Capítulo 3 — O que é isso...?

POV Camille

Os dias passaram rapidamente. Decidi guardar a cena daquela madrugada no fundo mais escuro da minha mente. Ver Elliot arfando meu nome no escuro, desarmado por uma obsessão doentia que ele tentava mascarar sob a fachada de ódio, mudou as regras do jogo. Ele não era uma máquina invencível. Ele tinha uma fraqueza. E a sua fraqueza tinha o meu nome.

No dia seguinte, segui suas ordens com uma disciplina militar. Se eu precisava sobreviver naquele ninho de cobras sem ser reconhecida pela imprensa ou pela polícia, Camille Brown precisava desaparecer.

Cortei meu cabelo na altura dos ombros em um chanel reto e tingi os fios de um castanho-escuro profundo. Adotei um par de óculos de armação preta e grossa, maquiagem nula e trajes de alfaiataria sóbrios, discretos e ligeiramente largos. A beleza que Vicente costumava ostentar como um troféu foi apagada sob camadas de neutralidade corporativa.

Quando caminhei ao lado de Elliot pelos corredores espelhados da sede da Parker Crown Investments, ninguém viu a socialite foragida. Viram apenas Camille Laurent, a nova secretária executiva sênior contratada diretamente pelo conselho.

A chegada repentina de uma assistente pessoal de alto nível, com acesso irrestrito ao homem mais temido de Londres, causou um terremoto silencioso na diretoria. Os diretores me olhavam com desconfiança, tentando adivinhar quem havia me colocado ali. Alguns tentaram se aproximar oferecendo cafés e alianças veladas; outros me encaravam como uma ameaça que precisava ser eliminada.

E no topo dessa lista de inimigos velados estava Naomi.

Naomi Vance era a poderosa gerente do departamento de relações públicas. Elegante, usando saltos agulha e vestidos de grife impecáveis, ela exalava a autoconfiança de quem mandava na imagem da holding. Mas bastavam cinco minutos no mesmo ambiente que Elliot para que sua armadura ruísse. Naomi era apaixonada por ele há anos, pelo que soube na empresa pelas fofocas das funcionárias mais antigas. Ela orbitava a vida dele, buscando um olhar, um gesto de aprovação que Elliot jamais dispensava a ninguém.

Por isso, minha presença ao lado dele virou uma afronta pessoal para ela.

— Uma garota de interior com óculos ridículos e ternos de brechó — ouvi Naomi murmurar para uma das analistas perto do fumódromo, no meu terceiro dia. — Como o senhor Parker permitiu que essa fracassada sentasse na porta da sala dele?

Ignorei cada provocação. Eu tinha um objetivo maior. Trabalhando diretamente com a base de dados de Elliot, passei a analisar o emaranhado de movimentações financeiras da Lancaster Enterprises. Cada relatório que eu revisava confirmava a podridão de Vicente: rombos milionários cobertos por assinaturas falsificadas no meu nome.

Na quinta-feira à noite, o andar da diretoria já estava praticamente deserto. As luzes de LED diminuíram de intensidade, e o silêncio corporativo foi quebrado apenas pelo som ritmado das minhas teclas. Elliot estava trancado em sua sala, em uma videoconferência de emergência com os auditores de Zurique. Ele me pedira para organizar todos os relatórios fiscais confidenciais de Vicente antes que a reunião terminasse.

Minhas costas doíam e meus olhos queimavam atrás das lentes dos óculos.

— Trabalhando duro, Camille? — a voz aveludada de Naomi quebrou o silêncio.

Ergui os olhos. Ela estava parada ao lado da minha mesa, segurando duas xícaras de porcelana preta de onde subia um aroma denso de espresso recém-passado. Ela sorria, mas o calor não chegava aos seus olhos castanhos.

— Preciso entregar a pasta do processo Lancaster antes que o senhor Parker saia — respondi, mantendo a voz neutra.

