Mundo de ficçãoIniciar sessãoBelinda
O carro de aplicativo encosta junto ao meio-fio, e o freio solta um chiado longo. Ergo os olhos pela janela: a torre de vidro escuro parece não ter fim, com pelo menos trinta andares.
Ao pisar na calçada, fecho o sobretudo preto sobre o peito. Cruzo os braços bem apertados, conferindo se nenhum pedaço de cetim ou renda da fantasia de coelha escapa da proteção do tecido pesado.
Lauren salta pelo outro lado. O sobretudo dela, identicamente escuro, balança aberto a cada passo largo, ostentando o decote do espartilho.
— Tá animada? — O sorriso de Lauren nem estremece enquanto ela marcha em direção às portas de vidro do edifício. — Vou passar a cartilha de sobrevivência mais uma vez.
Assinto, sentindo o jantar revirar no estômago. Ajusto o arquinho na cabeça, testando a firmeza das orelhas aveludadas, já me perguntando em que momento da minha vida achei que aceitar essa loucura seria uma boa ideia.
— Ótimo. Ponto um: ficar nervosa é normal, mas é só uma apresentação de dança. Se a barra pesar ou você travar, não faz absolutamente nada que não queira. — Ela nem desacelera o passo. — Ponto dois: bebidas, só se você vir o lacre ser rompido na sua frente, ou se o sujeito der um gole na garrafa compartilhada antes de passar para você.
Vou assentindo, gravando cada palavra como se minha vida dependesse disso.
— E ponto três, o mais importante: se diverte. Quer dar uns beijos? Manda ver. Só não se ilude. Nenhum desses caras sabe o nome de ninguém no dia seguinte.
Minha mão aperta com mais força o tecido do casaco. Achar o amor da minha vida numa despedida de solteiro? Definitivamente, não é por isso que estou aqui.
As portas automáticas deslizam com um silvo suave, nos engolindo para dentro do saguão. O ar-condicionado traz um cheiro de orquídeas e cera de piso premium. Vasos gigantescos de porcelana azul guardam arranjos imponentes de folhagens e pétalas brancas.
Em um dos sofás de couro, quatro garotas parecem saídas de uma revista. Os arcos de orelhas rosas no topo de suas cabeças as entregam imediatamente.
Ao nos verem, elas se levantam em um único movimento fluido.
— Até que enfim! — sussurra uma delas.
O grupo envolve Lauren em um turbilhão de risadinhas abafadas.
— Meninas, essa é a Belinda — Lauren nos apresenta em tom baixo. — Ela tá no time hoje.
Recebo uma sequência de beijos calorosos nas bochechas, sentindo a energia elétrica daquelas garotas do estúdio de pole dance.
— Shhhhhh! — Um ruído seco faz eco no saguão.
O recepcionista, atrás de uma bancada de mármore, nem se dá ao trabalho de desencostar os punhos da mesa. O cabelo, impecavelmente engomado em gel, brilha sob os lustres. Ele passa os olhos por nossas pernas e pelos detalhes que escapavam dos casacos, a boca contorcida em uma careta.
— Isso aqui é um edifício residencial de alto padrão, não um corredor de camarim. Vou pedir para se retirarem. — Ele solta um pigarreio seco, ajeitando a gola da camisa. — Não vou repetir.
Lauren dá dois passos à frente, apoia uma das mãos na cintura e inclina o corpo sobre o balcão.
— Dá uma olhadinha na lista, amorzinho. Cobertura. Despedida de solteiro do Sr. Tadelle.
O homem solta o ar pelo nariz, os dedos voando com irritação sobre o teclado. Ele encara a tela, torce os lábios e volta a olhar para Lauren. É o momento exato em que ela puxa o arquinho de orelhas gigantes cobertas de glitter rosa e o encaixa perfeitamente sobre os cabelos, encarando-o sem piscar.
O silêncio no saguão dura três segundos. Com um suspiro derrotado de quem odeia o salário que recebe, o recepcionista pega um cartão de acesso prateado.
— Elevador privativo à esquerda — murmura, fazendo o cartão deslizar pelo mármore sem olhar nos olhos dela. — Vai direto.
— Um doce de pessoa, fofo — Lauren pisca, recolhendo o cartão e fazendo um sinal com a cabeça para o bando.
O elevador social é grande, mas o ar ali dentro rapidamente fica saturado pela mistura de seis perfumes femininos adocicados. A cada número que acende no painel digital meu peito encolhe.
12... 18... 24...
Minhas mãos trêmulas alisam as lapelas do sobretudo, tentando desesperadamente fixar minha mente no único motivo de eu estar aqui: um antídoto rápido, bruto e inconsequente contra aquele maldito convite de casamento com letras douradas que ainda queima no balcão da minha cozinha.
As portas metálicas se abrem suavemente, revelando a entrada da cobertura.
O som pesado de um beat de música eletrônica abafa as batidas descompassadas do meu coração. Em seguida vem o cheiro de charuto caro e uísque encorpado. A iluminação indireta em tons de azul e roxo corta a sala ampla, que se abre para um terraço com piscina de borda infinita e uma vista panorâmica da cidade iluminada.
Quando nosso grupo dá o primeiro passo para fora do elevador, a atenção de dezenas de homens espalhados pelos sofás e pelo bar se volta para a porta.
Um deles, vestindo uma camisa social branca com os primeiros botões abertos, ergue uma taça reluzente no ar.
— Elas chegaram, porra! — ele berra, fazendo o som ecoar pelo teto alto.
Em questão de segundos, a sala inteira explode. Mais de uma dúzia de homens bem-vestidos acompanham o gesto, erguendo seus copos de cristal, soltando assovios altos e aplaudindo em comemoração à nossa chegada.
Ao meu lado, Lauren e as garotas soltam gargalhadas. Em um movimento ensaiado, jogam os sobretudos para trás.
Eu, por outro lado, travo no lugar, sentindo o sangue subir para as bochechas sob o olhar atento de cada um daqueles herdeiros e empresários.







