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capítulo 3 - a outra face da moeda

Existe uma mentira que o mundo repete tantas vezes que as pessoas acabam aceitando como verdade absoluta. Eles olham para mim e para o Will e enxergam espelhos. Dizem que fomos feitos da mesma matéria, cortados pelo mesmo molde, e ignoram completamente os fatos. A verdade é simples: nós não temos a mesma idade. Eu nasci no dia 1 de agosto, e o Will nasceu exatamente um ano depois, no mesmo dia 1 de agosto. Uma ironia do destino que parece confundir a cabeça de todo mundo. Teoricamente, eu tenho a mesma idade do Gus, mas a mídia e os fãs insistem em nos pintar como gêmeos idênticos. Eles esquecem a linha do tempo porque nossos rostos, a estrutura dos nossos corpos e os nossos trejeitos são bizarramente iguais. A única falha nesse reflexo são os olhos. Eu ganhei o castanho-escuro e ele herdou o azul. Nem a ciência consegue explicar direito como dois irmãos com um ano de diferença compartilham uma genética tão absurdamente fundida. Eu costumo brincar com os caras que o Will passou do tempo de gestação, ou que só resolveu se desenvolver na barriga da nossa mãe depois que eu já tinha saído e liberado o espaço.

​Mas, rir disso hoje é fácil. Nossa infância em Eisenwald nunca teve nada de engraçada.

​Crescer com a nossa aparência em uma cidade pequena daquela foi um teste de sobrevivência diário. Nós dois herdamos traços faciais muito fortes, uma beleza delicada que as pessoas costumavam associar a feições femininas. Só que, enquanto eu camuflava isso com uma postura marenta, roupas fechadas e uma cara de poucos amigos, o Will seguiu pelo caminho oposto. Desde moleque, ele sempre teve um estilo andrógino, chamativo, que batia de frente com o conservadorismo de quem nos cercava. Aquilo atraía problemas como um ímã.

​Eu percebi muito cedo, antes mesmo de termos idade para entender o mundo, que a minha principal missão na terra era proteger o meu irmão. O Will sempre teve a língua solta, uma audácia cega e uma arrogância de quem achava que podia vencer qualquer discussão no grito. Ele provocava, peitava e não engolia sapo de ninguém. Mas quando a hora do vamos ver chegava, quando o argumento virava empurrão, ele não tinha força bruta para se defender. Ele era fisicamente mais fraco, mais frágil. Então, antes mesmo que o punho de algum babaca da escola alcançasse o rosto dele, eu já tinha entrado na frente. Eu era o cara que partia para a briga, que voltava para casa com os nós dos dedos cortados e o lábio sangrando, mas com a certeza de que ninguém tinha encostado um dedo no Will.

​Essa dinâmica nunca me incomodou. Nem por um segundo. A proteção do meu irmão sempre foi, e sempre será, a prioridade absoluta da minha vida. É um pacto silencioso de sangue: ninguém passa por cima dele, ninguém mexe com ele. E ele sabe disso. Ele sabe que eu sou a sua parede, o seu escudo, da mesma forma que ele é a minha voz no mundo.

​Nossa conexão é algo tão bizarro e intenso que ultrapassa o entendimento comum. Eu não preciso que o Will me diga uma única palavra para saber o que ele está sentindo. Eu consigo ler o humor dele, os medos dele e os seus segredos mais profundos apenas pelo ritmo da respiração dele ao meu lado no camarim. É físico. Quando algo ruim vai acontecer com um de nós, o outro sente o estômago revirar horas antes. Somos almas gêmeas, e não há outra definição possível para o que nós somos.

​Tudo o que construímos nasceu dessa simbiose. Começamos a banda do jeito mais cru possível: o Will cantando, usando a voz dele para colocar para fora tudo o que guardava, e eu na guitarra, criando a barreira de som que ele precisava para brilhar. Éramos só nós dois contra o resto. Mas aí o tempo passou, e o Gregor e o Gus cruzaram o nosso caminho em Veldria.

