Casada com o meu inimigo de infância
Casada com o meu inimigo de infância
Por: Liz Nunes
Capítulo 1 Cão e gato

O sol da tarde filtrava-se pelas folhas das árvores do parquinho, criando pequenas poças de luz no chão de terra. Charlotte, uma garotinha de apenas seis anos, estava radiante. Sentada em um banco de madeira, ela ajeitava o vestido floral de sua boneca nova, o presente perfeito que havia ganhado na semana anterior.

Ela e os pais tinham pegado a estrada para visitar a Vovó Luiza — que, na verdade, era tia-avó de Charlotte. Sua mãe a havia levado até o parquinho do bairro, que parecia o lugar ideal para vivenciar grandes aventuras com sua nova companheira de brincadeiras.

A paz, no entanto, durou pouco.

Um rastro de passos pesados anunciou a chegada de Logan, um menino de dez anos que devia ser da vizinhança. Com as mãos nos bolsos e uma postura folgada, ele parou bem na frente de Charlotte.

— Sai daí. Eu quero sentar nesse banco — ordenou o menino, sem a menor cerimônia.

Charlotte franziu a testa e abraçou a boneca com mais força contra o peito. Pensou que ele era muito mal-educado.

— Não vou sair. Eu cheguei primeiro.

Irritado com a recusa, Logan deu um passo à frente e avançou na boneca. Ele agarrou um dos braços do brinquedo e puxou com força. Charlotte, em um reflexo rápido, segurou o outro. Começou, então, um cabo de guerra feroz.

— Me solta! É minha! — gritava a garotinha, puxando com toda a sua força. Ela não poderia desistir.

— Larga você! — rebateu Logan, puxando de volta.

O vaivém continuou por mais alguns minutos; nenhum dos dois parecia querer ceder. Então, a disputa tensa terminou de forma abrupta. Sentindo os dedos escorregarem, Charlotte soltou sua boneca para não rasgá-la — Lucy era muito preciosa para estragar assim.

Com o alívio repentino da força, a boneca foi arremessada para o alto, desenhando uma parábola perfeita no ar até ficar presa em um dos galhos mais altos da árvore logo acima deles. Charlotte olhou para o alto com os olhos cheios de lágrimas e depois apontou o dedo para o menino.

— Olha o que você fez! A culpa é sua!

Logan simplesmente deu de ombros, com um sorriso de canto de boca.

— Eu não fiz nada. Foi você que soltou.

Sem demonstrar um pingo de remorso, o garoto virou as costas e foi embora, deixando a menina para trás, tremendo de pura fúria.

— Seu... seu malvado!

Olhando para cima, Charlotte viu o vestido de sua boneca balançando ao vento, fora de seu alcance. Talvez ela pudesse alcançar... Sua mãe estava conversando na banca de revistas, muito longe para chamar. "Aquele valentão", pensou ela, "pode voltar e pegar a Lucy".

Determinada a recuperá-la e sem medir os riscos, ela agarrou o tronco da árvore e começou a subir. Segurando o próprio medo, continuou devagar. Conseguiu avançar por dois galhos, mas, ao tentar alcançar o terceiro, seu pé escorregou no galho seco.

O chão veio rápido. Charlotte caiu de mau jeito, e o estalo seco em seu braço esquerdo foi seguido por um choro estridente de dor.

— Ma... mãe!

O susto resultou em uma ida às pressas ao hospital, um gesso branco e, para piorar a situação, uma bronca homérica de sua mãe pelo perigo que havia corrido. Lucy ficou esquecida na árvore.

Dois dias se passaram; eles iriam embora no dia seguinte. O braço de Charlotte ainda latejava um pouco sob o gesso coberto de assinaturas da Vovó Luiza e dos pais. À noite, a casa da tia-avó encheu-se com o aroma de um assado especial como despedida para eles. Os vizinhos também haviam sido convidados para o jantar.

Para a surpresa e desagrado de Charlotte, Logan cruzou a porta acompanhando os pais. O menino agia com uma indiferença irritante, como se nunca tivesse visto Charlotte na vida e, certamente, como se não tivesse sido o causador do gesso no braço dela.

Durante o vaivém do jantar, os adultos se distraíram na cozinha, deixando as duas crianças sozinhas na sala de estar. Charlotte não perdeu tempo. Caminhou até Logan, parando bem na sua frente, e exibiu o braço engessado.

— Você viu o que aconteceu por sua causa? — cobrou ela, com a voz firme, apesar de baixinha. — Minha boneca ainda está lá em cima e eu quebrei o braço!

Logan tirou os olhos da tela do seu jogo por apenas um segundo, olhou para o gesso e soltou um risinho nasalado.

— Você é muito tonta, garota.

Sem dizer mais nada, ele se esquivou dela e caminhou em direção à mesa de doces, deixando Charlotte estática, com o sangue fervendo de indignação.

Mais tarde, o movimento na casa acalmou. A mãe de Charlotte ajeitava os lençóis na cama improvisada do quarto de hóspedes, cobrindo a filha com cuidado para não machucar o braço enfaixado.

— Vi que o filho dos vizinhos tem quase a sua idade — disse a mãe, com um sorriso acolhedor enquanto afagava os cabelos da menina. — Você fez amizade com ele? Sabe, a Vovó Luiza disse que eles são ótimas pessoas. Vocês podem brincar juntos sempre que a gente vier passar as férias aqui.

Charlotte virou o rosto para o canto da parede, com os olhos semicerrados e a expressão séria.

— Não, mãe. Eu não fiz amizade com ele.

— Ah, filha, por que não? — perguntou a mãe, achando que era apenas timidez.

Charlotte apertou o lençol com a mão que estava livre e, em um sussurro carregado de uma promessa silenciosa, declarou:

— Eu juro que nunca, nunca vou ser amiga dele.

— Querida, não diga isso!

— Nós somos inimigos!

E foi assim a infância toda: sempre que vinham visitar a Vovó Luiza, os dois brigavam feito cão e gato.

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