sempre que me olho no espelho, vejo o reflexo dela em mim. Herdei sua estatura, com 1,70m de altura, e seus cabelos longos, que hoje descem quase até a minha cintura em um tom de loiro cobre que brilha mesmo sob a luz fraca do armazém. Sempre que imploro ao meu pai para me contar sobre ela, ele explode em raiva e manda eu “procurar o que fazer”.

Meu meio-irmão já está quase nos 30 anos e é o orgulho da casa. Ele sempre me tratou como “abastarda”.

Como a mãe dele foi casada oficialmente, João carrega o sobrenome italiano da família: Volpe. Como fui fruto de uma “mãe solteira”, herdei apenas o dela: Kavanaugh. Meu pai, Roberto Volpe, vem de uma linhagem tradicional que enriqueceu na construção civil e naval, mas todo esse império foi corroído pelas excentricidades dele e da ex-esposa. Hoje, não resta quase nada. O dinheiro que ele ganha é gasto em poucos dias em clubes e casas de apostas clandestinas.

Evito chegar perto quando ele está bêbado, pois ele sempre me culpa por estarmos à beira da falência. Quando me olha, ele enxerga o fantasma da minha mãe através dos meus olhos azuis.

— Aquela bruxa… ela acabou comigo — ele costuma rosnar.

Eu odiava ouvir aquilo. Minha vontade era gritar, fugir daquele inferno. Minha revolta silenciosa rendia piadinhas das amigas da minha madrasta, que diziam que eu terminaria como minha mãe: uma "bruxa favelada" de cabelos de fogo. Todas riam; hienas nojentas. Maísa sempre dava um jeito de deixar seus capangas de olho em mim; onde quer que eu vá, o clima é sufocante.

Em casa, vivo num quarto minúsculo perto da garagem, com uma cama velha de solteiro, um pequeno armário de ferro e uma cômoda de recuperação — um extremo exato em comparação ao resto da casa.

A mãe do meu irmão vive no exterior com outro homem e, há anos, liga para ele apenas em datas comemorativas. Como João sempre teve tudo de mão beijada, hoje ocupa um cargo federal e mora na capital. Ainda bem que eu não o vejo mais; ele adora se gabar de ter conquistado tudo com “esforço e trabalho duro”. Que trabalho? Ele nunca precisou se preocupar com o pão de cada dia. Ele nunca gostou de mim, mas, sinceramente, ele também nunca teve lugar no meu coração.

Para mim, a “bastarda”, nem o mínimo era oferecido. Na hora das refeições, eu era obrigada a esperar que todos se servissem para ficar apenas com as sobras. Com meu salário no armazém — se é que posso chamar assim —, consigo comprar o mínimo para minha higiene pessoal. Sou uma cliente assídua nos sebos da cidade; é lá que encontro, a preços razoáveis, meus tão preciosos livros. Sou uma leitora voraz, sempre com um livro “colado no nariz”, como diz meu pai com desdém.

Minha madrasta vive zombando da minha bolha; diz que, se eu continuar assim, jamais vencerei na vida, pois quem vive no "País das Maravilhas" ignora a realidade. Mal sabia ela que era o oposto: eu buscava a fantasia justamente porque ali as pessoas se amavam de verdade. Era minha única fuga. Trabalho no armazém dela desde pequena. Maísa fazia questão de enfatizar que eu não fazia mais do que a obrigação. Eu pegava no pesado, de segunda a segunda, carregando caixas e limpando o chão. Durante a adolescência, estudava de manhã e trabalhava até o fechamento. Hoje, formada, trabalho em tempo integral. Tive uma excelente nota no Enem, mas, ao contrário do meu irmão, fui proibida de ingressar na faculdade.

Nunca tive um namorado. Minha madrasta afugentava todos, inventando que eu era doente ou "estranha". Espalhou no bairro que o meu visual — com o cabelo acobreado e os olhos intensos — era fruto de uma doença hereditária contraída da minha mãe e que eu ficaria deformada antes da vida adulta. Com isso, os rapazes mantinham distância, sendo gentis de longe, mas jamais se aproximando nem mesmo para uma amizade.

Um dia, no limite da paciência, tomei coragem e anunciei que buscaria um emprego fora, no Centro do Rio. Minha madrasta ficou furiosa, e meu pai fez o que faz de melhor: bebeu e se omitiu. Não dei atenção. Maísa dobrou a vigilância com sua equipe de “segurança”; nunca entendi esse paradoxo. Ela não faz isso porque gosta de mim, é claro, mas por quê?

Minha única sorte é Julia, minha melhor amiga e a irmã que a vida me deu. Ela tem 21 anos e seus pais transbordam orgulho por sua aprovação na universidade federal. Ela se mudará em algumas semanas para uma quitinete em Botafogo, para ficar perto do campus. A notícia me entristeceu, pois ela é a única que me entende. Julia me ajudou a montar um currículo e me incentivou: se eu conseguisse um emprego, poderíamos dividir o aluguel. Isso acendeu uma chama de esperança. Como sou autodidata em computadores e programação, ela garantiu que eu teria chances. Eu não tinha cursos formais nem dinheiro, mas, aos 20 anos, estava desesperada para mudar o meu destino.

E a mudança estava mais próxima do que eu imaginava...

E a mudança estava mais próxima do que eu imaginava.

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