Mundo de ficçãoIniciar sessão>> Valentina Sallazar <<
O calor do Arizona parecia ainda mais insuportável naquela manhã. O vestido preto colado em meu corpo não era tradicional. Não tinha véu, nem brilho, nem esperança. Era minha armadura. Um símbolo de luto e de renascimento. Hoje, eu me casaria com um homem que me deixou com uma filha no ventre após uma noite super quente.
A pequena igreja no deserto, escolhida pelos Vipers, era mais uma fachada simbólica do que uma casa sagrada. Os bancos de madeira estavam ocupados por homens armados, tatuados e desconfiados — metade Cuervos, metade Vipers. A tensão podia ser cortada com uma lâmina.
Minha filha, Blanca, estava com Santiago, vestida com um pequeno vestido branco, segurando uma flor seca. Ela não entendia, mas seus olhos sabiam: algo grande estava para acontecer.
As portas rangeram atrás de mim quando entrei. Todos se viraram para olhar. Alguns com curiosidade, outros com ódio. Nenhum sorriso. Só expectativa.
E então eu o vi… Fox. Ele estava no altar, de pé, de terno escuro — sem colete de gangue, mas ainda assim carregando no olhar o peso de um império de serpentes. O cabelo mais longos, as cicatrizes mais visíveis. Mas os olhos… ah, os olhos eram os mesmos. Frios. Penetrantes. Calculistas.
Ele me olhou como se tivesse visto um fantasma. Talvez tivesse. Caminhei até ele sem desviar o olhar, cada passo era um lembrete: você vai casar com o inimigo em nome da paz… mas paz é a única coisa que você não vai ter.
— Não esperava te ver assim… — ele murmurou, quando fiquei frente a frente com ele. Sua voz rouca ainda fazia meu estômago revirar.
— Nem eu. — respondi, seca.
Ele me olhou de cima a baixo, lento, como se estivesse me despindo com os olhos. Umedeceu os lábios, e por um instante, o clima entre nós mudou. O ar ficou mais denso, como se o passado estivesse ali, nos tocando. Como se o presente fosse uma faísca prestes a incendiar tudo.
— Está bonita. — Ele disse. — Perigosamente sexy.
— Perigo combina comigo. — sorri de lado. — E falando de perigo… — hesitei se deveria revelar que Blanca era sua filha.
Meus olhos caíram sobre Blanca, e o ar entre nós se condensou num segundo. Seus lábios se entreabriram, um músculo da mandíbula se contraiu. Ele acompanhou o meu olhar e perguntou
— O que foi Valentina? Sua filha ou você está correndo algum perigo?
Minha garganta fechou. Quis gritar. Gritar que ela era dele. Que ele tinha uma filha… que eu tinha vivido com esse segredo queimando dentro de mim como veneno por anos.
Mas ainda não era a hora. Dizer isso ali... naquele momento... com armas invisíveis apontadas de todos os lados, seria a nossa sentença.
Então, respirei fundo e menti com o único tipo de verdade que podia ser dita.
— Sempre estamos em perigo, Fox. — murmurei, com a voz baixa, trêmula, mas firme. — E tudo o que quero é que as nossas gangues parem de se matar… para que ela tenha um futuro melhor que o nosso.
Ele fechou os olhos por um momento. Só um momento. Mas naquele pequeno gesto, vi o peso das palavras afundarem nele, vi o homem sob a casca dura de líder, de monstro, de sobrevivente. Vi Blake. Mas ele não disse nada.
O juiz entrou, oficiando em voz seca, lendo palavras que pareciam tiradas de um script de guerra em vez de casamento.
— Vocês estão aqui para selar um acordo de paz, uma aliança entre The Vipers e Los Cuervos. Fox, você aceita Valentina como sua esposa?
Fox me olhou fundo, não disse nada por alguns segundos. O silêncio pesou tanto que achei que ele ia negar… mas então, ele assentiu, lento.
— Aceito.
— Valentina, aceita Fox como seu esposo?
— Aceito. — Respondi firme, a palavra saindo mais fria que qualquer uma que já saiu da minha boca.
— Então, pela autoridade dada por seus clubes, seus códigos e suas armas… vocês estão casados.
O silêncio foi rompido por alguns aplausos tímidos. Santiago deu um leve aceno. Wolf, Raven e Jett mantinham os braços cruzados e Ghost, como sempre, era uma incógnita sobre o que pensava.
Fox estendeu a mão, e eu a peguei, nossos dedos se encostaram. Era um gesto simples, mas naquele momento… parecia uma faísca acendendo um barril de pólvora.
— A partir de agora… — ele murmurou, a voz baixa, áspera, próxima demais da minha pele — …você dorme do meu lado, mas cuidado, Valentina… cobras não dormem. Principalmente com quem ainda não confiam.
Engoli em seco. Não pelo aviso, mas pela proximidade dele. Pela maldita forma como ele me olhava — como se já fosse dono de cada parte minha. Corpo. Passado. Alma. Eu não ia me dobrar, ergui o queixo, deixando minha resposta vir fria como gelo.
— E corvos se alimentam de mortos. — soltei, sem hesitar. — Se tentar me trair, Fox… eu te enterro com um sorriso no rosto.
Um silêncio cortante caiu entre nós e então, ele sorriu. Um sorriso lento, torto, perigoso. Quase satisfeito. Havia algo naquele olhar, um brilho de provocação. Um reconhecimento. Como se ele finalmente tivesse encontrado alguém que falasse a mesma língua — feita de ameaça, cicatriz e tensão. E, por mais que eu quisesse negar… meu corpo reagia a ele com a mesma força que minha raiva. Meu coração batia rápido, meus pulmões ardiam, minhas pernas vacilaram por um segundo.
Era como se eu estivesse sendo puxada para o centro de um furacão… e gostasse disso. Medo e desejo. Orgulho e fúria. Tudo se misturando em mim como veneno e fogo.
Era só o começo. O primeiro passo de uma guerra vestida de aliança e por dentro, eu sabia: esse casamento não seria um lar. Seria um campo de batalha.
Mas talvez… era exatamente disso que eu precisava.







