Mundo de ficçãoIniciar sessãoUma semana depois, Charles Durdday atravessou as portas do escritório com a mente já focada nos relatórios da manhã. Mas, ao erguer os olhos, parou no meio da sala.
Uma mulher loira, de meia-idade, estava sentada na mesa da secretária.
— Bom dia, senhor Durdday — ela disse, com um sotaque local carregado. — Sou a nova secretária. A Sra. Campbell fez a transferência esta manhã.
Charles piscou. Uma vez. Duas vezes.
— Onde está a Srta. Madison? — a voz saiu mais cortante do que ele pretendia.
— Ela foi realocada para o setor de arquivos, senhor. A Sra. Campbell achou que...
Ele não esperou o fim da frase. Virou-se e marchou para o escritório, os passos ecoando no mármore. A porta bateu atrás dele com um estrondo que fez o quadro na parede tremer.
O telefone foi arrancado do gancho antes que ele pensasse duas vezes:
— Recursos Humanos — a voz do outro lado atendeu.
— Aqui é Charles Durdday. Quero saber quem autorizou a transferência da Srta. Madison sem minha aprovação.
— Senhor Durdday, a Sra. Campbell...
— Não me importa o que a Sra. Campbell fez. A Srta. Madison é minha secretária. Ela foi contratada para trabalhar comigo. E quero ela de volta na minha sala ainda hoje.
— Mas, senhor, a documentação já foi...
— Escute bem — Charles baixou a voz, mas o gelo nela era cortante. — Se a Srta. Madison não estiver sentada na mesa dela em uma hora, demito todo o setor de RH. Todos. Começando por você.
Silêncio do outro lado.
— Sim, senhor. Vou resolver imediatamente.
— E mais — Charles acrescentou, os dedos apertando o fone. — Quero um aumento salarial para ela. Plano de saúde completo. E um bônus de compensação pelo transtorno. Coloque isso na carta de retorno.
— Senhor, o orçamento...
— O orçamento sou eu. Faça.
Desligou sem esperar resposta.
Passou a mão no rosto, sentindo a tensão nos ombros. Mariana. Sempre Mariana. Ela nunca blefava, nunca recuava. Mas desta vez tinha ido longe demais.
Quarenta e cinco minutos depois, a porta do escritório se abriu.
Anne Madison entrou, o cabelo negro escapando do coque, os olhos azuis-cristalinos arregalados de surpresa. Ela segurava uma pasta contra o peito, como se fosse um escudo.
— Senhor Durdday? — a voz dela estava hesitante. — Disseram que o senhor pediu meu retorno.
Charles endireitou-se na cadeira, ajustando a gravata. O nó estava torto.
— Sente-se, Srta. Madison. Temos muito trabalho a fazer.
Ela hesitou por um segundo; depois, um sorriso lento brotou nos lábios dela.
— E a gravata, senhor? — ela perguntou, aproximando-se. — Está uma bagunça.
Antes que ele pudesse responder, os dedos dela já estavam no nó, ajustando-o com a precisão de quem já conhecia aquele gesto de cor. O toque foi rápido, mas Charles sentiu o calor subir pelo rosto.
— Pronto — ela disse, os olhos encontrando os dele. — Agora está apresentável.
— O café está na sua mesa — ele respondeu, a voz mais rouca do que gostaria. — E, Srta. Madison?
— Sim?
— Não desapareça de novo.
O sorriso dela se alargou:
— Não pretendo, senhor.
A tarde já se arrastava quando Mariana apareceu na porta do escritório, os olhos azuis brilhando com uma mistura de curiosidade e determinação. Ela vestia um vestido azul-claro que contrastava com o cinza sóbrio do ambiente corporativo e trazia nas mãos uma bolsa de couro que apertava contra o corpo como se carregasse um troféu.
— Charles — ela disse, entrando sem cerimônia. — Ouvi dizer que você causou um alvoroço hoje.
