Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Camille
O calor que subia pelo meu ventre não era nada parecido com a febre comum. Era um incêndio alucinógeno, uma névoa espessa que derretia a pouca clareza mental que me restava. O aperto das mãos de Elliot nos meus braços era a única força me sustentando em pé, mas a proximidade do seu corpo só fazia o veneno na minha corrente sanguínea rugir mais alto.
— O balancete... — tentei articular, a voz saindo rasgada, um sussurro arfante que mal parecia meu. Ajustei os óculos tortos com a mão trêmula, tentando focar o olhar nos papéis espalhados sobre o carpete. — O balancete da Lancaster... mostra a fraude na conta da Suíça... Nós precisamos... anexar ao processo...
Eu tentava deseperadamente me agarrar ao trabalho, aos números, ao ódio que nutri por ele ao longo de dez anos. Mas a razão estava sendo varrida por uma onda incontrolável.
A cada respiração descompensada, o perfume de sândalo e couro que emanava do peito de Elliot parecia me embriagar. Os cabelos loiros desalinhados sob a iluminação fraca da sala, o contorno rígido do seu maxilar, a forma como a camisa social se ajustava aos ombros largos... Tudo nele começou a parecer avassaladoramente atraente. Um ímã biológico, violento e perigoso. O homem que me trancara em uma gaiola de ouro, o mesmo que me beijara até me fazer sangrar e que eu acusava de ter destruído meu pai, agora parecia o único alívio possível para a tortura que queimava sob a minha pele.
“O que ele fez comigo? O que está acontecendo comigo?” — o pensamento gritava no fundo da minha mente, mas a sensação tátil da pele dele sobrepôs qualquer racionalidade.
Elliot franziu o cenho. Seus olhos azuis, antes frios e calculistas, varreram meu rosto com uma atenção minuciosa. Ele sentiu o calor absurdo que emanava das minhas mãos e a tremedeira involuntária que fazia meus joelhos vacilarem.
— Camille — a voz dele caiu para um tom baixo, severo, mas atravessado por um alerta imediato. — Olhe para mim. O que você tomou?
— Nada... — menti, a respiração falhando enquanto minhas unhas se cravavam involuntariamente na lapela do seu paletó para não cair. — É só... cansaço... O café...
— O café — ele repetiu, o maxilar trancando instantaneamente. A inteligência predatória dele juntou as peças em um fração de segundo. Ele olhou para a porta de vidro jateado e depois voltou para mim, a fúria faiscando no fundo da retina. — Aquela vadia da Naomi...
Elliot tentou se afastar um centímetro, provavelmente para pegar o telefone ou chamar a segurança, mas o movimento de recuo dele foi a gota d'água para o meu corpo dominado pela droga. O pânico de perder aquele contato físico me atingiu com a força de um raio.
A névoa tomou conta de tudo. O passado, o ódio, o medo, a vergonha — tudo foi varrido.
Em um impulso cego, lancei-me sobre ele.
Puxei o colarinho de sua camisa com toda a força que me restava e me joguei contra o seu peito, cravando meus lábios nos dele.
O choque estático do beijo fez a sala desaparecer. Não foi um toque hesitante ou tímido; foi um ataque desesperado, uma invasão faminta. Minha língua buscou a dele com uma urgência quase selvagem, meus dedos se enroscando nos cabelos loiros da sua nuca, arrancando os óculos do meu próprio rosto e jogando-os em algum lugar do chão.
O corpo de Elliot enrijeceu como aço. Por um milésimo de segundo, senti a resistência do homem que tentava manter o controle, a hesitação moral de quem percebia que eu estava sob o efeito de algo.
— Camille, espere... — ele tentou murmurar contra a minha boca, a voz rouca, tentando segurar meus pulsos.
— Não para... por favor, Elliot... não para — implorei contra seus lábios, soltando um gemido abafado, roçando meu corpo encalorado contra o terno dele, entregando toda a minha vulnerabilidade e o desejo reprimido por uma década.
A menção do nome dele, pronunciada daquela forma desesperada, destruiu a última barreira de autocontrole de Elliot.
Um rosnado grave e animal escapou do fundo da sua garganta.







