Início / Romance / Depois daquela Noite / Capítulo 3: Rosas e Gravatas
Capítulo 3: Rosas e Gravatas

O cair da tarde em Edimburgo tinge o jardim da mansão Durdday em tons de âmbar e lavanda. Charles, ainda vestindo o terno do escritório, mas com os primeiros botões da camisa afrouxados, ajoelha-se na terra ao lado de Mariana. A irmã, de vestido leve e luvas de jardinagem, manuseia uma roseira com a paciência de quem conhece o valor das coisas que precisam de tempo para florescer.

— Segura aqui — ela pede, indicando o ramo principal.

Charles obedece em silêncio, as mãos grandes e elegantes cobertas de terra. Há algo de quase cerimonial naquele gesto, uma trégua rara na armadura que ele veste todos os dias.

Mariana compacta a terra ao redor das raízes sem olhar para ele. A voz sai baixa, mas carregada de um cansaço que não é físico:

— Até quando, Charles?

Ele não responde de imediato. Apenas observa os dedos dela trabalhando a terra, o movimento preciso e cuidadoso.

— Márcio te contou — ele afirma, mais do que pergunta.

— Sim. E não precisava. Eu já sabia. Sempre sei.

Mariana ergue os olhos azuis, tão parecidos com os dele, mas tão mais doces. Não há acusação no olhar. Apenas uma tristeza serena que pesa mais do que qualquer grito.

— Você traz mulheres para esta casa como quem traz convidadas para um jantar. Elas vêm, ocupam o espaço, dormem no seu quarto e, pela manhã, já não existem mais. — Ela limpa a terra das mãos, devagar. — Eu odeio sentir que moro num motel, Charles. Odeio acordar e não saber se vou encontrar uma estranha na cozinha.

Charles desvia o olhar, o maxilar contraído:

— Não é da sua conta.

— É da minha conta quando isso te consome. Quando você usa essas noites como anestésico. — Mariana toca o braço dele com suavidade. — Eu não estou brava. Estou cansada de ver você se perder.

Ela suspira, voltando a atenção para a roseira:

— Vou arranjar outra secretária. Alguém mais velha, mais discreta.

Charles sente algo se contrair no peito. A imagem do relatório sobre a mesa, a caligrafia firme, os olhos azul-cristal desafiando os dele. Ele abre a boca para responder, mas as palavras não vêm.

Mariana ergue o rosto para o céu que escurece:

— Você precisa decidir o que quer, Charles. Antes que destrua tudo o que ainda pode ser salvo.

Dias se passaram desde a conversa no jardim, e o ritmo na sede do Império Durdday segue implacável. Anne se adaptou aos corredores de mármore e às pastas intermináveis, mas ainda sente o peso de cada olhar que cruza o dela.

Naquela tarde, o silêncio do décimo quinto andar é rompido por um som inesperado. Um resmungo grave, seguido de um impacto seco contra a madeira.

Anne ergue os olhos da tela do computador. A porta da sala da presidência está entreaberta. Ela se levanta, os passos silenciosos no carpete, e espia pela fresta.

Charles Durdday está de pé diante do espelho atrás da mesa, os dedos enroscados na seda escura da gravata. O nó está torto, assimétrico, e cada tentativa de ajuste só piora a situação. Ele solta um suspiro irritado, o maxilar contraído, e puxa a ponta do tecido como se quisesse estrangulá-lo.

— Droga — murmura, baixinho.

Anne morde o lábio. Não é possível que um homem como ele, que comanda um império com mãos de ferro, não saiba amarrar uma gravata.

A vontade de rir aperta o peito dela, mas ela a sufoca. Empurra a porta com cuidado:

— Sr. Durdday?

Ele se vira, surpreso, e por um instante o constrangimento cruza o rosto dele antes de ser engolido pela máscara de gelo.

— O que foi, Srta. Madison?

Anne se aproxima, os olhos fixos na gravata desastrada.

— Posso ajudar?

Ele hesita. O orgulho briga com a urgência. O relógio na parede marca três minutos para a reunião.

— Estou atrasado — ele diz, como se isso explicasse tudo.

— Eu percebi.

Ela para diante dele e estende as mãos. Charles fica imóvel por um segundo, depois solta a gravata com um suspiro derrotado.

— Minha irmã faz isso em segundos. Não entendo como.

Anne abaixa a cabeça para ajustar o nó, os dedos ágeis e precisos. O tecido é macio, caro, muito diferente das roupas simples que ela usa. O perfume dele — turfa, couro, algo amadeirado — envolve o ar ao redor.

Charles prende a respiração.

O rosto dela está próximo. Muito próximo. Os cílios escuros, a pele clara, os lábios entreabertos em concentração. E então o cheiro atinge as narinas dele. O perfume dela. Barato, talvez falsificado, algo que qualquer mulher de posses evitaria usar. Mas está impregnado na memória dele desde aquela noite.

A noite em que ela não era a Srta. Madison. Era apenas uma mulher de cabelos negros e olhos de cristal que o fitou como se ele fosse alguém comum.

Anne aperta o nó, ajusta a gola e ergue o olhar:

— Pronto.

Os olhos deles se encontram. O ar fica denso.

Ela recua um passo, tossindo baixinho:

— Sr. Durdday... posso sair para almoçar?

Charles pisca, como se acordasse. Olha para o relógio: uma hora e vinte da tarde.

— Me desculpe — ele diz, a voz mais suave do que ela esperava. — Não percebi a hora passar. Você não precisa pedir permissão para comer, Srta. Madison.

Ela sorri de lado, um sorriso pequeno, quase tímido:

— Obrigada.

Ele a observa se virar, os passos firmes em direção à porta. Tão fofa, pensa ele. Tão quieta às vezes. Mas é só aparência. Ele já sabe o que existe por baixo.

Charles passa a mão no nó da gravata, perfeito, e sente o coração bater mais forte do que deveria.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App