Água

Valerius Von Valkis

Mar Egeu, Santorini

— O sol da Grécia tem uma agressividade quase pessoal, você não acha, Valerius? Destrói o colágeno em minutos. É um alívio encontrar um homem que aprecie a civilidade do ar-condicionado.

Bati o gelo contra as paredes do meu copo de cristal, oferecendo a Beatrice o sorriso mais vazio do meu repertório corporativo.

— A civilidade é uma meta constante, Beatrice.

Na verdade, eu estava trancado naquela cabine de luxo com os vidros fumês porque o meio-dia em Santorini era um erro biológico para o meu lado híbrido. Sem o isolamento correto, a luminosidade do Egeu fazia meus olhos sangrarem por dentro e drenava a minha contenção. Eu não estava ali por escolha; estava por pura necessidade de sobrevivência material. Mas o meu verdadeiro problema não era o sol. Era o que acontecia do lado de fora do vidro.

No deque da lancha, sob a claridade estúpida do meio-dia, Julian cercava Thalia.

Ele vinha fazendo aquilo há duas horas. Para um herdeiro de navios cargueiros, Julian tinha o tato de um animal de carga. Ele se inclinava perto demais, invadindo o espaço dela com a segurança ridícula de quem acredita que qualquer mulher contratada por uma agência de serviços tem um preço de etiqueta no pescoço. Thalia estava estática, com os braços cruzados sobre o estômago, o corpo tenso como uma corda de piano prestes a arrebentar.

Quando Julian estendeu a mão e tocou a linha do quadril dela, sob o pretexto de equilibrá-la contra o balanço da lancha, os nós dos meus dedos mofaram ao redor do copo.

O tecido leve da saída de praia dela prendeu no relógio de ouro dele. Um puxão descuidado, um risinho ébrio de Julian, e a alça cedeu, expondo a pele do ombro e o contorno do colo de Thalia antes que ela conseguisse se segurar, os olhos faiscando em puro pânico defensivo.

Dentro do meu peito, a reação não foi um pensamento lógico. Foi um estalo seco. O lobo não apenas arranhou; ele exigiu o sangue daquele sujeito na madeira branca do convés. Meus dentes caninos pressionaram a parte interna da minha bochecha até que o gosto quente e ferroso me fizesse lembrar de onde eu estava.

Controle-se. Se eu cruzasse aquela porta agora e jogasse Julian a dez metros de distância com a força de um soco, a farsa acabaria. Thalia veria o contorno do monstro sob a minha pele. E eu precisava dela inteira, intacta e submissa ao contrato, não aterrorizada por uma aberração.

Eu podia esperar o sol cair. O tempo sempre j**a a favor de quem sabe usá-lo.

Quando o crepúsculo finalmente manchou o céu de Santorini com tons de um roxo doentio, o calor diminuiu. Abri a porta de correr da cabine, ajeitando os punhos da minha camisa de linho escuro. O ar da noite trazia o cheiro de sal e combustível. Thalia estava isolada perto da proa, com o olhar fixo na esteira de espuma, segurando o tecido remendado da roupa. Julian continuava perto do minibar do iate, com as bochechas coradas pelo vinho barato.

— Julian, meu caro — aproximei-me com os passos medidos, a garrafa de um single malt de trinta anos pendendo entre os meus dedos —, percebi que você passou a tarde insistindo em um blend nacional que não faz justiça ao seu sobrenome. Experimente algo com mais estrutura.

Ele virou-se, os olhos ligeiramente desfocados, mas o ego inflou instantaneamente ao ver o rótulo.

— Valerius! Finalmente saiu da toca, homem! — Ele estendeu o copo com a intimidade vulgar de quem acha que o dinheiro nos torna iguais. — Isso sim é bebida de verdade.

— Beba — comandei, servindo uma dose generosa que passou do limite do bom senso. — Um homem com a sua projeção no mercado de transportes não deveria se limitar.

