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Capítulo 2 - O primeiro passo

Após duas semanas acordando antes do sol e batendo de porta em porta, com o jornal e currículos debaixo do braço, finalmente consegui. Não era o emprego dos sonhos — vendedora de consórcios de linha de crédito —, mas, para quem não tinha nada, era o mundo. O regime era puramente comissionado, sem salário fixo. Nem parecia totalmente legal, mas quer saber? Eu precisava de uma saída, e aquela era a minha única porta aberta.

No dia seguinte, encarei o trem lotado. Como sempre, levei meu romance do século XVIII para me servir de escudo. Mergulhei na minha bolha literária e a viagem passou sem que eu notasse o caos e o calor insuportável ao redor. Por falta de dinheiro, tive que encarar quase dois quilômetros a pé entre a Central do Brasil e a Avenida Rio Branco. Infelizmente, os lindos sapatos que Julia me emprestara não foram projetados para as calçadas irregulares do Rio.

Para cortar caminho, segui pelas ruelas do Rio Antigo. É um lugar impressionante, mas opressor; uma história pesada que parece impregnada nas fachadas descascadas. Sempre fui sensível. Eu vejo coisas... e as sombras nunca me deixam em paz. Naquele lugar carregado, elas pareciam se deleitar, acompanhando cada passo meu. Hoje, elas já não me assustam; apenas me seguem, vigiando-me com uma neutralidade fria.

Na infância, porém, quando surgiram, foi aterrorizante. Eu tinha terrores noturnos e saía correndo sem explicação; as pessoas diziam que eu estava enlouquecendo. Em minhas leituras, encontrei um livro de magistas do século passado que explicava fenômenos assim. Aprofundei-me e percebi que a realidade era mais complexa do que eu supunha; em muitos casos, era uma herança familiar. Alguns escritos sugeriam que eu poderia usar aquilo a meu favor, mas eu não queria intimidade com a escuridão; eu só queria paz.

Mesmo assim, as sombras me hipnotizavam. Eu andava e olhava, andava e olhava... até que cheguei a um imponente prédio antigo. O escritório ficava no 21º andar e, como a sorte nunca me visita por completo, o elevador só subia até o 18º, pois estava em manutenção. Subi os lances de escada restantes às pressas, ignorando as bolhas que se formavam nos calcanhares e dedos, torcendo para que o desodorante não me abandonasse.

Na recepção, fui recebida por uma senhora de olhar gentil. — Victoria? — perguntou ela. — Sim, Victoria Kavanaugh. Tenho uma entrevista com o senhor Christophe Marchands.

Ela notou minha respiração ofegante e me ofereceu um copo d’água, que aceitei de bom grado. Antes de anunciar minha chegada, pediu que eu aguardasse. Dois minutos depois, após entrar em uma sala à direita, ela retornou dizendo que ele me esperava.

A entrevista foi direta. Ele questionou minha experiência e expliquei sobre os anos no armazém, meu domínio de computação e minha paixão pela leitura. Christophe era uma figura quase caricata: calvo, com os poucos fios de cabelo num topete mal ajuntado, pele oleosa e um semblante exausto. Mesmo com o ar-condicionado no máximo, ele transpirava. Era pequeno e troncudo; cheguei a sentir uma pontada de pena. Ele me concedeu a vaga, mas deixou um alerta: a equipe era composta apenas por homens experientes e eu teria que provar meu valor.

— Eu preciso muito desse emprego — afirmei, com firmeza, sustentando o olhar dele com meus olhos azuis profundos. — Faça o que for necessário e a vaga é sua — ele respondeu.

Recebi um crachá, uma folha de horários e, ironicamente, um ticket para o estacionamento. Sorri internamente; eu não tinha nem sapatos inteiros, quem diria um carro. Eu começaria na segunda-feira, o que me dava alguns dias para me preparar.

Saí do prédio com os pés em carne viva, mas respirei fundo, tentando esquecer a dor e o ar úmido e quente do Centro. Abri meu exemplar de Pâmela, de Samuel Richardson, e me perdi na história daquela mulher à frente de seu tempo. Andando e lendo andando e lendo, até que... pow! Acertei em cheio um poste de ferro fundido antigo. Parecia que ele fora colocado ali só para rir do meu vexame.

Olhei ao redor, envergonhada, ajeitando meus longos cabelos loiro cobre que haviam caído sobre o rosto com o impacto. Não vi ninguém, apenas um vulto furtivo escondido entre as sombras de um casarão, mas ignorei. Fechei o livro e segui viagem às pressas.

Ao chegar no bairro, fui direto para a casa de Julia. Ela explodiu em alegria! Brindamos com uma garrafa de vinho barato que ela havia comprado para o final de semana, mas fez questão de abrir para comemorar “meu primeiro dia de muitas vitórias”. Quando contei sobre o poste, ela caiu na gargalhada.

— Vick, você precisa prestar atenção! Um dia vai acabar sofrendo um acidente grave por causa desses livros.

Acabei dormindo lá, o que certamente deixaria minha madrasta possessa — ela odiava perder o controle sobre mim. Eu tinha certeza de que havia alguns de seus homens do lado de fora, mas não deixei esse pensamento estragar nossa comemoração. Fizemos projetos; nem conhecia a quitinete ainda, mas ela já estava toda decorada na nossa imaginação.

No dia seguinte, a realidade do armazém me esperava. Maísa me provocava, dizendo que me daria uma semana para que eu voltasse "com o rabo entre as pernas", implorando para trabalhar com ela novamente. Com um pouco de dinheiro emprestado pela Julia, comprei roupas adequadas para o novo trabalho. Ela também me doou sapatos e peças que não levaria na mudança. Prometi pagar cada centavo assim que recebesse minha primeira comissão.

Finalmente, o vento parecia estar soprando a meu favor.

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