Mundo de ficçãoIniciar sessão
Último dia de aula, a formatura está perto, significa que logo o verão vai começar e os diversos alunos de Horizon High irão começar a se dispersar pelos corredores, distribuindo anuários para serem assinados e se despedindo de colegas. Faltava apenas míseros 30 minutos para eu finalmente ser livre e ter meus três meses de férias merecidas.
Estou no segundo ano do ensino médio em uma cidade no Colorado, meu nome é Jessica da Silva, e ao contrário dos outros alunos pacatos do colegial, tenho metas. Quero começar a trabalhar assim que possível em uma escola de artes e terminar a Universidade de Belas Artes com honras.
Já as patricinhas como a Brittany Sinclair, só sabem passar as aulas avaliando produtos em sites de compras e sair com os namorados musculosos, mas sem nenhum tipo de músculo cerebral, como o Tyler Donovan, são o tipo de pessoa que jamais se envolveram com uma nerd como eu, e prefiro assim, pessoas com vida de "Barbie" me dão enjôo.
Vocês devem estranhar eu ter um nome tão peculiar morando nos Estados Unidos. Bom, vim morar na gloriosa América quando tinha meus 7 anos de idade, mas nasci no Brasil, confesso que inglês é minha zona de conforto, embora tenha bastante sotaque, mas gosto de falar com minha "vovó" em português. Todas as vezes que a visitei, ela fazia bolinhos de chuva para mim. Tem sabor de infância.
Apenas 20 minutos para a aula de biologia acabar, confesso que nunca gostei dessa matéria, já passei muita vergonha quando tive que dissecar sapos e a professora Deborah Parker me dava sermões de como segurar um bisturi corretamente, a última vez, fiz uma bagunça, o que era para ser um simples corte virou uma cena nojenta.
Pra variar hoje é aula de genética, não é que eu não seja uma pessoa inteligente, só realmente acho esse assunto um saco.
Sinto algo bater em minhas costas e algumas risadas ao fundo.
— Algum problema, turma? — pergunta a professora Deborah. Todos fazem que não com a cabeça mas logo voltam a dar risada bem baixo. Eu olho para meus pés vendo uma bola de papel amassada, ignoro.
Logo outro impacto atinge minhas costas, eu sei que é proposital, abaixo e pego a segunda bola de papel, já esperando o que viria a seguir.
" Volta pra favela" "Fala inglês igual gente."
Havia uma bandeira do Brasil totalmente distorcida desenhada no papel com estereótipos como uma bola de futebol, uma bunda e um papagaio segurando uma arma.
Bela obra de arte, Brittany, poderia utilizar seus dons artísticos para algo que não fosse o bullying. Reconheço o papel do caderno da loira por ser rosa com glitter e a letra bastão perfeitamente alinhada não poderia ser de outra pessoa.
Meu tipo de prova precisa ser múltipla escolha, pois até hoje tenho dificuldade em não fazer letra cursiva, nem mesmo meus professores entendem o que quero dizer, no começo eu precisava fazer um discurso sobre 20 questões em aberto. A vida escolar de uma imigrante nunca foi fácil.
Depois de aguentar mais algumas informações sobre cromossomos o sinal toca, indicando que finalmente estaria livre de todo aquele caos, poderia aproveitar as férias para me organizar para ir à Universidade de Crestwood em Haverhill, ter uma vida acadêmica sem Brittany Sinclair e seus tormentos seria um sonho, ainda mais se pudesse passar com uma boa bolsa, mas só saberia isso em casa.
Vou sair da sala quando Brittany esbarra em meu ombro deixando meus livros caírem, a Srª Parker me chama.
— Jessica, sabe que pode contar comigo caso algo esteja acontecendo entre seus colegas. — A professora fala entrelaçando os dedos em cima da mesa.
— Eu sei Srª Parker, mas já disse que não precisa se preocupar, além do mais, hoje é o último dia de aula. — digo, aliviada com a possibilidade de não ver Brittany nunca mais na vida.
— Ainda assim, sabe que temos o sistema anti-bullying na nossa escola, se precisar, você sabe o que fazer. — Ela diz com um sorriso compadecido. — Mudando de assunto, você já escolheu para qual universidade irá?
— Já sim, a universidade de Belas Artes de Crestwood.
— A melhor antes de Harvard e Oxford, com certeza uma escolha sábia. Mas você já pensou na possibilidade de não passar? Tem um plano B? — Ela pergunta e eu fico aflita.
— Não cheguei a cogitar que eu não passe, estou contando com essa oportunidade. — Digo.
— Por que não tenta se inscrever em outras universidades para ter uma garantia? — Ela me dá um sorriso e estende um panfleto.
"Academia de Brooksfield", mas isso fica exatamente a 8 quadras daqui. É uma universidade menor, para aqueles que não se deram bem nas universidades mais cotadas, ou para os que não tem visão de futuro. Não era uma má instituição, mas seus alunos tiravam sua fama.
— Obrigada Srtª Parker, irei pensar. — dou um sorriso amarelo enquanto vou abrindo a maçaneta.
— Jess. — Ela chama antes de eu sair.
— Sim?
— Tenha um ótimo verão. — agradeço com um aceno de cabeça e por fim saio, em direção ao corredor e à minha liberdade.







