Mundo ficciónIniciar sesiónO domingo à noite havia transformado a grande arena em um verdadeiro epicentro de caos e glamour. Era a noite de uma das maiores premiações da indústria do entretenimento, e o clima do lado de fora do tapete vermelho era quase elétrico, sufocante de tanta energia. O ar noturno, que deveria ser fresco, parecia aquecido pelo calor humano de milhares de fãs espremidos contra as grades de proteção, gritando em um coro ensurdecedor por um único segundo de atenção, um autógrafo amassado em um pedaço de papel ou uma foto borrada de celular.
O cenário era uma mistura vibrante e desordenada de todas as vertentes da cultura pop mundial. Atores de Hollywood desciam de limusines pretas blindadas, ajeitando seus ternos milimetricamente cortados; ídolos do K-pop cruzavam o espaço em perfeita sincronia visual, cercados por equipes de segurança que mal davam conta de conter a histeria da multidão; bandas de rock clássico, com suas jaquetas de couro gastas, misturavam-se a artistas conceituais e às maiores supermodelos do planeta. Todos, sem exceção, exibiam fachadas impecáveis, sorrisos ensaiados e posturas que desafiavam o cansaço. Entre eles, misturando-se como sombras ágeis na penumbra, dezenas de paparazzi e repórteres de tabloides se acotovelavam, empurrando lentes telescópicas e microfones em riste, caçando desesperadamente a melhor fotografia, o ângulo mais cru, a expressão que renderia a manchete mais escandalosa da manhã seguinte. Os flashes disparavam em uma frequência tão alta que criavam uma luz branca e contínua, cegando qualquer um que ousasse olhar diretamente para a barreira de fotógrafos. [Pv: HAILA KLUMERT] Eu já cruzei tantos tapetes vermelhos na minha vida que o disparo dos flashes deveria parecer apenas ruído de fundo, mas naquela noite de domingo, a atmosfera parecia especialmente densa. O calor sob as luzes dos refletores era quase palpável, colando a maquiagem na pele e exigindo de mim cada gota do autocontrole que levei anos para construir em Hamburgo. Diante do mundo, eu era a imagem viva da perfeição inabalável. Eu sabia exatamente como me mover, como inclinar a cabeça e como congelar o sorriso para que as lentes capturassem o meu melhor ângulo. Para aquela premiação, escolhi um vestido tomara que caia que andava na linha tênue entre a alta-costura e a pura provocação. O tecido era de um branco profundo, quase cinza dependendo de como a luz o atingia, completamente recoberto por microcristais que brilhavam como poeira estelar a cada passo que eu dava. O grande destaque era a racha vertiginosa, que subia do meu pé esquerdo e avançava até acima da linha da cintura, revelando a pele com uma ousadia calculada. Nos pés, o salto agulha de um Louboutin branco contrastava com o clássico solado vermelho a cada movimento do tecido. Em volta dos meus braços, uma estola de pele felpuda trazia um ar de diva da antiga Hollywood, mas o verdadeiro toque de mistério estava no meu pescoço: um colar de diamantes pesados, moldado no formato de uma cobra texturizada que parecia morder a própria cauda — uma ouroboros de puro brilho. Eu me sentia belíssima, poderosa e dona do meu espaço. Mas por trás dos olhos semicerrados para as câmeras, minha mente travava uma batalha interna para manter a compostura. Eu não estava apenas enfrentando o calor e a exaustão física daquela noite; eu estava enfrentando os abutres da imprensa. Assim que parei na primeira cabine de entrevistas, os microfones foram estendidos em minha direção como armas prontas para disparar. Eles não queriam saber sobre o meu vestido, sobre os estilistas ou sobre as minhas próximas campanhas. O interesse deles era carnívoro, focado na ferida mais exposta da minha vida pessoal na época: o meu divórcio recente e conturbado com o meu ex-marido, Armand Lamack. — Haila! Haila, aqui! É verdade que as desavenças entre você e Armand chegaram ao ponto de agressão verbal? — Haila, o que você tem a dizer sobre os rumores de traição por parte dele com modelos mais jovens da sua própria agência? — Os tabloides afirmam que o Armand tem sido um pai completamente ausente para os seus filhos desde a separação. Você pretende entrar com um pedido de guarda unilateral? As perguntas vinham em rajadas, uma em cima da outra, testando o meu