Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 4
A sala de reuniões estava em silêncio absoluto. Do outro lado da mesa de vidro, cinco diretores olhavam para Samuel Beaumont com o mesmo olhar de quem enfrenta uma tempestade sem ter para onde correr. Sentado na ponta da mesa, Samuel analisava o relatório da nova inteligência artificial da empresa com uma calma que dava arrepios. Seu olhar escuro passava por cada linha de dados com atenção cirúrgica. Quando ele finalmente fechou a pasta, o barulho seco do papel batendo na mesa soou como um tiro no silêncio da sala. — Isso é o melhor que os seus programadores conseguiram fazer? — perguntou ele, com uma voz baixa e perigosa. Ninguém respondeu de imediato. Um dos diretores, sentindo o suor escorrer pelo rosto, tentou explicar com a voz tremendo: — Senhor Beaumont… o software ainda precisa de tempo para aprender. A gente acredita que o lucro vai vir logo… Samuel inclinou levemente a cabeça e o encarou com frieza. — "Acredita"? O silêncio voltou a pesar na sala. Ele empurrou o relatório devagar pelo vidro liso da mesa. — Eu não construí a maior empresa de tecnologia do mundo para acreditar em nada. Eu sigo o que os dados mostram com certeza. Se eu quisesse ter fé, iria para a igreja — não para a minha empresa. Ele se levantou devagar, ajeitando o terno escuro. Alto, de ombros largos e com uma presença que ocupava o ambiente inteiro, Samuel não precisava levantar a voz para que todos soubessem exatamente quem mandava. — Cancelem o projeto agora — ordenou ele. Os diretores se entreolharam, apavorados. — Mas, senhor… já investimos muito dinheiro nesse projeto! — disse um deles, quase implorando. — Não podemos simplesmente desistir agora. Samuel parou perto da porta e olhou fundo nos olhos do homem. Seu olhar era seco e definitivo. — E é exatamente por isso que eu não vou perder nem mais um centavo. Reunião encerrada. No corredor, sua assistente já o esperava com um tablet nas mãos. — Senhor Beaumont, sua avó ligou mais cedo — informou ela rapidamente. — Ela pediu que o senhor retornasse assim que possível. — Mais alguma coisa? A assistente hesitou por um instante. — O senhor Daniel Avelar confirmou o acordo entre as famílias. O nome fez Samuel pausar por um segundo. Ele entrou na sala sem dizer mais nada. A porta se fechou atrás deles com um clique suave. Samuel caminhou até a enorme janela que ocupava toda a parede, observando a cidade lá embaixo. — Então finalmente decidiram aceitar. — Sim, senhor. O acordo será selado com o casamento entre as famílias. — Quem será a noiva? — Isabela Avelar. Um leve sorriso surgiu nos lábios de Samuel. Frio. Calculado. — A filha. Ele ficou em silêncio por um longo momento, os olhos fixos nas luzes da cidade que começavam a se acender no anoitecer. A assistente aguardou sem se mover, conhecendo bem o ritmo do patrão — sabia quando ele estava apenas pensando e quando estava planejando. E aquele silêncio era de planejamento. — Prepare um dossiê completo sobre essa mulher. Quero saber tudo sobre Isabela Avelar. E marque um encontro com a minha futura esposa. A assistente levantou os olhos, surpresa por um instante, mas apenas confirmou com um gesto de cabeça e saiu da sala. Quando a porta se fechou, Samuel voltou a olhar para a cidade. Daniel Avelar. O nome ecoou em sua mente como sempre ecoava — carregado, pesado, envolto em fumaça e metal retorcido. Samuel tinha dezoito anos quando recebeu a ligação. Tinha dezoito anos quando enterrou os dois caixões lado a lado, sob uma chuva fina que não parou o dia inteiro. Tinha dezoito anos quando jurou, em silêncio, que um dia descobriria a verdade. Nunca conseguiu provar nada. Mas também nunca acreditou que havia sido apenas um acidente. Agora, décadas depois, o destino colocava a família Avelar em suas mãos — e desta vez ele não pretendia deixar escapar. Quando fez a proposta de casamento, Samuel não queria apenas unir duas empresas. Queria observar Daniel de perto. Queria ver até onde aquele homem seria capaz de ir por dinheiro. Queria que ele mesmo, sem perceber, entregasse a verdade. Por isso usou o nome de Santiago. Por isso deixou os rumores sobre o herdeiro desfigurado circularem sem desmentir nenhum deles. Era conveniente demais. Enquanto o mundo procurava por Santiago Beaumont… ninguém suspeitava do homem que havia construído do zero a maior empresa de tecnologia e inteligência artificial do país. Samuel Beaumont. Um homem que ninguém via — porque ninguém sabia onde olhar. Agora aquele casamento tinha um propósito muito maior do que qualquer aliança corporativa. Você vai me contar tudo, Daniel. Mesmo sem perceber. O casamento era apenas o começo da invasão. E ele não pretendia ter piedade de ninguém que tivesse o sangue dos Avelar.