​A entrada dos dois foi o encaixe que faltava para a engrenagem funcionar e explodir no sucesso que temos hoje. O Gus, com a calmaria dele, e o Gregor, com aquela seriedade mais madura, nunca ligaram para as excentricidades do Will ou para a nossa estética visual. Eles não tentaram nos mudar; pelo contrário, eles nos aceitaram de primeira. Mais do que colegas de banda, os dois se tornaram os irmãos que nós não tivemos por sangue. Eles fecharam o nosso círculo. No palco e fora dele, o Gregor e o Gus nos apoiam e ajudam a proteger o Will tanto quanto eu. Nós somos uma parede de quatro homens.

​E foi com essa estrutura inabalável que nós entramos naquela premiação no domingo à noite. No começo, o clima era o de sempre: os veteranos da indústria rindo pelos cantos, zombando de nós pelas costas porque éramos apenas garotos caipiras vindos de uma cidadezinha do interior de Veldria. A própria indústria insistia em nos pintar como o bando de garanhões intocáveis. Eu não os culpava por isso; na verdade, esse rótulo era incrivelmente benéfico. Trazia mais fãs, mais polêmica e mais notoriedade para a Midnight Empire. Eu, pessoalmente, não era nem um terço do pegador que os tabloides inventavam, mas nossos agentes insistiam para que mantivéssemos o personagem. Para falar a verdade, eu me divertia com isso. Os outros caras também. A gente rachava o bico imaginando as barbaridades que a imprensa ia publicar na manhã seguinte ou as manchetes absurdas que iam inventar só para ver a loucura das fãs.

​Havia vários tipos de fãs ali. Aquelas que fingiam não ligar para nós, fingindo desinteresse só para ver se chamavam a minha atenção, mas que na primeira oportunidade tentavam a sorte e se jogavam a todo custo. E havia as minhas favoritas: aquelas que nos apoiavam de verdade, respeitavam a nossa música e não tentavam sexualizar cada passo que dávamos. Elas gostavam de nós pelo que éramos, pela nossa arte.

​Ficar até o final de premiações como aquela era satisfatório por um único motivo: era como lavar a alma. Ver a cara de tacho de quem desdenhava da gente por sermos novos demais, enquanto subíamos ao palco repetidas vezes para arrebatar quase todos os prêmios da noite, não tinha preço.

​Depois de limparmos a mesa e guardarmos os troféus, decidimos dar uma volta pelo saguão para espairecer e fugir um pouco do protocolo. Estávamos exaustos daquelas coletivas de imprensa chatas e repetitivas, onde os repórteres maliciosos só queriam fazer perguntas idiotas para tentar descobrir ou arrancar fofocas sobre a sexualidade do meu irmão.

​Estávamos caminhando distraidamente em direção à saída quando o Will, com a cabeça no mundo da lua, acabou esbarrando direto em uma mulher.

​Eu a reconheci instantaneamente. Era a modelo Haila Klumert. Eu saberia quem ela era de longe, afinal, o rosto dela estava estampado em metade dos outdoors de grife da Europa. Pessoalmente, ela era muito bonita — bem mais bonita do que eu esperava pelas fotos. Com aquele vestido branco meio cinzento, cheio de brilho e com uma racha generosa, ela estava um verdadeiro espetáculo. Não vou mentir: eu olhei. Fiquei interessado, muito interessado. O visual dela era puramente carnal e me chamou a atenção de imediato. Mas parava por aí. Eu não iria correr atrás, não estava com a cabeça ou a paciência para aquele tipo de jogo naquele momento. Quem sabe em uma outra oportunidade, no futuro. Eu tinha apenas dezenove anitos, uma carreira explosiva pela frente e um mundo de distrações. Para mim, naquela noite, ela foi só uma mulher deslumbrante que cruzou o nosso caminho. Nada de mais. Algo que eu provavelmente esqueceria no dia seguinte.

​Mesmo assim, eu não mudei a minha postura. Quando ela se virou, cravei meus olhos nela. Sustentei um contato visual profundo, descendo o olhar pelo corpo dela sem pressa e voltando para o seu rosto. Eu nunca tive vergonha de manter o contato visual ou de demonstrar o que estava pensando. Vi as bochechas dela corarem e ela gaguejar uma desculpa rápida antes de sair quase correndo em direção à porta.

​Dei um meio sorriso de lado, vi a silhueta dela sumir na noite e voltei a andar com os caras. Era hora de comemorar a nossa vitória

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