Mundo de ficçãoIniciar sessãoExiste uma mentira que o mundo repete tantas vezes que as pessoas acabam aceitando como verdade absoluta. Eles olham para mim e para o Will e enxergam espelhos. Dizem que fomos feitos da mesma matéria, cortados pelo mesmo molde, e ignoram completamente os fatos. A verdade é simples: nós não temos a mesma idade. Eu nasci no dia 1 de agosto, e o Will nasceu exatamente um ano depois, no mesmo dia 1 de agosto. Uma ironia do destino que parece confundir a cabeça de todo mundo. Teoricamente, eu tenho a mesma idade do Gus, mas a mídia e os fãs insistem em nos pintar como gêmeos idênticos. Eles esquecem a linha do tempo porque nossos rostos, a estrutura dos nossos corpos e os nossos trejeitos são bizarramente iguais. A única falha nesse reflexo são os olhos. Eu ganhei o castanho-escuro e ele herdou o azul. Nem a ciência consegue explicar direito como dois irmãos com um ano de diferença compartilham uma genética tão absurdamente fundida. Eu costumo brincar com os caras que o Will passou do tempo de gestação, ou que só resolveu se desenvolver na barriga da nossa mãe depois que eu já tinha saído e liberado o espaço.
Mas, rir disso hoje é fácil. Nossa infância em Eisenwald nunca teve nada de engraçada. Crescer com a nossa aparência em uma cidade pequena daquela foi um teste de sobrevivência diário. Nós dois herdamos traços faciais muito fortes, uma beleza delicada que as pessoas costumavam associar a feições femininas. Só que, enquanto eu camuflava isso com uma postura marenta, roupas fechadas e uma cara de poucos amigos, o Will seguiu pelo caminho oposto. Desde moleque, ele sempre teve um estilo andrógino, chamativo, que batia de frente com o conservadorismo de quem nos cercava. Aquilo atraía problemas como um ímã. Eu percebi muito cedo, antes mesmo de termos idade para entender o mundo, que a minha principal missão na terra era proteger o meu irmão. O Will sempre teve a língua solta, uma audácia cega e uma arrogância de quem achava que podia vencer qualquer discussão no grito. Ele provocava, peitava e não engolia sapo de ninguém. Mas quando a hora do vamos ver chegava, quando o argumento virava empurrão, ele não tinha força bruta para se defender. Ele era fisicamente mais fraco, mais frágil. Então, antes mesmo que o punho de algum babaca da escola alcançasse o rosto dele, eu já tinha entrado na frente. Eu era o cara que partia para a briga, que voltava para casa com os nós dos dedos cortados e o lábio sangrando, mas com a certeza de que ninguém tinha encostado um dedo no Will. Essa dinâmica nunca me incomodou. Nem por um segundo. A proteção do meu irmão sempre foi, e sempre será, a prioridade absoluta da minha vida. É um pacto silencioso de sangue: ninguém passa por cima dele, ninguém mexe com ele. E ele sabe disso. Ele sabe que eu sou a sua parede, o seu escudo, da mesma forma que ele é a minha voz no mundo. Nossa conexão é algo tão bizarro e intenso que ultrapassa o entendimento comum. Eu não preciso que o Will me diga uma única palavra para saber o que ele está sentindo. Eu consigo ler o humor dele, os medos dele e os seus segredos mais profundos apenas pelo ritmo da respiração dele ao meu lado no camarim. É físico. Quando algo ruim vai acontecer com um de nós, o outro sente o estômago revirar horas antes. Somos almas gêmeas, e não há outra definição possível para o que nós somos. Tudo o que construímos nasceu dessa simbiose. Começamos a banda do jeito mais cru possível: o Will cantando, usando a voz dele para colocar para fora tudo o que guardava, e eu na guitarra, criando a barreira de som que ele precisava para brilhar. Éramos só nós dois contra o resto. Mas aí o tempo passou, e o Gregor e o Gus cruzaram o nosso caminho em Veldria. A entrada dos dois foi o encaixe que faltava para a engrenagem funcionar e explodir no sucesso que temos hoje. O Gus, com a calmaria dele, e o Gregor, com aquela seriedade mais madura, nunca ligaram para as excentricidades