Mundo de ficçãoIniciar sessão
O ar gelado do escritório parece penetrar sua pele, mas não é nada comparado ao frio que se instala em seu estômago. Anne Madison trava a mandíbula, os dedos cravados na alça da bolsa de couro simples que carrega. Cada passo em direção à cadeira diante da mesa de ébano é um exercício de pura força de vontade. Ela não pode desmoronar. Não agora.
O homem da noite anterior está ali, impecável em seu terno escuro de alfaiataria, os fios grisalhos nas têmporas capturando a luz fria que entra pelas janelas amplas. Ele não parece surpreso. Não parece nada, na verdade. O rosto de Charles Durdday é uma máscara de polidez impenetrável, os olhos azuis analisando-a como se ela fosse mais um documento sobre sua mesa.
— Srta. Madison — a voz dele é baixa, controlada, com um sotaque escocês suave que ontem à noite sussurrava coisas em seu ouvido. Hoje, soa como uma sentença.
Anne senta-se, as pernas ameaçando tremer. Tenta esconder o nervosismo. Ela ergue o queixo, um gesto de desafio que aprendeu a aperfeiçoar nos anos de luta. Seu cabelo negro ainda está levemente úmido do banho rápido que tomou na pensão, e ela sabe que suas roupas simples destoam da elegância sóbria do ambiente.
— Bom dia, Sr. Durdday — a voz sai firme, para sua própria surpresa.
Ele inclina levemente a cabeça, os dedos longos tamborilando uma vez sobre a superfície de madeira escura. Por um instante, o silêncio se estica entre eles, denso e carregado. Anne vê o lampejo de reconhecimento em seus olhos, sim, ele se lembra. Mas não há calor ali. Apenas uma frieza calculista que a faz sentir-se menor do que já se sentiu em toda a vida.
— Seu currículo é impressionante para alguém de sua origem — ele diz, e a palavra origem soa como uma faca polida. — Trabalhou em três restaurantes, garçonete, nenhuma formação superior. E, no entanto, minha irmã insistiu que você era a candidata ideal.
Anne engole seco. Mariana. A mulher loira e doce que a entrevistou, todos a conhecem como Sra. Campbell, por ser casada com o vice-presidente da empresa. Ela havia olhado Anne além de suas roupas gastas e viu algo mais.
— Sou dedicada, Sr. Durdday. E juro... eu aprendo rápido.
Ele a observa por um longo momento, e Anne sente o peso daqueles olhos cirúrgicos percorrendo seu rosto, descendo pelo pescoço, parando brevemente em seus lábios. O ar no escritório parece rarear.
— A noite passada — ele diz, finalmente, a voz baixa como um rosnado — não se repetirá. Sou seu chefe. Você é minha funcionária. Esqueça o que aconteceu.
A ordem é um golpe seco. Anne sente o sangue ferver, mas mantém a postura. Ela não é uma vítima. Não será.
— Não tenho nada a esquecer, Sr. Durdday. Foi apenas uma noite.
O lábio dele se contrai, quase imperceptível. Quase. Anne mantém o olhar firme, o queixo erguido, mesmo sentindo o coração galopar contra as costelas. Ela não vai permitir que nenhuma emoção extravase, não dará a ele o prazer de vê-la fraquejar. Quando ele finalmente desvia os olhos para os papéis sobre a mesa, um gesto de dispensa silenciosa, ela se levanta com a dignidade intacta e sai do escritório sem olhar para trás.
Assim que fecha a porta, Anne se permite soltar o ar que segurava. O único pensamento que passava em sua cabeça era "pelo menos eu consegui um emprego", isso para Anne era um alívio muito grande; estava precisando muito de cada centavo que pudesse ganhar. Sua mente estava um turbilhão de emoções, ela está com muita raiva de si mesma: "merda! merda! por que eu fui para aquela festa?". Anne gostaria que, no dia em que foi contratada, não a tivessem convidado. Era óbvio que aquele cara do financeiro tinha segundas intenções com ela, porém Anne, burra e bêbada, tinha dormido justo com o chefe. Anne suspirou seguindo o caminho pelo corredor. Hoje era seu primeiro dia no novo emprego; só poderia rezar para não ser demitida tão cedo.







