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Capítulo 04 -  A Mulher que Nunca Foi Escolhida

Edward Fitzgerald nunca acreditou em casamento, e muito menos em amor.

Para ele, sentimentos sempre pareceram uma espécie de fraqueza elegante que as pessoas insistiam em romantizar, como se emoções fossem virtudes nobres e não impulsos imprevisíveis capazes de comprometer decisões importantes. 

Na visão de Edward, amor sempre foi tratado como algo grandioso demais para aquilo que realmente era: uma distração cara, instável e perigosamente irracional para alguém que comandava um império como o dele, um homem cuja vida inteira girava em torno de controle, estratégia e poder.

Desde muito jovem, ele havia aprendido a olhar para o mundo através de uma lógica fria, quase matemática, onde tudo precisava fazer sentido, gerar resultados e, acima de tudo, permanecer sob controle.

Emoções, no entanto, nunca obedeciam a essas regras. Emoções criavam vulnerabilidades, expectativas e fraquezas, três coisas que Edward Fitzgerald havia passado a vida inteira evitando.

Arrogante, disciplinado e profundamente consciente da própria posição no mundo, Edward havia construído sua visão de vida sobre uma estrutura mental simples e eficiente: sentimentos eram imprevisíveis, frágeis e, quase sempre, decepcionantes.

Relações baseadas em sentimentos raramente permaneciam estáveis, cedo ou tarde, se transformavam em conflitos silenciosos, expectativas frustradas e promessas que inevitavelmente acabavam quebradas.

Ele já havia visto aquilo acontecer muitas vezes ao seu redor.

Homens inteligentes arruinando carreiras por causa de mulheres. Famílias inteiras sendo destruídas por traições motivadas por paixão. Empresas perdendo milhões por causa de decisões emocionais tomadas em momentos de fraqueza.

Edward nunca teve paciência para esse tipo de caos.

Na visão dele, compromissos emocionais eram frágeis demais para alguém que vivia cercado de decisões milionárias, responsabilidades estratégicas e negociações que determinavam o destino de milhares de pessoas. Um homem que ocupava a posição que ele ocupava não podia se permitir o luxo de errar por causa de sentimentos.

Amor não era apenas inútil. 

Era perigoso.

Compromissos emocionais, na lógica fria que Edward havia desenvolvido ao longo dos anos, eram instáveis demais para um homem que precisava manter controle absoluto sobre tudo ao seu redor. Um deslize emocional podia gerar consequências imprevisíveis e Edward Fitzgerald nunca tolerou imprevisibilidade.

Os contratos, por outro lado, eram diferentes.

Tinham lógica, estrutura, cláusulas claras, prazos definidos e, acima de tudo, consequências bem estabelecidas. Um contrato não dependia de emoções, expectativas ou ilusões românticas. Um contrato era objetivo, racional e direto, exatamente o tipo de acordo que Edward sempre preferiu.

Contratos não se apaixonam, não criam drama, não quebravam o coração de ninguém.

Foi exatamente por isso que, quando finalmente decidiu que iria se casar, Edward não procurou amor, nem paixão, nem qualquer tipo de ligação emocional. Ele não procurou alguém que despertasse sentimentos, nem alguém que pudesse transformar sua vida em uma história romântica digna de novelas ou fantasias sentimentais.

Edward Fitzgerald procurou apenas uma solução.

Uma solução prática, eficiente e perfeitamente alinhada com o tipo de decisões que sempre havia tomado ao longo da vida.

O casamento, para ele, não era um sonho, era uma estratégia. Um movimento calculado dentro de um jogo maior.

E naquela noite, no silêncio elegante de seu apartamento em Manhattan, cercado pelas luzes infinitas da cidade que brilhavam através das janelas enormes do último andar, Edward estava prestes a anunciar essa decisão com a mesma frieza calculada com que costumava conduzir seus negócios, como se estivesse simplesmente comunicando mais uma decisão corporativa em uma sala de reuniões.

