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Capítulo 4: O Que a Porta Esconde

Duas horas se passaram desde que Anne saíra para o almoço. Charles emerge da sala de reuniões com passos firmes, a mente ainda ocupada pelos números da apresentação trimestral, quando Rodrigo, seu sobrinho mais velho, o intercepta no corredor.

— Tio Charles — o rapaz estende uma pasta fina. — Minha mãe pediu para entregar. Ela já revisou todos.

Charles pega os documentos, os dedos encontrando a textura do papel sulfite. Abre a pasta e folheia os currículos enquanto caminha. Mariana realmente falou sério quando disse que iria arranjar uma secretária mais velha. Os perfis ali são todos de mulheres acima dos quarenta anos, com décadas de experiência em cargos executivos.

— Obrigado, Rodrigo — diz, sem desviar o olhar dos papéis.

O sobrinho acena e se afasta, deixando Charles sozinho no corredor de mármore. O magnata continua andando, os olhos percorrendo nomes, formações e históricos profissionais impecáveis. Qualquer uma daquelas mulheres substituiria Anne Madison com competência e discrição.

Ele está passando pela sala de descanso quando uma voz familiar o faz parar.

A porta está entreaberta. A voz de Anne chega até ele, clara e preocupada:

— Não sei, Camila. Acho que o senhor Durdday está tentando me demitir.

Charles congela. O coração dá um baque surdo contra as costelas.

— Logo agora que eu achei que ia conseguir sair da pensão — Anne continua, a voz mais baixa. — Ia dividir um apartamento com umas amigas, mas precisei ajudar minha mãe com dinheiro este mês. As coisas estão tão difíceis.

Uma pausa. O som de uma xícara sendo colocada sobre a mesa.

— Estou pensando em pegar um turno freelancer à noite — Anne diz. — Um bar que conheço está precisando de garçonete. Estou muito preocupada, Camila. Tive que cancelar meu plano de saúde.

Charles olha para os currículos na mão.

Mulheres competentes. Experientes. Que não trariam o fantasma de uma noite de outono para assombrá-lo a cada esquina. Mulheres que não precisariam fazer bicos noturnos para sobreviver.

— Ele não parece o tipo que demite sem motivo — a voz de Camila responde, cautelosa. — Mas também não parece o tipo que dá confiança.

— Pois é — Anne ri, sem humor. — Ontem mesmo ele quase me mandou embora só porque eu coloquei açúcar no café dele. Foi automático... mas também, ele é o único ser vivo que conheço que bebe café amargo. Se não fosse o Sr. Campbell...

Charles aperta a pasta com mais força. O papel amassa ligeiramente nas bordas.

Ele deveria entrar. Dizer algo. Esclarecer que não há planos de demissão — pelo menos não agora. Mas as palavras não vêm. Em vez disso, ele fica ali, imóvel, ouvindo a voz dela falar sobre contas atrasadas e noites extras de trabalho.

Os currículos pesam na mão dele. Uma escolha silenciosa que ele ainda não fez.

Algumas semanas se passaram, e Charles já não sabia mais se Anne Madison era um presente ou um castigo.

Ela aparecia todas as manhãs pontualmente, com seus olhos azuis-cristalinos e aquele cabelo negro que teimava em escapar do coque. E, invariavelmente, em algum momento do dia, ela fazia algo que o tirava do sério.

— Senhor Durdday, o café está na sua mesa — ela disse certa tarde, entrando no escritório com uma pilha de pastas equilibrada no braço.

— Com açúcar? — ele perguntou, sem levantar os olhos dos relatórios.

— Claro que não — Anne revirou os olhos, um gesto rápido que ele fingiu não notar. — Eu aprendi a lição na primeira semana. Mas ainda acho um absurdo alguém tomar café amargo de propósito.

Charles ergueu uma sobrancelha:

— Algum problema com minhas preferências, Srta. Madison?

— Nenhum, senhor. Só acho que seu paladar precisa de reabilitação.

Ele a encarou por um longo segundo, sentindo a ponta dos lábios ameaçar um sorriso. Controlou-se a tempo.

— Há relatórios para revisar — disse, seco. — Na sua mesa.

— Sim, senhor.

Ela saiu com um meio sorriso que ele captou pelo canto do olho. E, quando a porta se fechou, Charles permitiu que o sorriso escapasse. Sozinho. Ninguém o via assim.

Mas havia também os momentos em que a tensão no escritório ficava insuportável. Reuniões com acionistas, números que não fechavam, ligações complicadas. E Anne aparecia com uma xícara de chá quente, uma observação casual sobre o tempo, um comentário sobre o livro que ele estava lendo.

— Li esse ano passado — ela disse um dia, apontando para o exemplar sobre a mesa dele. — O final é uma porcaria, mas o meio é bom.

— Srta. Madison, esse livro é um clássico da literatura escocesa.

— Sei. Mas o final continua sendo uma porcaria.

Charles bufou, algo entre a irritação e o divertimento. E, pela primeira vez em anos, sentiu a tensão nos ombros diminuir.

Ela arrumava a gravata dele. Isso havia se tornado um hábito silencioso. Todas as manhãs, quando ele chegava, Anne se aproximava com naturalidade e ajustava o nó, alisava o tecido, dava um pequeno toque nos ombros dele.

— Pronto — ela dizia, os olhos azuis encontrando os dele por um instante. — Agora está apresentável.

— Eu sou perfeitamente capaz de arrumar minha própria gravata — ele protestou na terceira vez.

— Sei que é. Mas não faz direito.

Ela disse isso com tanta convicção que Charles não encontrou resposta.

Naquela tarde, ele estava na sala de reuniões, ouvindo o gerente financeiro discursar sobre projeções trimestrais, quando Anne entrou para servir café. Ela se moveu pela sala com discrição, servindo as xícaras, mas quando chegou perto dele, parou por um segundo.

— A gravata — murmurou, baixinho. — Está torta.

Antes que ele pudesse reagir, os dedos dela tocaram o nó, ajustando-o com precisão. O toque foi rápido, quase impessoal, mas Charles sentiu o calor dos dedos dela através do tecido.

— Obrigado — ele disse, a voz mais baixa do que pretendia.

— De nada — ela respondeu, e havia um brilho nos olhos dela, um pequeno sorriso nos lábios.

O gerente financeiro tossiu, retomando a apresentação. Charles forçou a atenção de volta aos números, mas sentiu o calor no rosto.

Mais tarde, sozinho no escritório, ele riu. Um riso baixo, quase inaudível. Fazia tanto tempo que ninguém o fazia rir.

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