limite. Falar sobre o Armand era pisar em um terreno minado. As lembranças das traições dele com garotas que estavam começando na indústria, o peso de carregar a responsabilidade dos meus dois filhos praticamente sozinha enquanto ele desaparecia por semanas, e toda a dor de ver uma família se desfazer sob o julgamento público eram assuntos delicados demais. Assuntos que eu guardava trancados no meu peito, sangrando em silêncio para proteger as crianças. Apertei a estola de pele com um pouco mais de força ao redor dos meus braços, sentindo o suor frio brotar na base da minha nuca. Meu peito subiu e desceu sob o espartilho do vestido branco. Eu precisava respirar. Precisava manter a parede erguida, manter o sorriso de gelo e sair dali antes que uma única lágrima ousasse borrar a minha máscara de supermodelo impecável. No meio daquele bombardeio de perguntas sobre o meu divórcio e o Armand, achei que a pressão dos repórteres não pudesse piorar. Eu estava errada. De repente, o ambiente ao redor sofreu uma mutação drástica. O barulho, que já era ensurdecedor, foi engolido por um estrondo magnético que parecia fazer o chão de concreto vibrar. Não eram apenas gritos; era uma histeria coletiva, um coro de milhares de vozes femininas que choravam, imploravam e pareciam desabar nas grades de proteção. Olhei de relance, genuinamente admirada com o poder daquela reação. O efeito foi imediato: os repórteres e fotógrafos que há poucos segundos me cercavam, clamando pelo meu nome e tentando arrancar lágrimas sobre a minha vida pessoal, simplesmente me viraram as costas. Eu fui esquecida em um piscar de olhos. Toda a massa de lentes e microfones correu na direção oposta, orbitando os novos deuses que acabavam de pisar no tapete vermelho. Eles haviam chegado. Os integrantes da Midnight Empire. Eu reconheci cada um deles instantaneamente. Afinal, fazia algum tempo que eu vinha acompanhando os passos da banda em segredo. Eles eram um fenômeno absoluto, quebrando recordes e arrastando multidões por onde passavam. Eu sentia uma ponta de lamentação por nunca ter ido a um show deles. Sendo quem eu sou, andar em público já é um desafio logístico; misturar-me àquela maré humana em uma arena lotada, sob a energia caótica que eles emanavam no palco, seria uma exposição perigosa e impossível para uma mulher com a minha carreira. Assistindo à entrada deles, não pude deixar de pensar no quanto eram jovens. Havia uma audácia juvenil neles, mas a maior peculiaridade da banda — aquilo que eu acreditava ser o verdadeiro ímã de atenção do mundo — era o mistério magnético dos irmãos Klausen. Thomas e Will. Eles eram fascinantes. Pareciam gêmeos monozigóticos perfeitos, cópias idênticas esculpidas na mesma rocha, mas dotados de uma dualidade hipnotizante. A começar pelos olhos. Thomas, o guitarrista e o mais velho por meros dez meses, carregava um olhar castanho-escuro, profundo e quase impenetrável. Will, o vocalista, exibia um par de olhos azuis intensos, que pareciam brilhar em meio à produção. O contraste visual entre os dois dezenove anos era uma obra de arte. Thomas adotava uma estética de rock mais madura, um visual adulto e cru: os cabelos longos e desalinhados, camisas básicas ligeiramente abertas e uma jaqueta de couro gasta. Ele era nitidamente mais encorpado, exibindo ombros largos e braços musculosos que combinavam com sua postura marenta e fechada. Will era o oposto complementar. Ele personificava o black fashion, uma alta-costura sombria com alfaiataria desconstruída, tecidos texturizados e unhas pintadas. Enquanto o vocalista transmitia uma aura mais dócil, quase teatral e fluida, o guitarrista exalava uma masculinidade rústica e intimidadora. Logo atrás deles, os outros dois integrantes seguiam com uma postura bem mais contida, servindo de base para o caos dos Klausen. Gus Richter, o baterista de vinte anos, era o retrato da calmaria; quase não falava, movendo-se com uma serenidade que contrastava com a força que usava nas baquetas. E Gregor Falkner, o baixista de vinte e um anos, o mais velho do grupo, tinha traços que lembravam o estilo de Thomas, mas com uma seriedade muito mais reservada e imponente. Eles eram únicos. Aquela combinação de beleza, talento cru e excentricidade justificava por que o mundo estava aos