— Admiro a sua dedicação — Naomi colocou uma das xícaras exatamente ao lado do meu teclado. — Trouxe um café para você. O caminho até a aprovação do chefe é longo, e você parece prestes a desmaiar. Um pequeno agrado entre colegas.

Estranhei a gentileza repentina, mas a exaustão falou mais alto. Eu precisava de cafeína desesperadamente.

— Obrigada, Naomi. Isso é muito gentil da sua parte.

Ela deu um sorriso enigmático, ajeitou a pasta de couro sob o armação do braço e deu as costas.

— Bom trabalho. Não fique até muito tarde.

Peguei a xícara quente e dei dois longos goles. O café era forte, levemente amargo, com um retrogosto adocicado e denso que atribuí a algum xarope Gourmet. Continuei imprimindo os últimos balancetes, sentindo o líquido quente descer pela minha garganta.

Dez minutos se passaram.

Juntei as folhas de papel de alta gramatura e as prendi em uma pasta preta com o selo confidencial da holding. Fiquei de pé para levar o material até a sala de Elliot.

Foi quando o primeiro impacto me atingiu.

Uma onda de calor súbita e violenta brotou do centro do meu ventre, espalhando-se como um incêndio gelado por todas as minhas terminações nervosas. Minhas pernas vacilaram contra o piso acarpetado. Pressionei a mão contra a borda da mesa, tentando respirar, mas o ar parecia ter ficado subitamente denso demais.

O que é isso...?

Uma falta de ar por um segundo. Meu coração começou a martelar no peito com uma força descomunal. Sentia minhas bochechas queimarem, a pele do meu pescoço arrepiar inteira e um tremor involuntário percorrer minhas coxas. O tecido do meu sutiã parecia roçar minha pele como uma lixa, despertando uma sensibilidade absurda, dolorosa e avassaladora.

Minha cabeça girou. A visão embaçou atrás das lentes dos óculos.

Aquele não era o efeito da cafeína… Era algo químico, perigoso, uma substância que Naomi havia dissolvido naquela xícara para me fazer perder o controle, surtar ou passar uma vergonha humilhante no meio do escritório.

Apertei a pasta contra o peito com os dedos trêmulos. A urgência de sair dali clamava na minha mente, mas meu corpo recusava-se a responder à razão. Cada pulsação do meu sangue parecia gritar por um toque, por um alívio que me assustava.

Dei três passos cambaleantes em direção à porta de vidro do escritório de Elliot.

Bati duas vezes com a articulação dos dedos. A batida saiu fraca, trêmula.

— Entre — a voz grave dele ecoou do outro lado.

Empurrei a folha de vidro pesada. A sala de Elliot era banhada apenas pela luz amarelada da cidade através da imensa fachada de vidro. Ele estava em pé perto da mesa, terminando de abotoar o paletó do terno, pronto para ir embora.

Quando passei pela porta, o som do vidro se fechando atrás de mim pareceu ensurdecedor.

— Os relatórios fiscais da Lancaster estão prontos... — tentei dizer, mas minha voz saiu num tom trêmulo, rasgado, quase um sussurro arfante.

Elliot ergueu os olhos. No mesmo instante em que seu olhar azul-escuro cruzou com o meu, ele congelou.

Os óculos tortos no meu rosto, o suor frio brilhando na minha nuca, o vestido de alfaiataria subindo e descendo freneticamente no meu peito. A pasta escorregou das minhas mãos dormentes e caiu no chão, espalhando os papéis confidenciais sobre o carpete.

Dei um passo à frente, mas meus joelhos cederam.

— Camille? — a voz dele perdeu a frieza corporativa, cortada por um alerta imediato.

Elliot cruzou a sala em dois passos largos. Antes que meu corpo colidisse contra o chão, suas mãos grandes e quentes seguraram meus braços com firmeza. O contato da pele dele contra a minha disparou um choque elétrico violento pelo meu corpo envenenado. Soltei um gemido abafado, involuntário, cravando minhas unhas no tecido do paletó dele enquanto meu corpo implorava por mais.

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