Mundo de ficçãoIniciar sessão“Alexander”
Estou recolhendo a louça do jantar quando o casal de amigos chega na minha pequena propriedade em Piracicaba.
― Boa noite ao mais novo bilionário da cidade! ― Mariana b**e palmas ao entrar em minha casa com um embrulho nas mãos.
Deixo a louça sobre a mesa e recebo meus amigos com um abraço.
― Espero que você se dê muito bem na cidade grande, meu irmão!
Pedro pega a louça sobre a mesa.
― Não, Pedro! Visita não lava a louça na minha casa. Larga isso agora!
― Pedro, pode lavar a louça, eu sou a dona da casa e permito que faça isso pelo meu irmão.
A pequena Maria Luiza entra na cozinha com a Margarete debaixo do braço.
― A Margarete jantou, Maria? Você não deveria estar alimentando as galinhas e os patos em vez de se meter em assunto de adulto?
Maria, minha irmãzinha de 8 anos ergue o dedinho para me dar uma bronca.
― Irmão, você já trabalha muito nessa casa, eu cumpri minhas obrigações e agora a Margarete vai comigo para o quarto.
Mariana se aproxima de Maria Luiza.
― Malu, não seria melhor deixar a sua galinha no galinheiro? Não é bom ela dormir no seu quarto, ela pode ficar com saudade da família.
Malu suspira, faz um muxoxo e devolve a galinha para o quintal. Mariana pisca para mim.
― Vem, Malu. Vou te ajudar a se preparar para dormir, já está tarde.
A pequena me olha esperançosa.
― Aceite a ajuda da Mariana, Malu. Preciso conversar com o Pedro.
Os ombros de Maria Luiza caem frouxos e ela segue minha amiga contra a vontade.
Vou atrás do Pedro que está terminando de lavar os pratos.
― Rapaz, você é rápido, hein? ― Vejo o pacote sobre a mesa ― E o que tem de bom neste pacote?
Pedro responde limpando a pia.
― A minha mãe fez um bolo para você levar para a casa nova. Ela disse que dá sorte.
Sinto um nó na garganta. Mas eu sou macho e homem não chora.
― Agradecido, meu amigo. Dê um abraço na tia Aracy por mim. Mas eu sempre voltarei aqui na propriedade para ver como estão as coisas. E te agradeço, meu amigo, por vir administrar enquanto ainda não sei o que fazer com essas terras.
Pedro pendura o pano de prato no ombro.
― Meu amigo, não precisa agradecer. Nós moramos aqui ao lado, ora! Não é trabalho algum alimentar os animais e cuidar das coisas por aqui.
Um aroma quente e forte de café enche o ar.
― Rapaz, inacreditável. Em minutos você já colocou um café pra passar? Acho que vou contratar você como mordomo em vez de te deixar como guarda municipal na cidade.
Pedro ri e passa o café para a garrafa térmica. Pego duas xícaras para saborearmos a bebida quente e reconfortante.
― Pega mais uma xícara, Alexander. Acabei de colocar a Malu para dormir. Ela estava exausta.
Meu peito parece uma porteira escancarada.
― Vocês dois são incríveis. Como vou conseguir viver sem vocês?
Pedro serve as xícaras com o café forte e encorpado. O bule branco de cerâmica decorado com flores e borboletas que pertenceu à minha mãe parece dançar nas mãos do meu amigo.
― Para de drama, Alexander. São apenas duas horas até São Paulo. Dá para a gente tirar um dia e ir te visitar tranquilamente.
Eu quase cuspo o café longe.
― Tirar um dia, nada, homem. Eu vou mandar um motorista buscar vocês para ficarem durante as férias lá em casa. E estamos conversados.
Pedro e Mariana riem.
― Combinado então. E aproveita que agora você é um bilionário e arruma uma namorada e se casa, Alê. E vê se perde a virgindade, que tá muito velho pra isso. ― Mariana dá uma cotovelada no Pedro.
Franzo minhas sobrancelhas para eles.
― Primeiro que eu não sou virgem. Segundo que eu tenho que criar a Malu antes de pensar em casamento. Não vou colocar uma mulher dentro de casa para aborrecer minha irmã.
Mariana recolhe as xícaras.
― Tudo bem que você não seja mais virgem, Alexander ― ela pisca para o Pedro. ― Mas você tem que se casar, já tem trinta anos e a Maria Luiza precisa de exemplo feminino em casa. Ela é moleca demais.
Pego o cortador de unha do bolso e corto as unhas do meu pé. Mariana para na minha frente com as mãos nos quadris.
― E pode guardar esse cortador de unhas nojento, Alexander. Você agora é um bilionário e não deve fazer esse tipo de coisa, ainda mais à mesa.
Fecho o cortador a contragosto.
― Eita, desculpa. Mas vou fazer o quê? Ficar com as unhas dos pés grandes? Arranham na coberta…
A Mariana esfrega o rosto impaciente.
― Ai, Alexander. Pelo jeito, você vai ter dificuldades para arrumar uma esposa, hein?
Me levanto para pegar um copo, essa conversa fiada me dá sede.
― Parem de falar besteiras, vocês dois. Eu não quero arrumar esposa, estou muito bem assim. Vocês sabem que eu só estou indo para a cidade por causa dessa herança que eu recebi do meu tio-avô. Um parente que eu nem sabia que existia.
― Quer dizer que se pudesse você continuaria aqui, Alexander?
Encho o copo de requeijão com a água gelada de uma garrafa pet. Há oito anos, a nossa propriedade era próspera. Vendíamos queijo, leite e manteiga. Meus pais ainda eram vivos e trabalhávamos os três aqui. Mas quando Maria Luiza nasceu, minha irmãzinha temporã, na noite em que voltavam para casa, meus pais sofreram um acidente de carro e ficaram hospitalizados por semanas, até virem a falecer.
Malu foi a única sobrevivente e eu sou como um pai para a minha irmã. Depois disso, nossa propriedade foi de mal a pior, alguns animais morreram, e passamos dificuldades. Mas sempre juntos em nossas terras. Eu e Malu.
Só que há uma semana recebi a visita de um advogado todo documentado dizendo que sou absurdamente rico e amanhã, nós nos mudaremos para a nossa nova casa e tomarei posse das empresas do meu tio.
― E sim, se eu pudesse, continuaria aqui, meus amigos.







