Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Camille
O interior do sedan de altíssimo luxo cheirava a couro caro e sândalo. O aquecedor estava no máximo, mas o ar gelado que impregnava meus ossos recusava-se a ir embora. Eu estava encolhida no canto da porta traseira, abraçando os próprios joelhos rasgados, vendo a chuva transformar os prédios do centro corporativo em borrões de neon.
— Para o carro — murmurei, a voz fraca, tentando destravar a porta. — Para essa merda agora.
ao meu lado, Elliot sequer piscou. Ele mantinha a atenção fixa no tablet, a luz da tela recortando o perfil perfeito e implacável do seu rosto.
— Tranque a porta, Marcus — ordenou friamente ao motorista.
— Você não pode me manter aqui! — me virei para ele, tomada por uma fúria desesperada. — Eu não quero a sua caridade, Elliot! Eu prefiro morrer naquela pista a receber qualquer coisa vinda do homem que faliu a minha família! Do homem que empurrou o meu pai para a morte!
Pela primeira vez, Elliot desviou a atenção da tela. O tablet foi colocado de lado com um estalo seco. Ele se virou para mim devagar, e o ar na cabine pareceu rarear instantaneamente.
— O seu pai era um fraco que faliu por incompetência e covardia — ele cuspiu as palavras com tamanha crueldade que senti como se tivesse levado um tapa físico. — E você é a vadia ingrata que escolheu se deitar com o filho da puta do Vicente para me destruir. Não venha me falar de moral agora.
— Seu desgraçado! — avancei contra ele, as unhas prontas para rasgar aquela pele perfeita.
Elliot foi mais rápido. Em um movimento fluido e brutal, sua mão de aço cravou no meu pescoço, não para me sufocar, mas para prender minha cabeça contra o estofado. Seu corpo grande se projetou sobre o meu, me imobilizando completamente.
— Me solta! — tentei gritar, mas a proximidade do seu rosto me paralisou.
— Cala a boca — ele sibilou, os olhos azuis faiscando a milímetros dos meus.
Antes que eu pudesse expelir o próximo insulto, a boca de Elliot colidiu contra a minha com a violência de uma punição.
Não havia carinho. Não havia desejo nobre. Foi um ataque desesperado e dominante. Ele tomou meus lábios com uma ferocidade assustadora, me forçando a sentir o peso da sua raiva acumulada por dez anos. Minhas mãos bateram contra seu peito rígido, mas ele se inclinou mais, prensando seus dentes contra os meus até que um estalo de dor fez meu lábio inferior rasgar.
O gosto metálico do meu próprio sangue invadiu minha boca.
Soltei um gemido abafado contra seus lábios. Só então ele se afastou, milimetricamente, segurando meu queixo com força o suficiente para deixar marcas, enquanto meu sangue escorria lentamente pelo meu queixo.
— Voltou à razão agora? — ele perguntou, o hálito quente e ritmado batendo na minha pele machucada. — Preste bem atenção, Camille: se você colocar os pés fora deste carro, a polícia te prende na próxima esquina. Vicente e aquela secretaria vadia já assinaram a sua ordem de prisão antes mesmo de te jogarem na rua.
Respirei fundo, a boca latejando, o gosto de ferro queimando na língua.
— Então me deixa ser presa! — desafiei, os olhos lacrimejando de dor e rancor.
— Não — Elliot aproximou o rosto até que seu nariz roçasse a minha bochecha machucada. — Porque você é a única peça que falta no meu tabuleiro. Eu não estou te salvando por compaixão. Eu estou te trancando na minha gaiola porque só o seu nome pode destruir o império dos Lancaster. Você me pertence agora.
O carro entrou na garagem subterrânea do seu edifício em Mayfair. O motor silenciou, deixando apenas o som da minha respiração descontrolada.
A cobertura era um mausoléu de mármore preto e vidro. Elliot me conduziu até o escritório assim que subimos pelo elevador privativo. Ele jogou uma pasta pesada sobre a mesa de mogno.
— A partir de hoje, a sua antiga vida morreu — ele disse, enquanto servia duas doses de uísque. — Esta é a sua nova identidade. Passaporte, cartão de crédito sem limite e documentos sob o nome de Camille Reed. Você não dá um passo sem os meus seguranças. Não faz uma ligação que não seja monitorada. Eu tenho o controle total da sua existência.
Olhei para os documentos impecáveis na mesa. A foto era minha, mas a história ali gravada era uma ficção perfeita.
— Você está me transformando numa prisioneira — murmurei, me recusando a tocar no copo que ele estendeu.
— Estou te mantendo fora de uma cela de verdade — ele rebateu, bebendo o uísque em um único gole. — Tome um banho no quarto de hóspedes. Há roupas limpas no closet. Amanhã começamos a planejar a sua defesa.
Sem alternativas, engoli o orgulho. Não havia para onde ir. Sem dinheiro, sem amigos, perseguida pela mídia e pela polícia, eu era um cadáver ambulante na noite fria de Londres. A gaiola de Elliot era a minha única blindagem.
O quarto de hóspedes era vasto. Tomei um banho demorado sob a água fervente, chorando em silêncio enquanto limpava a lama dos joelhos e o sangue seco dos meus lábios. A ferida na boca ainda latejava. Vesti um pijama de seda que encontrei no closet — imenso no meu corpo enfraquecido — e me deitei na cama, mas o sono se recusava a vir.
Por volta das três da manhã, a sede me tirou dos lençóis.
Caminhei descalça pelo corredor escuro, tentando não fazer ruído sobre o piso de madeira nobre. Quando passei em frente ao escritório principal de Elliot, notei que a porta de carvalho estava entreaberta, deixando escapar um feixe de luz amarelada.
Um som abafado me fez congelar no lugar.
Era uma respiração pesada, entrecortada. Um arfar denso, rouco, carregado de uma urgência quase dolorosa.
Aproximei-me milimetricamente do vão da porta. Meu coração deu um salto violento contra as costelas.
Elliot estava sentado na grande cadeira de couro atrás da mesa. A camisa social branca estava desabotoada até o peito, revelando a pele clara e os músculos tensos. As calças do terno estavam entreabertas, baixadas até a metade das coxas.
Sua mão direita envolvia o pau ereto, movendo-se em um ritmo frenético, brutal, quase desesperado. A cabeça dele estava jogada para trás contra o encosto da cadeira, os olhos fechados, os nós dos dedos brancos de tanto apertar a própria carne.
E então, o som rasgou o silêncio do escritório.
— Camille... — ele grunhiu, a voz rasgada de desejo e tormento, deslizando a mão mais rápido enquanto a respiração falhava. — Camille... porra...
O choque me atingiu como uma descarga elétrica.
Colei as costas contra a parede do corredor, a mão cobrindo a própria boca para abafar um grito de horror e incredulidade. O homem que me odiava, o monstro que me chamara de vadia ingrata, o arrogante que me beijara até me fazer sangrar horas atrás... estava ali, no escuro, se masturbando no silêncio enquanto chamava pelo meu nome.







