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Contrato com o Coração
Contrato com o Coração
Por: Cassia Montenegro
Capítulo 1 — A Proposta

O cheiro de desinfetante do hospital já fazia parte da rotina de Helena.

Ela estava sentada na cadeira dura do corredor havia horas, observando a porta da UTI como se pudesse atravessá-la apenas com a força do pensamento. A mãe sempre fora sua base, sua segurança, sua única família de verdade. Ver aquela mulher forte e sorridente agora frágil em uma cama de hospital era algo que partia seu coração em silêncio.

O médico tinha sido claro: a cirurgia precisava ser feita o quanto antes.

E o valor era alto demais.

Helena trabalhava como atendente durante o dia e fazia faxinas aos finais de semana. Mesmo juntando cada centavo, levaria anos para conseguir aquela quantia.

Anos que sua mãe não tinha.

Ela segurou a mão dela com cuidado.

— Filha… — a mãe murmurou, com a voz fraca. — Não faça nenhuma loucura por mim.

Helena forçou um sorriso que não sentia.

— Eu nunca faria loucura, mãe. Só… soluções.

Mas por dentro, o desespero crescia.

Naquela noite, já em casa, Helena estava revisando contas espalhadas pela pequena mesa da cozinha quando o telefone tocou. O número era desconhecido.

— Alô?

— Senhorita Helena Duarte? — a voz masculina era formal, controlada. — Falo em nome do senhor Lorenzo Albuquerque. Ele gostaria de fazer uma proposta.

Helena franziu a testa.

— Proposta de quê?

— De casamento.

O silêncio tomou conta da cozinha.

Ela quase riu, achando que era uma brincadeira de mau gosto.

— Desculpa, acho que ligou errado.

— Não houve erro. O senhor Lorenzo tem conhecimento da situação financeira da senhora. A proposta envolve uma compensação suficiente para cobrir todas as despesas médicas da sua mãe.

O coração dela disparou.

— Como ele sabe sobre isso?

— O senhor Lorenzo é um homem bem informado.

Dois dias depois, Helena entrou no prédio mais luxuoso que já tinha visto. O elevador espelhado refletia sua imagem simples demais para aquele ambiente sofisticado.

Quando as portas se abriram, ela o viu.

Lorenzo Albuquerque estava de pé diante da janela panorâmica, observando a cidade como se ela fosse parte de sua propriedade. Terno escuro perfeitamente alinhado, postura firme, presença dominante.

Ele virou-se lentamente.

Os olhos escuros analisaram Helena da cabeça aos pés, não com desejo, mas com avaliação.

— Senhorita Duarte.

— Senhor Albuquerque.

Ele indicou a cadeira à frente da mesa de vidro.

— Vou ser direto. Preciso me casar imediatamente para assumir oficialmente a presidência da empresa da minha família. O conselho exige estabilidade na imagem pública.

Helena piscou, tentando acompanhar.

— E por que eu?

— Porque você não pertence ao meu meio social. Não está envolvida com escândalos. E, principalmente… porque precisa de dinheiro.

A franqueza dele a atingiu como um tapa.

— O que exatamente está propondo?

Ele abriu uma pasta elegante e deslizou um documento na direção dela.

— Um contrato de casamento com duração de um ano. Aparência de união estável, participação em eventos sociais, convivência sob o mesmo teto. Em troca, eu pagarei integralmente a cirurgia da sua mãe, despesas hospitalares e depositarei uma quantia considerável em sua conta ao final do contrato.

Helena sentiu o mundo girar.

— E… sentimentos?

Ele sustentou o olhar dela sem piscar.

— Não fazem parte do acordo.

O silêncio entre os dois ficou denso.

Era absurdo. Frio. Calculado.

Mas a imagem da mãe deitada na cama do hospital atravessou seus pensamentos como uma lâmina.

— E depois de um ano?

— Divórcio discreto. Cada um segue sua vida. Sem escândalos.

Helena respirou fundo. Aquilo não era um conto de fadas. Era um negócio.

Um negócio que poderia salvar a única pessoa que ela amava no mundo.

— Por que eu sinto que isso é mais arriscado do que parece? — ela perguntou, quase num sussurro.

Pela primeira vez, algo diferente brilhou nos olhos dele.

— Porque é.

A sinceridade inesperada a desarmou.

Helena olhou novamente para o contrato.

Um ano.

Apenas um ano.

Ela já tinha enfrentado dificuldades piores. Poderia suportar aquilo.

Pegou a caneta com a mão levemente trêmula.

— Se eu aceitar… a cirurgia é paga imediatamente?

— Sim.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— Então eu aceito.

Assinou.

O som da caneta no papel ecoou mais alto do que deveria.

Quando levantou o olhar, Lorenzo a observava de maneira diferente.

Não como uma desconhecida.

Mas como alguém que acabara de entrar oficialmente em sua vida.

— Bem-vinda ao meu mundo, Helena.

E, naquele instante, ela não sabia se tinha acabado de salvar a mãe…

Ou condenado o próprio coração.

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