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5. Aceita ser meu falso namorado?

Belinda

— Foi aqui que contrataram as coelhas? — Lauren solta uma risada, já deslizando até a barra de pole dance.

Ela faz aquilo parecer fácil. Cada curvatura de corpo arranca um coro de assovios e copos erguidos. Em seguida, as outras garotas assumem o centro do salão. Fico no fundo, balançando os quadris de um jeito desengonçado.

— A coelhinha tímida não dança? — uma voz masculina ecoa.

Sinto o calor subir direto para o pescoço. Apenas forço os lábios em um sorriso.

Quando a música termina, o pedido por bis vem em palmas ritmadas. Nesse exato momento, não sei se sou a caça ou a caçadora aqui. Olhos afiados vasculham as costuras do meu figurino justo. Sorrisos maliciosos brilham nos cantos da sala quando Lauren se curva para a plateia.

— Agora, meninos, se comportem direitinho que a gente fica mais um pouco — anuncia ela.

A cobertura vem abaixo em aplausos. As meninas se espalham pelo recinto, cada uma encontrando um grupo para conversar. Lauren se aproxima do meu ouvido, e dá três tapinhas no meu ombro.

— Você foi ótima, amiga! Agora relaxa. Pede um carro pelo aplicativo quando cansar, tá tudo debitado no cartão do noivo.

Ela pisca e segue na direção de um homem bonitão que b**e no estofado de veludo ao seu lado, convidando-a para o sofá.

Tento me esquivar da multidão em direção ao bar com vista panorâmica da cidade, mas preciso me desvencilhar de pelo menos três caras pelo caminho. Nada daquela iluminação neon ou da música alta consegue apagar a memória do rosto do Gustavo... ou do sorriso da Angélica.

Paro diante do balcão. O bartender, um garoto de vinte e pouco anos, encara as luzes completamente alheio a mim.

— Oi! Você tem água lacrada? — preciso projetar a voz por cima do grave.

Ele nem pisca. Quando me projeto para frente para tentar de novo, um homem à minha esquerda debruça-se sobre o balcão. Ele tem a barba bem feita, um vinco sério entre as sobrancelhas e veste um terno que deve custar mais do que meu aluguel do ano inteiro.

— Amigo. Uma água fechada, por favor — diz ele.

O rapaz pisca, vira-se rápido e pega uma garrafa no freezer.

O homem pega a água e a desliza pelo balcão até parar em frente às minhas mãos, sem deixar de encarar o fundo do seu próprio copo.

— Obrigada — murmuro, subindo no banco alto de veludo preto.

Ele leva o uísque aos lábios. O gelo estala no vidro.

— Então você é a coelha triste de quem os caras estavam falando?

— Devo ser a própria — solto o ar pelo nariz.

— Tristeza gosta de companhia.

— Entendi. Você é o empresário num evento privado cheio de garotas contratadas e resolveu ficar de luto — ironizo, ajustando as orelhas de pelúcia que teimam em cair sobre meus olhos.

Um riso curto e sem humor escapa pelos lábios dele.

Touché.

Ele ergue o indicador para o bartender e me mede de canto de olho.

— Uísque?

— Eu tenho cara de quem toma uísque purinho?

Ele inclina a cabeça, varrendo meu espartilho amassado antes de pousar o olhar nos meus olhos.

— Eu não faço a menor ideia de quem você é. A única certeza é que está vestida de coelho e parece querer sumir deste andar.

— Nunca tomei — dou de ombros.

O bartender coloca um copo baixo à minha frente e o homem o empurra devagar. Hesito, encarando o líquido dourado.

— Quer que eu teste antes pra provar que não tem veneno? — provoca. Ele pega meu copo, toma um gole pequeno e coloca-o de volta exatamente no mesmo lugar.

Uma risada nervosa escapa da minha garganta. Afinal, o que eu tenho a perder? Encosto o vidro nos lábios e tomo a bebida. O líquido desce arranhando, deixando um rastro de fogo no peito e fazendo meus olhos lacrimejarem na hora.

O homem me observa com curiosidade.

— Olha só, o Pablo arrumou assunto com a coelha triste! — Um cara de gravata frouxa e bochechas coradas surge do nada, apoiando-se no meu ombro com um peso excessivo. — O que foi, coelhinha? Morreu alguém?

Dou mais um gole.

— Quer saber mesmo? Minha irmã engravidou do meu ex-quase-noivo, deu a notícia no meio do nosso jantar de noivado pra todo mundo ouvir, me despejou da vida de todo mundo e, pra fechar com chave de ouro, me mandou um convite pra ir ao casamento deles em Noronha. Sendo que eu não tenho dinheiro nem para a resistência do meu chuveiro. E esse figurino? Era pra ser uma piada pra me fazer esquecer a humilhação, mas vocês são um bando de...

— Cacete — o cara dá um passo atrás, erguendo as mãos em rendição. — Esquece que eu perguntei. Você tem toda a razão de estar com essa cara.

Pablo lança um olhar cortante ao amigo, que se afasta tropeçando nos próprios pés. Em seguida, volta a atenção para mim, examinando a rigidez dos meus ombros.

— Isso tudo é verdade?

Encaro o tom amendoado dos olhos dele, sustentando o olhar.

— Eu teria inventado algo bem melhor.

— Seus parentes são uns lixos. Sinto muito.

Três copos depois, o teto da cobertura parece oscilar em ondas leves. Pablo continua ao meu lado.

— E a ridícula da Angélica... — a língua pesa na minha boca, travando nas sílabas. — Ela me mandou o convite só pra me humilhar de novo. Ridícula. Essa palavra é engraçada, né? Ri-dí-cu-la.

Pablo vira o corpo inteiro na minha direção, os braços cruzados sobre o balcão, compenetrado.

— Você devia ir comigo — gesticulo no ar, quase derrubando o copo. — Vai como meu namorado milionário? Você é bonito. Ia ser tão bom ver a cara daquela...

— Eu topo.

Pisco rápido, tentando focar a imagem dele.

— O quê? — Deixo escapar uma gargalhada soluçada. — É em Noronha, sabia? Tem que pegar avião, barquinho... É uma ilha!

Levanto o copo vazio para o teto.

— A Angélica vai casar numa ilha! — grito para o nada.

Lauren surge no meu campo de visão, soltando um suspiro exasperado e revirando os olhos com carinho.

 — Já deu a sua hora por hoje, né, coelha trágica? — Ela sorri de canto para Pablo e me segura pelo cotovelo. — Seu carro chegou.

Antes que eu dê o primeiro passo em falso, a mão de Pablo envolve meu pulso. O toque é firme, mas sem apertar.

— Espera — ele tira o celular do bolso e estende o aparelho. — Digita seu número aqui.

Tento focar na tela, mas os números parecem dançar. Pablo solta um arzinho pelo nariz, percebendo meu estado, e direciona o olhar para Lauren.

— Você tem o contato dela?

Lauren dá uma risada baixa, pega o celular da mão dele e começa a digitar rapidamente.

— Prontinho, chefe. Agora deixa eu levar essa coelha bêbada antes que ela tente alugar um helicóptero.

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