Mundo de ficçãoIniciar sessão
“Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe".
Mateus 19:6
Por mais que ele tentasse, não conseguia desviar o olhar de onde eu estava. Eu era a carne nova no lugar e, desde a entrevista, já sabia que ele sentia necessidade de ter todas as mulheres que passavam pela empresa.
Confesso que no início associei os comentários a assédio sexual, mas logo entendi que não era o caso. As funcionárias é que assediavam os patrões.
Ouvi que o sócio, que era solteiro, costumava escolher as funcionárias de acordo com suas preferências sexuais, pois assim não precisava se fazer de difícil ao receber os olhares maliciosos que sempre lhe eram direcionados.
A entrevista quase foi um desastre. Saber que beleza era um dos requisitos para o cargo me deixou com um pouco de raiva. Os poucos minutos que fiquei na sala de espera aguardando ser chamada foram suficientes para que algumas das funcionárias me colocassem a par de como funcionava a gravadora no sentido patrão e empregada, mesmo que eu demonstrasse não me interessar pelo assunto. Elas não se importavam com minhas respostas curtas e secas. Insistiam em relatar casos e mais casos relacionados aos patrões e suas vidas pessoais. Deixei que falassem até que uma senhora anunciou meu nome e me fez acompanhá-la.
Com passos um pouco vacilantes segui a senhora até uma sala no fim do corredor. Enquanto caminhava alisei a saia preta e a blusa branca num esforço para parecer apresentável depois de ter enfrentado o metrô e uma espera de quase uma hora para ser entrevistada.
Comecei a tremer no momento em que a porta dupla se abriu e vi os dois homens me aguardando. A beleza física deles intimidava. Tentei disfarçar o nervosismo analisando cada detalhe da sala, mas o solitário quadro impressionista na parede no qual era ilustrado um casal conversando cercados por muitas cores; os livros e revistas no cesto próximo a poltrona dos visitantes e a janela de vidro que abria para um cenário de prédios e automóveis não eram suficientes para desviar minha atenção daqueles homens.
Depois de um aperto de mão em cada um, me sentei na única cadeira em frente à mesa do escritório enquanto eles analisavam meu currículo com um sorriso calculado nos rostos. O mais alto, Evandro, seria meu chefe se eu fosse aprovada. O outro, Enrique, seria minha cruz.
Percebi que ele demorou a soltar minha mão e seus olhos passeavam pelo meu corpo não muito disfarçadamente. Sentia que ele me despia com o olhar.
Naquele momento temi não ser contratada, pois como sócio ele poderia interferir na minha contratação. Soube que não admitia mulheres que não faziam o seu tipo, e seu sócio não se importava em aprovar apenas candidatas que satisfizessem as vontades dele; desde que fossem competentes.
Eles fizeram algumas perguntas sobre minhas experiências anteriores, o que eu esperava da empresa, meus planos para o futuro e disponibilidade para horários não convencionais e viagens. Depois me dispensaram pedindo para aguardar um contato.
No dia seguinte recebi o telefonema informando que seria contratada para começar no início da outra semana. A notícia me deixou extremamente feliz. Liguei para meus pais contando a novidade e eles ficaram muito felizes com minha conquista.
*
Com o tempo percebi que muito do que as funcionárias falaram no dia de minha entrevista era mentira. Enrique não ficava simplesmente com todas as mulheres da empresa, ele gostava mesmo era do prazer da conquista, pois nunca o vi sair com nenhuma mulher duas vezes desde o momento em que comecei a trabalhar com eles.
Era difícil entender qual tipo de mulher Enrique gostava, pois cada vez o via sair com uma diferente; eram loiras, ruivas, morenas, baixas, altas, todo tipo de mulher, todas lindas.
Sua secretária às vezes deixava escapar uma reclamação ou outra sobre os telefonemas que os casos dele faziam diariamente.
Sem perceber comecei a analisar minha aparecia quando ele estava por perto. Eu também era bonita, a academia me ajudava a manter o corpo já magro em forma, meus cabelos ondulados e castanhos viviam brilhantes graças à atenção que dava a eles. Meus olhos castanhos claro expressavam tudo que eu sentia, o que às vezes era um problema, porque eu tinha o hábito de conversar sempre olhando nos olhos das pessoas e isso tornava mentir uma tarefa quase impossível. Este detalhe era algo que atrapalhava um pouco quando o assunto era com Enrique.
Em menos de um mês trabalhando no lugar, eu já era o comentário de todos os funcionários. Todos notavam as tentativas frustradas de Enrique em me levar para a cama. Cheguei a descobrir que fizeram até apostas de quanto tempo eu resistiria ao belo chefe.
Enrique não fazia questão de esconder seu interesse. O que causava certa inveja entre as funcionárias que já passaram por sua cama e que precisaram dar em cima dele para conseguir.
Enquanto isso, Evandro não dava nenhum motivo para fofocas. Sempre discreto e sincero, transbordava os sentimentos lindos que sentia pela esposa. Várias vezes encomendei flores e marquei jantares para eles. Nunca notei nada que maculasse sua índole.
Como secretária de Evandro, eu ficava em uma sala que antecedia a dele, no andar abaixo de onde ficava a sala de Enrique.
A empresa era a Brasilian Music; uma grande gravadora situada num dos lugares mais privilegiados da Avenida Paulista em São Paulo.
O prédio possuía catorze andares, onde eram distribuídos estúdios e escritórios. Meu local de trabalho ficava no penúltimo andar. Pelo menos cinco vezes por dia, Enrique descia do último para conversar com Evandro.







