Antes de partir, candidatei-me à universidade da Pradaria do Norte.
Tirei todas as dúvidas sobre os preparativos necessários para ingressar na faculdade, além de entender bem todos os custos envolvidos. Só então me senti tranquila para voltar.
Ao retornar à Mansão Fonseca, mal entrei pela porta e já ouvi a voz chorosa de Mariana:
— Lucas, você deixou minha irmã para vir ficar comigo. Ela não vai ficar brava?
— Não vai, Serena é muito tranquila, nunca vai brigar comigo. Quando chega o inverno, suas mãos e pés ficam tão gelados, não consigo deixar você sozinha em casa.
Mariana sorriu envergonhada, mas logo sua voz tornou-se novamente triste:
— E depois que você e minha irmã se tornarem companheiros, ainda vai ser tão bom para mim assim?
Lucas respondeu com firmeza:
— Claro! Vou sempre cuidar de você!
Ele fez uma pausa e acrescentou:
— Se a Serena não te tratar bem, eu rompo o vínculo de companheiros com ela.
Mordi o lábio com força para não deixar o choro escapar.
Mesmo vivendo tudo de novo, ouvir meu próprio companheiro sendo tão insensível ainda me magoava profundamente.
Respirei fundo para conter a tristeza e fingi que não tinha ouvido nada ao entrar na casa.
Lucas saiu do quarto de Mariana e, constrangido, explicou:
— Mariana não está bem, só fui ver como ela estava.
Na minha vida passada, já teria começado uma briga com ele.
A cumplicidade e intimidade exageradas entre eles eram algo que eu nunca consegui aceitar. Sempre que via, acabava discutindo com ele.
Mas agora, limitei-me a responder com um simples "sim" e virei-me para voltar ao meu quarto.
No rosto de Lucas passou um traço de surpresa, como se não esperasse que eu estivesse tão calma dessa vez.
— Serena...
Ele me chamou e, depois de um tempo, falou hesitante:
— Se você quiser, podemos fazer uma Cerimônia de Marcação simples aqui em casa, sem ir ao salão...
Fiquei um pouco surpresa. Nesta vida, ele mesmo sugeriu isso. Talvez por perceber que eu não discutia mais, tenha decidido me compensar de alguma forma.
Balancei a cabeça com tranquilidade e recusei sua proposta:
— Não precisa dessas formalidades. A Marcação pode ser feita a qualquer momento.
Ele ficou paralisado, claramente não esperava que eu rejeitasse a ideia.
— Serena, você ainda está brava por o Lucas ter te deixado para vir cuidar de mim?
Mariana saiu do quarto, olhando para mim com um ar de piedade.
Ela usava um lindo vestido, o mesmo que comprei especialmente para a Cerimônia de Marcação – meu vestido de noiva.
Comprei com a mesada que economizei por mais de meio ano, e nunca tive coragem de usá-lo.
Ao notar meu olhar, Mariana se apressou em se explicar, nervosa:
— Vi o vestido pendurado na sua cabeceira e achei tão bonito que não resisti a experimentar. Acabei esquecendo de tirar. Serena, você não vai ficar brava, né?
Lucas, instintivamente, tentou me acalmar:
— Serena, não fique...
Interrompi-o com uma voz serena:
— Não tem problema, ficou ótimo em você. Pode ficar, eu nunca usei mesmo.
Sob os olhares surpresos de ambos, voltei para o quarto e tranquei a porta.
Comecei, em silêncio, a arrumar minhas coisas. Conseguir estudar na universidade de lobisomens da Pradaria do Norte era meu sonho.
Na vida passada, por causa de Lucas, abandonei meus estudos e dediquei tudo àquela família.
Felizmente, ainda estava em tempo. Agora, só queria viver para mim mesma.
Faltavam apenas três dias para minha partida.
Antes disso, precisava terminar de arrumar tudo. Este lugar, eu nunca mais voltaria.
O som de batidas na porta interrompeu meus pensamentos. Demorei um bom tempo até ir abrir.
— Por que demorou tanto? Venha jantar, pedi para a cozinheira preparar sua comida preferida, coração de veado.
— Não precisa, já comi fora.
— Como assim? Você nunca gostou de gastar dinheiro.
Meu coração doeu.
Antes, eu economizava cada centavo da minha mesada para comprar presentes para ele, mas todos aqueles presentes cuidadosamente escolhidos acabaram nas mãos de Mariana.