Capítulo 2

Narrado por Rafael Costa Valente

— Sua mãe está aqui, chefe. Pode recebê-la? — Meu assistente avisa depois de bater na porta e abrir levemente.

Chefe... Não gosto muito de ser chamado assim, me sinto um gangster de quinta categoria. Mas é como um daqueles apelidos que parece pegar mais só por não gostar dele, então deixei de lado. Nem ameaça de demissão resolveu. Quando me dei conta todos os meus funcionários me chamavam assim, como se realmente “chefe” fosse o meu título.

A senhora Costa Valente está aqui. Minha mãe raramente costuma frequentar a empresa onde meu pai perdeu sua vida trabalhando. Depois de chegar ao topo, ele descobriu várias fraudes de funcionários de alto cargo. O baque foi tão grande que infartou durante o expediente, enquanto sua mulher o esperava para um jantar em família. Poderíamos ter perdido tudo. E quase perdemos. Mas os desgraçados não tinham ideia que o filho playboy de Roberto Costa Valente surgiria como um vilão vingador que tiraria tudo deles, até os últimos centavos.

Sorrio com a lembrança de ver cada um caindo e respondo:

— Nem precisa anunciar, Kevin. Ela é a dona da porra toda.

Ele sorri e vai buscar a rainha da família Costa.

Não quero ouvir minha mãe cobrar casamento e um neto mais uma vez. Além disso, tenho vários assuntos para resolver na empresa. Mas para ela vir até aqui deve estar desesperada. Quem sou eu para dizer não à senhora Isabela Costa Valente? Se eu fizer isso vou encarrar mais drama do que posso suportar. Ela se formou na faculdade novela mexicana. Não perde uma.

Afrouxo a gravata, me preparando.

— Meu querido! — ela entra com um largo sorriso.

Levanto da minha cadeira e dou a volta na mesa para chegar até ela e abraçar.

— A que devo esse prazer da visita? Sentiu saudades? — Seguro a senhora elegante em meus braços.

Ela não chega a ser baixinha, mas se torna diante dos meus 1,96. O quesito altura herdei do meu pai. Passo uma mão em seu cabelo com cuidado para não bagunçar as ondas de mechas bem cuidadas. Acho que nunca vi um fio de cabelo branco em minha mãe, ela sempre os mantem em castanho claro.

— Estou sempre com saudades do meu filho único que ainda não me deu nem o netinho que sempre sonhei, nem a nora que pedi a Deus.

Quanto drama!

— Mamãe... — Ela levanta a mão, me interrompendo. E se afasta um pouco para levantar os olhos em direção ao meu rosto.      

— Mas não é sobre isso que vim falar. Preciso da sua ajuda para resolver algumas coisas no cartório. E antes que me pergunte por que não uso meu secretário, já digo que prefiro meu filho que passa mais tempo nessa sala que cuidando da única mãe que tem.

Olha ai o drama novamente.

Sorrio. Já me acostumei, afinal fui criado por essa dramática que tanto amo. Mas também herdei a personalidade do meu pai que se resume a zero drama e total praticidade. Os dois eram a ilustração da frase os opostos se atraem.

— Estou à sua disposição. A senhora já almoçou? Podemos ir ao seu restaurante favorito depois de resolver suas coisas.

— Acho isso perfeito. — Seu sorriso aumenta e ela aperta o abraço o quanto pode, antes de se afastar. — Vamos?!

*

— Não acredito que a senhora pretendia me casar à força! — exclamo indignado ao descobrir que a intenção dela no cartório é me casar com Laura Santos.

— Rafael Costa Valente! Se você não se casar hoje, eu vou desaparecer desse mundo. Vou encontrar seu pai.

— Deixa de drama, Dona Isabela.

— Não se trata de drama. Eu estou velha. Se eu for esperar a sua boa vontade nem terei forças para brincar com meu neto.

— Mãe, a senhora já tem um neto.

— Um rapaz que eu conheci depois dos dezesseis anos, que foi muito malcriado pela mãe. Se não fosse pelo exame de DNA feito cinco vez em lugares diferentes eu nem acreditaria que é meu neto. — Ela nega com a cabeça. — Não é isso que quero. Meu desejo é acompanhar o crescimento do meu neto, passar valores estar presente desde o nascimento.

Reviro os olhos com o discurso de sempre. Ela ainda continua falando, mas eu não escuto, afinal já conheço esse discurso. Meu filho Lucas nasceu de um breve relacionamento quando eu ainda estava no ensino médio. A mãe dele o escondeu por anos. Segundo ela, foi uma vingança por eu a ter traído. Eu não a amava naquela época, nem amo agora, por isso de mim ela só consegue dinheiro.

— Eu preciso fazer uma ligação. — Interrompo o discurso da minha mãe.

Ela me olha desconfiada.

— Se você fugir, vai me encontrar no hospital. Só de pensar que não vai ser casar, meu coração já começa a palpitar.

Meu plano era realmente fugir.

— Eu volto, Dona Isabela dramática.

Sem saber como fugir dessa enrascada, me afasto da minha mãe. Fujo para fora do cartório, onde ela pretende me casar com uma das chatas do seleto grupo de conhecidos da família Costa; Laura Santos.

Mal saio do lugar e esbarro em alguém, mas nem reparo em quem. Encaro a pessoa sem realmente ver. Dona Isabela ficaria puta com minha falta de educação, mas tudo que quero agora é uma forma de sair dessa cilada.

Busco na minha agenda alguém que possa me livrar, enquanto isso escuto a confusão da pessoa que derrubei. Uma parte da conversa me chama a atenção. Como assim? A mulher quer pagar cem mil para o homem casar com ela? Além disso, ela explica que é um casamento por contrato. Isso é interessante.

Quando o homem recusa e pede mais, desvio o olhar para a mulher, que na verdade é só uma garota, nem deve ter vinte anos. Está com uma roupa surrada de uso e cabelo em rabo de cavalo, mas não deixa de ser a mulher mais linda que já vi, quando dou mais atenção. Seus olhos são de um verde sombrio, como uma floresta escura. É lindamente raro, mesmo com a tristeza que estampa, as lágrimas contidas faz brilhar ainda mais.

Acho o cara um idiota por simplesmente ir embora. Ele deve estar confiante do desespero dela, que vai acabar aceitando o novo valor. A mulher realmente está desesperada. Posso ver pela forma como ela parece derrotada olhando para o céu, completamente sem esperança. Isso me faz ter uma ideia.

— O que vou fazer agora? — Ouço seu murmuro.

Aproveito a deixa e coloco meu plano em ação.

— Eu me caso com você por cem mil — respondo sua pergunta feita aos céus.

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