Mundo de ficçãoIniciar sessãoAssim que a porta se fecha, Charles permanece imóvel por um longo instante. Os dedos param de tamborilar sobre a madeira. Ele ouve os passos dela se afastando pelo corredor, e algo no ritmo firme daqueles passos o irrita profundamente. Ela deveria estar abalada. Deveria estar envergonhada. Em vez disso, saiu como se tivesse vencido uma batalha.
Ele pega o telefone com um movimento seco e digita o ramal:
— Márcio, venha até meu escritório. Agora.
Minutos depois, a porta se abre e Márcio entra. O cunhado de Charles tem a mesma estatura imponente, mas os traços são mais suaves, o olhar mais caloroso. Ele veste um terno cinza bem cortado e traz uma xícara de café na mão, claramente interrompido em alguma tarefa.
— Fechou a porta — Márcio observa, franzindo o cenho. — O que houve?
Charles não se levanta. Permanece sentado, os olhos fixos em algum ponto além da janela, onde os telhados de Edimburgo se recortam contra o céu nublado.
— A nova secretária. Quero que você a demita.
Márcio pisca. Por um momento, ele parece não ter ouvido direito. Depois, solta uma risada curta, incrédula.
— Demitir a Srta. Madison? Charles, ela começou hoje. Mal terminou a integração.
— Não me importa.
— Como assim não te importa? — Márcio dá um passo à frente, apoiando a mão livre na borda da mesa. — Mariana passou semanas selecionando candidatas. Ela viu algo especial nessa garota. E você quer que eu a mande embora sem motivo?
— Tenho meus motivos.
— Quais? — Márcio insiste, a voz perdendo a paciência. — Porque, francamente, Charles, não temos ninguém para substituí-la. O departamento está sobrecarregado, a Paula está de licença e a temporada de lançamentos começa na próxima semana. Você quer assumir a agenda sozinho?
Charles finalmente desvia o olhar da janela e encara o cunhado. O silêncio entre eles se estica, carregado de tensão.
— Arranje alguém — ele diz, a voz baixa e cortante.
Márcio balança a cabeça, recuando um passo.
— Não posso. E não vou. Se quer demiti-la, faça você mesmo. Mas saiba que estará jogando fora a melhor contratação que fizemos em meses por razões que você se recusa a explicar.
Ele espera, desafiador, o peito subindo e descendo. Charles não responde. Apenas desvia o olhar novamente, os dedos retomando o tamborilar sobre a madeira, e Márcio entende que a conversa terminou.
A mão de Márcio já está na maçaneta quando a voz de Charles corta o ar, baixa e precisa como uma lâmina cirúrgica:
— Ela esteve na minha cama ontem à noite.
Márcio congela. A mão permanece imóvel sobre o metal por um longo instante antes de ele se virar lentamente, o rosto marcado por uma expressão que mescla incredulidade e alerta.
— O quê?
Charles não desvia o olhar. Permanece ereto na cadeira, os dedos entrelaçados sobre a mesa, o maxilar contraído.
— Na festa de gala da Fundação Edimburgo. Ela estava lá. Eu não sabia quem era, não trocamos nomes, apenas... — Ele faz uma pausa, a mandíbula tensa. — A noite terminou na minha suíte.
Márcio solta a maçaneta e dá dois passos de volta para dentro da sala. A xícara de café balança levemente em sua mão.
— Você está me dizendo que transou com a nova secretária ontem e a reconheceu hoje de manhã?
O silêncio de Charles é a única confirmação necessária.
— Pelo amor de Deus, Charles — Márcio passa a mão livre pelo rosto, os dedos apertando a testa. — Você sabe o risco que isso representa: assédio, abuso de poder, processo trabalhista. Se ela resolver denunciar, o Império Durdday vira manchete de escândalo.
— Ela não vai denunciar — Charles responde, a voz fria como o aço. — Ela veio por vontade própria. Não houve coerção. E eu deixei claro que o ocorrido deve ser esquecido.
— Esquecido? — Márcio ri, sem humor. — Você acha que ela vai simplesmente esquecer que dormiu com o próprio chefe na véspera do primeiro dia de trabalho? Charles, você perdeu o juízo?
Charles se levanta, a cadeira deslizando para trás com um ruído seco. Ele contorna a mesa, os olhos fixos no cunhado, a postura ereta e inflexível.
— Eu não perdi o juízo. Estou protegendo a empresa. Ela não pode ficar. Toda vez que eu olhar para ela, vou lembrar do que aconteceu. E ela também. Isso compromete a autoridade, a hierarquia, a objetividade.
— Então você quer demiti-la por sua própria incapacidade de lidar com as consequências dos seus atos? — Márcio sacode a cabeça, a voz agora carregada de uma frustração cansada. — Você é o presidente, Charles. Comporte-se como tal. Se ela é competente — e Mariana garante que é —, então você aprende a conviver com o constrangimento. Ou prefere explicar ao conselho por que demitiu uma funcionária no primeiro dia sem justificativa?
Charles sustenta o olhar do cunhado, o silêncio se estendendo entre eles como um abismo. Márcio não recua.
— Pense com a cabeça de cima, Charles. Pela primeira vez em muito tempo.
Márcio sai do escritório, deixando um silêncio pesado para trás. Charles permanece imóvel por um longo momento, os olhos fixos na porta fechada, os dedos ainda entrelaçados sobre a mesa. A decisão está tomada. Se não pode demiti-la sem levantar suspeitas, então fará com que ela mesma queira ir embora.
Na manhã seguinte, Anne encontra sobre sua mesa uma pilha de documentos que faria qualquer funcionário experiente suar: relatórios de auditoria cruzada, planilhas de projeção trimestral e análises de mercado para três divisões diferentes. Tudo marcado com prazos impossíveis e anotações em letra firme: "Para hoje, 18h."
Ela ergue os olhos na direção da porta fechada do presidente e sente o estômago apertar. Ele quer vê-la quebrar. Quer que ela entre no escritório com as mãos trêmulas e peça demissão.
Anne respira fundo e começa a trabalhar.
Os dias se transformam em um jogo silencioso de resistência. Charles inventa tarefas, exige revisões, marca reuniões ao final do expediente apenas para apontar falhas mínimas. Ela chega em casa tarde, exausta, mas não se permite desabar. Na pensão apertada, sob a luz fraca de um abajur, Anne estuda até tarde. Decora termos técnicos, aprende sobre a indústria cosmética e entende os relatórios que antes pareciam escritos em outro idioma.
Na quinta-feira, ela entrega a análise de projeção de vendas para o mercado asiático com vinte minutos de antecedência. Completa. Correta. Com observações que Charles não havia solicitado, mas que revelam uma compreensão surpreendente do setor.
Ele folheia o documento em silêncio, o rosto impenetrável. Anne espera, o queixo erguido, as mãos firmes mesmo com o coração acelerado.
— Pode se retirar, Srta. Madison.
Ela sai sem dizer uma palavra.
Charles fica imóvel por um longo instante, os olhos fixos no relatório. A caligrafia é clara, os números precisos e as observações, pertinentes. Ela não apenas cumpriu o prazo: superou as expectativas.
Ele apoia os cotovelos na mesa e passa a mão pelo rosto, sentindo algo que não experimentava há anos. Uma irritação que, lentamente, se transforma em outra coisa. Algo perigoso. Algo que ele não quer nomear.
O relatório permanece aberto à sua frente, e Charles percebe que, pela primeira vez, não está olhando para uma funcionária. Está olhando para uma adversária à altura.