Fiquei ali pelos trinta minutos seguintes, usando o tom pausado e o deboche refinado que os idiotas costumam confundir com admiração. Eu o incentivei a falar sobre suas ações, sobre suas lanchas menores, sobre qualquer bobagem que o fizesse virar o copo para celebrar a própria existência. A cada mentira que ele contava, eu enchia o vidro novamente. Thalia observava a cena de longe, com as sobrancelhas unidas, tentando decifrar por que o homem que quase quebrou a mesa do escritório no dia anterior agora tratava aquele verme como um irmão de sangue. Ela não entendia nada de cortes cirúrgicos.

Por volta das dez da noite, o mar Egeu era apenas uma imensidão preta e sem fundo. Beatrice havia descido para as cabines inferiores para combater o enjoo, e os marinheiros estavam concentrados na navegação da cabine de comando.

Julian, completamente intoxicado pelo malte e pelo próprio orgulho, caminhou cambaleando até a popa para usar o parapeito baixo. O vento cortava rápido, e o barulho dos motores de dois mil cavalos abafava qualquer som num raio de três metros.

Parei logo atrás dele, as mãos recolhidas nos bolsos, observando o modo como ele se inclinava, vulnerável, sobre a água escura.

— É uma profundidade considerável aqui fora — comentei, a voz mansa, quase sumindo no ronco do motor.

— O quê? — ele tentou girar o tronco, a língua pesada.

Não dei tempo para a resposta. Apoiei a palma da mão direita no centro das costas dele — um toque firme, sem pressa, aplicando exatamente a pressão necessária para que a gravidade e o álcool fizessem o resto. Julian sobrou para trás, os sapatos perderam a aderência no piso molhado e ele virou por cima da barra de proteção como um fardo de lona velha.

O splash foi curto, engolido imediatamente pela turbulência da hélice.

Aproximei-me do limite do deque e olhei para baixo. Na escuridão da esteira, vi a silhueta dele subir uma única vez, os braços batendo na água de forma desordenada antes que a velocidade da lancha o deixasse quilômetros para trás, um ponto insignificante no meio do nada.

Uma satisfação genuína, quase infantil, subiu pela minha garganta. Soltei uma risada curta, o som misturando-se ao vento. Havia uma beleza muito limpa em como o oceano resolvia problemas logísticos sem deixar rastros ou relatórios de danos. Limpei as palmas das mãos na calça com um movimento leve, ajeitei o colarinho e caminhei de volta para a luz da cabine, sentindo-me consideravelmente mais leve do que quando a viagem começara.

Levou vinte e cinco minutos para que Beatrice subisse as escadas, segurando um casaco de pele e olhando ao redor com os olhos semicerrados.

— Valerius? Você viu o Julian? O telefone dele está tocando na mesa e ele não responde.

Assumi imediatamente a fisionomia neutra de um homem de negócios diante de um contratempo menor.

— Ele mencionou algo sobre tomar um ar na popa há algum tempo, Beatrice. Vou verificar com a tripulação.

O pânico que se seguiu foi quase uma comédia de erros. Beatrice começou a gritar numa frequência que agredia a minha audição sobrenatural, os marinheiros acionaram os holofotes de alta potência que cortavam o mar escuro sem encontrar nada além de ondas, e o capitão fez uma curva fechada, tentando refazer uma rota que já estava perdida.

No meio da correria, dos gritos de Beatrice e das ordens confusas do capitão, senti a pressão de um par de olhos focado na minha nuca.

Virei-me devagar, apoiando-me no balcão do bar com uma tranquilidade insolente.

Thalia estava parada junto à escotilha. Ela não olhava para o mar em busca do homem que sumira, e não havia um pingo de desespero nas suas feições. Ela estava me medindo. Ela percebeu o alinhamento relaxado dos meus ombros, o fato de que eu havia acabado de acender um charuto com as mãos perfeitamente firmes e, principalmente, o vestígio de um sorriso que eu simplesmente não tinha interesse em apagar do rosto.

Para alguém que supostamente acabara de perder um conhecido da alta sociedade no meio do oceano, eu parecia um homem que acabara de ganhar na loteria.

Sustentei o olhar dela enquanto a fumaça do tabaco subia entre nós. Ela sabia. E o fato de que ela não podia provar nada aos humanos ao redor tornava aquela farsa deliciosamente perfeita.

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