do Will ou para a nossa estética visual. Eles não tentaram nos mudar; pelo contrário, eles nos aceitaram de primeira. Mais do que colegas de banda, os dois se tornaram os irmãos que nós não tivemos por sangue. Eles fecharam o nosso círculo. No palco e fora dele, o Gregor e o Gus nos apoiam e ajudam a proteger o Will tanto quanto eu. Nós somos uma parede de quatro homens. E foi com essa estrutura inabalável que nós entramos naquela premiação no domingo à noite. No começo, o clima era o de sempre: os veteranos da indústria rindo pelos cantos, zombando de nós pelas costas porque éramos apenas garotos caipiras vindos de uma cidadezinha do interior de Veldria. A própria indústria insistia em nos pintar como o bando de garanhões intocáveis. Eu não os culpava por isso; na verdade, esse rótulo era incrivelmente benéfico. Trazia mais fãs, mais polêmica e mais notoriedade para a Midnight Empire. Eu, pessoalmente, não era nem um terço do pegador que os tabloides inventavam, mas nossos agentes insistiam para que mantivéssemos o personagem. Para falar a verdade, eu me divertia com isso. Os outros caras também. A gente rachava o bico imaginando as barbaridades que a imprensa ia publicar na manhã seguinte ou as manchetes absurdas que iam inventar só para ver a loucura das fãs. Havia vários tipos de fãs ali. Aquelas que fingiam não ligar para nós, fingindo desinteresse só para ver se chamavam a minha atenção, mas que na primeira oportunidade tentavam a sorte e se jogavam a todo custo. E havia as minhas favoritas: aquelas que nos apoiavam de verdade, respeitavam a nossa música e não tentavam sexualizar cada passo que dávamos. Elas gostavam de nós pelo que éramos, pela nossa arte. Ficar até o final de premiações como aquela era satisfatório por um único motivo: era como lavar a alma. Ver a cara de tacho de quem desdenhava da gente por sermos novos demais, enquanto subíamos ao palco repetidas vezes para arrebatar quase todos os prêmios da noite, não tinha preço. Depois de limparmos a mesa e guardarmos os troféus, decidimos dar uma volta pelo saguão para espairecer e fugir um pouco do protocolo. Estávamos exaustos daquelas coletivas de imprensa chatas e repetitivas, onde os repórteres maliciosos só queriam fazer perguntas idiotas para tentar descobrir ou arrancar fofocas sobre a sexualidade do meu irmão. Estávamos caminhando distraidamente em direção à saída quando o Will, com a cabeça no mundo da lua, acabou esbarrando direto em uma mulher. Eu a reconheci instantaneamente. Era a modelo Haila Klumert. Eu saberia quem ela era de longe, afinal, o rosto dela estava estampado em metade dos outdoors de grife da Europa. Pessoalmente, ela era muito bonita — bem mais bonita do que eu esperava pelas fotos. Com aquele vestido branco meio cinzento, cheio de brilho e com uma racha generosa, ela estava um verdadeiro espetáculo. Não vou mentir: eu olhei. Fiquei interessado, muito interessado. O visual dela era puramente carnal e me chamou a atenção de imediato. Mas parava por aí. Eu não iria correr atrás, não estava com a cabeça ou a paciência para aquele tipo de jogo naquele momento. Quem sabe em uma outra oportunidade, no futuro. Eu tinha apenas dezenove anitos, uma carreira explosiva pela frente e um mundo de distrações. Para mim, naquela noite, ela foi só uma mulher deslumbrante que cruzou o nosso caminho. Nada de mais. Algo que eu provavelmente esqueceria no dia seguinte. Mesmo assim, eu não mudei a minha postura. Quando ela se virou, cravei meus olhos nela. Sustentei um contato visual profundo, descendo o olhar pelo corpo dela sem pressa e voltando para o seu rosto. Eu nunca tive vergonha de manter o contato visual ou de demonstrar o que estava pensando. Vi as bochechas dela corarem e ela gaguejar uma desculpa rápida antes de sair quase correndo em direção à porta. Dei um meio sorriso de lado, vi a silhueta dela sumir na noite e voltei a andar com os caras. Era hora de comemorar a nossa vitória






