Capítulo 4

Os primeiros raios de sol do sábado surgiram por trás das montanhas que delineavam o horizonte alaranjado. Donovan dirigia pelas estradas de terra, longe da rodovia principal recém asfaltada. O progresso estava chegando em passos lentos, e ele preferia se manter dentro das suas próprias regras. Não era sábio cruzar o Texas pela rodovia que era um alvo fácil para todos os tipos de carniceiros.

Donovan não teria problema algum em arriscar a própria vida, mas quando pegava um serviço, ele tinha o senso de responsabilidade de cuidar do cliente. Era a primeira vez que ele ajudava uma dama nova-iorquina, e não precisava usar de inteligência para saber que a mulher tinha uma personalidade forte.

Lentamente, Donovan olhou para o lado. Laura caiu no sono assim que entrou no carro, e dormia com a cabeça recostada no assento de couro preto. Sua respiração regular fazia com que seus seios grandes subissem e descessem em movimentos cadenciados.

Donovan apertou o volante com as mãos suadas para reprimir a vontade de tocar em Laura. Ele também mordeu o lábio inferior com força para não sucumbir à vontade de sugar os lábios carnudos dela. Ele era dono de um grande apetite sexual, e putas não faltavam. Ele não tinha porque estar se sentindo atraído por uma mulher que não seria capaz de satisfazê-lo, dada a sua castidade.

Sim, ela não era uma prostituta igual as que ele estava acostumado. Era muito bonita sem sombra de dúvida, porém, era bem capaz da recatada nova-iorquina cair dura no chão ao ver o que ele tinha entre as pernas.

Donovan riu do próprio pensamento pecaminoso. Seria um pecado seduzir a Senhorita Miller. Mas pensando bem, ele era o próprio pecado. O fora da lei tossiu alto. Laura acordou com uma carranca de ódio.

- É a próxima parada?

- Ainda faltam alguns quilômetros até Kimbell.

- Eu estou com sede.

- Deve ser por causa do tanto de carne de porco que você comeu. A senhorita não deve estar acostumada com carnes gordurosas.

Laura se ajeitou no assento. Tudo o que Donovan falava, era em tom de zombaria como se ela fosse uma pessoa insignificante. Ela respirou fundo e devolveu no mesmo tom sarcástico.

- De fato, eu não estou acostumada a essa vida primitiva. É a primeira vez que eu me sento ao lado de um homem que não toma banho.

Donovan se curvou para cheirar suas axilas. Ele torceu o nariz e virou o rosto para o lado da janela. Entretanto, não conteve o descaso.

- Eu tenho cheiro de macho.

- Isso pode ser atraente aqui no oeste. Em Nova Iorque, diriam que você fede à chiqueiro de porco.

- Poxa, e pensar que aquele porco que te alimentou não foi nem limpo direito, é frustrante.

Laura prendeu a respiração ofegante para não vomitar. Em seguida, ela tentou manter a postura fria.

- Eu estou com sede.

- Cinco quilômetros até Kimbell. Não dê chilique e nem aja como uma mulher mimada. Eu não tenho paciência para isso. Pra mim te largar na estrada é mole.

- Eu duvido que você desista de me roubar. Seus pais não te ensinaram como se deve tratar uma dama?

Laura ganhou um olhar firme que ela sustentou de nariz empinado. Ao olhar para a estrada novamente, Donovan freou bruscamente ao ver a carroça tombada.

Laura voou para frente e para trás. Ela levou a mão na cabeça e Donovan a pegou pelo pulso com força. Ele passou a mão na cabeça dela para ver se não tinha ferimentos. Sua voz suavizou ao perguntar preocupado:

- A senhorita está bem?

Atordoada, Laura assentiu.

- Sim. Solte o meu pulso antes que você o quebre.

Donovan acatou a ordem e saiu do carro soltando uma série de palavrões. Laura massageou o pulso delicado que queimava com o aperto firme do texano. Ela se inclinou para frente para ver o que estava acontecendo.

Seus olhos escuros se arregalaram ao ver a perna de uma mulher debaixo da carroça. Sem esforço, Donovan virou a mesma e acalmou o cavalo preto e magro. Chocada, Laura viu uma mulher que parecia ser índia, com uma barriga de grávida, estirada na estrada de terra. Seu vestido branco estava na altura dos seus joelhos e ela gemia.

Donovan começou uma discussão acalorada com o condutor da carroça, que era um homem branco, baixo e gordo. Laura ficou horrorizada como nenhum dos dois homens socorriam a mulher.

Ela saiu do carro, e ao se aproximar, seu coração errou as batidas. A perna do bebê estava para fora da vagina ensanguentada da índia que estendeu a mão para ela.

- Ajuda.

Laura se inclinou, mas foi puxada para trás. Donovan passou um braço em volta dela e vociferou:

- Não toque nela! Ela está amaldiçoada!

Laura se debateu para se soltar.

- Não seja ridículo! Ela precisa de ajuda!

- Não!

O dono da carroça apertou o chapéu marrom entre as mãos trêmulas.

- Eu estou levando ela para Kimbell para ter o bebê. Por favor, senhor. Eu estava em alta velocidade e a carroça tombou. Eu não consigo colocar ela na carroça. Nos ajude.

Com sangue indígena, Donovan sabia que quando um bebê estava virado, era porque a mãe estava amaldiçoada.

- Ela vai morrer de hemorragia em alguns minutos. Não force esse cavalo nessa viagem desnecessária. O animal ainda pode ser útil.

Laura sentiu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Donovan ainda a tinha em volta do seu braço. Ela virou para ele e implorou.

- Por favor, ajuda ela!

- Não!

- Monstro!

Laura foi arrastada para a Ford. Ela se virou para trás quando Donovan passou pela carroça, levantando uma nuvem de poeira. Laura viu o homem ajoelhado ao lado da mulher que ele não conseguia erguer nos braços. Ele gritou de desespero e ergueu a face para o céu azul e silencioso.

Atordoada, Laura se virou e sentou no banco. Donovan acendeu um cigarro e olhou sério para ela. Ele desdenhou.

- Não me olhe assim.

- Não fale comigo nunca mais.

Lentamente, Donovan deu um trago no cigarro. Ao soltar a fumaça, ele disse com a voz melancólica:

- "Tenho sede." É engraçado, sabe? Quando Jesus estava entre a vida e a morte na cruz, ele disse: "Tenho sede."

Laura sentiu vergonha por ter dito que estava com sede. Por ser incapaz de esperar para tomar água.

Donovan suspirou profundamente.

- Você sabe porque Jesus disse aquilo, Senhorita Miller?

- Não.

- Ele quis dizer que era humano. Ele quis dizer que sabia como nós nos sentimos com os dias longos e difíceis.

- O que isso tem a ver com a sua falta de humanidade?

- A vida é assim, Senhorita Miller. Nós pedimos água, e recebemos uma esponja embebida em vinagre. Quanto antes sair de dentro dessa bolha em que vive, mais fácil será entender que a vida é amarga.

Laura fungou o nariz e secou o rosto na barra do vestido que estava sujo de poeira.

- Independente daquela índia estar condenada à morte, você poderia ao menos tê-la ajudado a morrer com dignidade. Você poderia ter diminuído a dor daquele homem. Pense nisso Donovan, a cruz também é sobre segundas chances, e você acabou de perder duas. Você está amaldiçoado.

Naquele momento, Daniel Donovan teve medo pela primeira vez na vida.

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