seus pés. “Estou olhando há muito mais tempo do que deveria”, repreendi-me mentalmente, percebendo que meus olhos estavam fixos na silhueta de Thomas. Tentei me justificar sob o pretexto de que minha filha mais velha era completamente apaixonada pelas músicas deles — e eu, bem, eu também não podia negar que o som deles tinha me pego de jeito. Forcei meus pés a se moverem e finalmente entrei no prédio principal da premiação. Lá dentro, o abafamento e a atmosfera caótica do tapete vermelho pareceram diminuir, dando lugar ao protocolo requintado do evento. Como todos já esperavam, a Midnight Empire foi o grande destaque da noite. Eles limparam a mesa, levando quase todos os prêmios musicais principais para os quais foram indicados. No telão, dava para ver que a consagração daqueles garotos de dezenove anos não foi do agrado de alguns veteranos da indústria, que ostentavam sorrisos amarelos na plateia, engolindo o orgulho diante do triunfo inevitável do rock veldriano. A noite se arrastou. Fiquei um pouco mais do que o planejado, conversei com alguns estilistas, mantive as aparências sociais e decidi que era hora de ir embora. Meus filhos me esperavam. Ao me aproximar das grandes portas de vidro da saída privativa, o destino resolveu brincar com o meu autocontrolamento. O grupo da banda vinha caminhando na direção oposta, rindo alto com os troféus em mãos. Em uma fração de segundo de distração, acabei esbarrando diretamente em Will. — Oh, me desculpe! — Will reagiu imediatamente, segurando meu braço com leveza para garantir que eu não me desequilibrasse. Ele abriu um sorriso imenso, exalando uma simpatia genuína e uma doçura que confirmavam a minha impressão à distância. Os outros integrantes murmuraram desculpas educadas, e eu comecei a formular uma resposta polida para encerrar o momento. Foi então que o ar sumiu dos meus pulmões. Um arrepio violento e elétrico subiu pela minha espinha, eriçando cada pelo do meu corpo antes mesmo que eu pudesse entender o motivo. Movi o rosto ligeiramente para o lado e encontrei os olhos de Thomas Klausen. Ele estava parado a menos de um metro de mim. E não piscava. Seus olhos castanhos, escuros como uma noite sem lua, estavam cravados no meu rosto com uma intensidade tão avassaladora que o barulho do saguão simplesmente desapareceu. O olhar dele não era o de um fã admirando uma modelo; era o olhar de um predador que havia acabado de encurralar exatamente o que queria. Thomas desceu os olhos devagar pelo meu pescoço, detendo-se no colar de cobra, e seguiu pela linha do espartilho branco, mapeando a racha do meu vestido até os meus pés, para depois subir de volta, com uma lentidão que fez meu sangue queimar sob a pele. Eu me senti nua. Completamente exposta, despida de qualquer pose de supermodelo bem-sucedida de trinta anos. Como era possível que um rapaz de dezenove anos tivesse um olhar tão carregado de segundas intenções, tão denso e puramente sensual? Eu era uma mulher alta, acostumada a olhar a maioria das pessoas de cima, mas Thomas era muito mais alto. Ele se inclinou sutilmente na minha direção, projetando sua silhueta musculosa sobre a minha, obrigando-me a erguer o queixo para sustentar o contato visual. Ele continuava sem piscar, absorvendo cada detalhe da minha boca, da minha respiração acelerada, do tremor quase imperceptível das minhas mãos sob a estola de pele. Minhas bochechas arderam em um calor súbito. Senti uma vergonha absurda, misturada a um desejo sufocante que eu mal conseguia processar. Minha única salvação foi quebrar o feitiço. — Sem problemas... Parabéns pelos prêmios, meninos — gaguejei sutilmente, odiando a mim mesma por perder a voz, e me despedi com um aceno rápido. Passei por eles quase correndo. Mesmo de costas, eu ainda conseguia sentir o peso dos olhos de Thomas cravados na minha nuca, me perseguindo até a calçada. Praticamente me joguei para dentro do banco traseiro do carro oficial que já me aguardava. O motorista deu a partida, e o silêncio do veículo finalmente me acolheu. Encostei a cabeça no banco de couro, levei as mãos trêmulas ao rosto e respirei fundo, tentando acalmar o ritmo frenético do meu coração. — Mas que porra foi aquela? — sussurrei para o vidro escuro, encarando meu próprio reflexo assustado na janela.