Para ele, aquilo era apenas mais um acordo. Mais um movimento estratégico. Mais uma escolha racional dentro de uma vida construída sobre lógica e controle.

O que tornava aquele momento ligeiramente mais delicado era o fato de que a mulher que o ouvia naquele instante, talvez fosse a única pessoa no mundo que realmente acreditava que, algum dia, poderia ser escolhida por ele.

Liliana.

O apartamento de Edward Fitzgerald ocupava quase todo o último andar de um prédio luxuoso em Manhattan.

As janelas enormes revelavam toda a cidade, enquanto o apartamento impecavelmente organizado refletia perfeitamente a personalidade de Edward: elegante, controlado e impenetrável, um lugar onde nada parecia fora do lugar e até o silêncio parecia planejado.

Era um espaço que transmitia poder, frieza e autoridade.

Um lugar que dizia muito sobre o homem que vivia ali.

Naquela noite, porém, o ambiente estava diferente. Havia roupas espalhadas perto da cama, peças de roupa abandonadas no chão de madeira escura, lençóis desalinhados e o ar ainda carregava aquele calor silencioso que permanece no quarto depois de duas pessoas dividirem algo que, embora intenso do ponto de vista físico, nunca foi realmente emocional.

Era o tipo de silêncio que costuma surgir depois do desejo. Um silêncio pesado, preguiçoso e quase íntimo. 

Liliana estava recostada nos travesseiros, os cabelos loiros espalhados pelos ombros enquanto observava Edward com uma atenção silenciosa que parecia misturar curiosidade, expectativa e algo mais profundo que ela própria talvez não estivesse disposta a admitir.

Ele se levantou da cama sem a menor pressa, completamente nu, como se a própria nudez fosse algo tão natural quanto respirar. Não houve qualquer tentativa de se cobrir, nenhum gesto de constrangimento ou modéstia.

Ele simplesmente caminhou pelo quarto daquela forma, como se a presença de Liliana ali não alterasse em nada a forma como ocupava aquele espaço.

A luz suave da cidade atravessava as janelas e desenhava as linhas firmes das costas dele enquanto se afastava da cama, passando a mão pelos cabelos escuros ainda levemente úmidos de suor.

Liliana o conhecia há anos.

Conhecia seus silêncios, seus olhares, a maneira como ele raramente demonstrava qualquer tipo de emoção verdadeira, como se sentimentos fossem algo que simplesmente não fazia parte da estrutura interna de Edward Fitzgerald.

Conhecia também aquela confiança quase arrogante com que ele ocupava qualquer ambiente, como se o mundo inteiro fosse apenas mais um território sob seu controle.

E mesmo assim… continuava ali.

Talvez porque, em algum lugar dentro dela, sempre existiu a esperança silenciosa de que um dia ele olhasse para ela de uma forma diferente.

Edward pegou o copo de whisky que estava sobre a mesa lateral e tomou um gole tranquilo, ainda caminhando pelo quarto sem pressa, completamente alheio ao fato de estar nu.

Liliana o observava em silêncio. O olhar dela era atento, quase analítico, como se estivesse tentando ler algo no comportamento dele.

— Você está quieto — comentou, apoiando o queixo na mão.

Edward tomou mais um gole do whisky antes de responder.

— Estou pensando.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Isso raramente é um bom sinal.

Ele não respondeu imediatamente. Apenas continuou caminhando pelo quarto com a mesma tranquilidade irritante, como se estivesse sozinho ali, completamente indiferente ao olhar dela sobre seu corpo.

Então parou diante da janela e observou as luzes de Manhattan se refletindo no vidro enquanto ele observava a cidade em silêncio.

Liliana se sentou na cama, puxando o cobertor contra o peito e franzindo levemente a testa perguntou:

— Edward?

Ele suspirou de leve. Depois falou, como se estivesse mencionando algo absolutamente trivial.

Vou me casar.

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