Charles ergueu os olhos do relatório, os dedos ainda apoiados sobre a mesa. O nó da gravata estava impecável, graças a Anne.
— Mariana. Que surpresa desagradável.
— Desagradável? — Ela sentou-se na cadeira diante dele com uma elegância que desafiava a idade. — Vim ver com meus próprios olhos o irmão que quase demitiu o RH inteiro por causa de uma secretária.
— Por causa de uma transferência não autorizada — ele corrigiu, a voz fria. — Você sabe muito bem do que estou falando.
— Sei — Mariana inclinou a cabeça, um sorriso provocador nos lábios. — E adorei cada segundo.
— Você quer ser demitida do cargo de irmã?
— Você não teria coragem — ela respondeu, rindo baixinho. — Quem cuidaria de você?
A porta se abriu antes que Charles pudesse responder. Anne entrou com uma bandeja, os passos firmes sobre o carpete. Ela colocou uma xícara de chá diante de Mariana e uma xícara de café preto na frente de Charles, tudo com a precisão de quem já conhecia os gostos de ambos.
— Srta. Madison — Mariana agradeceu, pegando a xícara. — Você é um anjo.
— É um prazer, Sra. Campbell — Anne respondeu, com um sorriso genuíno.
Charles tomou um gole do café, os olhos fixos na irmã:
— Tudo isso é culpa sua, Mariana. Se não tivesse metido o nariz onde não foi chamada...
— Culpa minha? — Mariana arqueou uma sobrancelha. — Eu só sugeri uma realocação.
— Exatamente.
Anne pigarreou, e ambos se viraram para ela. A secretária ainda estava ao lado da mesa, os braços cruzados sobre a bandeja vazia.
— Com todo o respeito, senhor Durdday — ela disse, a voz calma, mas firme. — Acho que o senhor está sendo injusto.
Charles piscou:
— Como disse?
— A Sra. Campbell não fez nada além de uma sugestão. A transferência foi aprovada pelo RH, a documentação estava correta. Se alguém deve ter autorizado, foi o senhor. — Ela sustentou o olhar dele sem hesitar. — O senhor já tem idade suficiente para assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas, em vez de colocar a culpa na sua irmã.
Mariana soltou uma risada alta, quase musical; estava surpresa.
— Charles! Ela é perfeita. Absolutamente perfeita.
O magnata franziu o cenho, mas não havia raiva em seus olhos. Apenas surpresa.
— A empresa inteira tem medo de você, Mariana. Você sabe disso.
— Medo de mim? — Mariana riu de novo. — Não seja ridículo.
— É verdade — Charles insistiu. — Todos sabem que você é a verdadeira força por trás do império.
Anne balançou a cabeça, um sorriso contido nos lábios:
— Não é possível que tenham medo de uma pessoa tão doce como a Sra. Campbell.
Mariana lançou um olhar triunfante para o irmão:
— Viu? Até sua secretária discorda de você.
Charles suspirou, passando a mão no rosto:
— Mariana, vá para casa. Você já causou problemas suficientes por hoje.
— Não posso — ela respondeu, com um sorriso inocente. — Vim visitar meu marido.
— Como o Márcio aguenta você? — Charles franziu o cenho.
— Por que você não pergunta a ele? — Mariana deu um gole no chá, os olhos brilhando.
Anne mordeu o lábio, tentando conter o riso. A cena era absurda: o magnata todo-poderoso sendo desmontado pela própria irmã, e ela ali, servindo chá, testemunhando tudo.
— Srta. Madison — Charles disse, sem olhar para ela. — Tem algo a acrescentar?
— Não, senhor — ela respondeu, a voz trêmula do esforço para não rir. — Acho que a Sra. Campbell já disse tudo.
Mariana ergueu a xícara em um brinde silencioso para Anne, e as duas trocaram um olhar cúmplice.
Charles respirou fundo, os dedos apertando a xícara de café:
— Isso vai ser um longo dia.







