Mundo de ficçãoIniciar sessão
O cheiro de desinfetante do hospital já fazia parte da rotina de Helena.
Ela estava sentada na cadeira dura do corredor havia horas, observando a porta da UTI como se pudesse atravessá-la apenas com a força do pensamento. A mãe sempre fora sua base, sua segurança, sua única família de verdade. Ver aquela mulher forte e sorridente agora frágil em uma cama de hospital era algo que partia seu coração em silêncio. O médico tinha sido claro: a cirurgia precisava ser feita o quanto antes. E o valor era alto demais. Helena trabalhava como atendente durante o dia e fazia faxinas aos finais de semana. Mesmo juntando cada centavo, levaria anos para conseguir aquela quantia. Anos que sua mãe não tinha. Ela segurou a mão dela com cuidado. — Filha… — a mãe murmurou, com a voz fraca. — Não faça nenhuma loucura por mim. Helena forçou um sorriso que não sentia. — Eu nunca faria loucura, mãe. Só… soluções. Mas por dentro, o desespero crescia. Naquela noite, já em casa, Helena estava revisando contas espalhadas pela pequena mesa da cozinha quando o telefone tocou. O número era desconhecido. — Alô? — Senhorita Helena Duarte? — a voz masculina era formal, controlada. — Falo em nome do senhor Lorenzo Albuquerque. Ele gostaria de fazer uma proposta. Helena franziu a testa. — Proposta de quê? — De casamento. O silêncio tomou conta da cozinha. Ela quase riu, achando que era uma brincadeira de mau gosto. — Desculpa, acho que ligou errado. — Não houve erro. O senhor Lorenzo tem conhecimento da situação financeira da senhora. A proposta envolve uma compensação suficiente para cobrir todas as despesas médicas da sua mãe. O coração dela disparou. — Como ele sabe sobre isso? — O senhor Lorenzo é um homem bem informado. Dois dias depois, Helena entrou no prédio mais luxuoso que já tinha visto. O elevador espelhado refletia sua imagem simples demais para aquele ambiente sofisticado. Quando as portas se abriram, ela o viu. Lorenzo Albuquerque estava de pé diante da janela panorâmica, observando a cidade como se ela fosse parte de sua propriedade. Terno escuro perfeitamente alinhado, postura firme, presença dominante. Ele virou-se lentamente. Os olhos escuros analisaram Helena da cabeça aos pés, não com desejo, mas com avaliação. — Senhorita Duarte. — Senhor Albuquerque. Ele indicou a cadeira à frente da mesa de vidro. — Vou ser direto. Preciso me casar imediatamente para assumir oficialmente a presidência da empresa da minha família. O conselho exige estabilidade na imagem pública. Helena piscou, tentando acompanhar. — E por que eu? — Porque você não pertence ao meu meio social. Não está envolvida com escândalos. E, principalmente… porque precisa de dinheiro. A franqueza dele a atingiu como um tapa. — O que exatamente está propondo? Ele abriu uma pasta elegante e deslizou um documento na direção dela. — Um contrato de casamento com duração de um ano. Aparência de união estável, participação em eventos sociais, convivência sob o mesmo teto. Em troca, eu pagarei integralmente a cirurgia da sua mãe, despesas hospitalares e depositarei uma quantia considerável em sua conta ao final do contrato. Helena sentiu o mundo girar. — E… sentimentos? Ele sustentou o olhar dela sem piscar. — Não fazem parte do acordo. O silêncio entre os dois ficou denso. Era absurdo. Frio. Calculado. Mas a imagem da mãe deitada na cama do hospital atravessou seus pensamentos como uma lâmina. — E depois de um ano? — Divórcio discreto. Cada um segue sua vida. Sem escândalos. Helena respirou fundo. Aquilo não era um conto de fadas. Era um negócio. Um negócio que poderia salvar a única pessoa que ela amava no mundo. — Por que eu sinto que isso é mais arriscado do que parece? — ela perguntou, quase num sussurro. Pela primeira vez, algo diferente brilhou nos olhos dele. — Porque é. A sinceridade inesperada a desarmou. Helena olhou novamente para o contrato. Um ano. Apenas um ano. Ela já tinha enfrentado dificuldades piores. Poderia suportar aquilo. Pegou a caneta com a mão levemente trêmula. — Se eu aceitar… a cirurgia é paga imediatamente? — Sim. Ela fechou os olhos por um segundo. — Então eu aceito. Assinou. O som da caneta no papel ecoou mais alto do que deveria. Quando levantou o olhar, Lorenzo a observava de maneira diferente. Não como uma desconhecida. Mas como alguém que acabara de entrar oficialmente em sua vida. — Bem-vinda ao meu mundo, Helena. E, naquele instante, ela não sabia se tinha acabado de salvar a mãe… Ou condenado o próprio coração.






