Mundo de ficçãoIniciar sessãoO fim dos quinze dias de resguardo marcou o meu retorno para a realidade nua e crua da minha própria casa. Eu trazia nos braços a minha filha recém-nascida e segurava a mão do meu príncipe, tentando focar na promessa de que dali para frente eu viveria a minha própria vida ao lado dos meus filhos. Mas a vida de uma mãe solo na comunidade parece ser testada em cada pequeno detalhe. Assim que empurrei a porta e entrei, o chão sumiu sob os meus pés mais uma vez: alguém havia entrado na casa e roubado o meu botijão de gás. Estar ali, sem dinheiro, com um bebê de colo que precisava de água morna para o banho e comida para sustentar a nós três, foi um golpe doloroso e injusto. No desespero, o amor de família me salvou novamente. Naquela época, eu tinha dois celulares. Procurei o meu irmão e fiz uma troca necessária para a nossa sobrevivência: entreguei um dos aparelhos para ele em troca de um botijão cheio. Eu abria mão de um bem, mas garantia o fogo, o alimento, o calor para os meus filhos e ainda mantinha o outro telefone comigo para não ficar completamente isolada do mundo. A rotina foi se ajeitando em um silêncio calmo nos primeiros meses. Eu desdobrava as minhas forças para dar conta de tudo sozinha, cuidando do meu filho e amamentando a minha filha na tranquilidade que eu tanto havia batalhado para conquistar. Tudo corria bem, até que o passado resolveu testar os meus limites na calada da noite. No meio da madrugada escura, batidas pesadas na porta quebraram o silêncio da casa. Ao olhar, o meu coração disparou: era o Henrique . O homem que havia me enforcado, o homem contra quem eu tinha uma medida protetiva bem ali na gaveta, estava parado na minha soleira. O pavor inicial correu pelas minhas veias, mas ele não trazia a fúria de antes. Com uma voz mansa que eu mal reconhecia, ele insistia que não queria brigar. Dizia que o seu único desejo era dar um beijo no filho dele e conhecer a menina, ja que o sonho dele sempre foi ter uma menina. Fiquei dividida entre o medo e a compaixão. Olhando para aquela situação no meio da madrugada, com a vulnerabilidade de quem carregava o peso do mundo nas costas, acabei concordando. Abri a porta e Henrique entrou em silêncio, cumpriu o que havia prometido, olhou para as crianças e foi embora. Esse ritual inesperado se repetiu durante uma semana inteira. Todas as madrugadas, ele aparecia sem aviso, entrava apenas para dar um beijo no menino e olhava para a menina no berço e se retirava sem causar nenhuma confusão. Eu comecei a achar que, de alguma forma, a paternidade ou o tempo na prisão haviam tocado o coração daquele homem. Mas a constância nunca foi o forte dos homens que cruzaram o meu caminho. Do mesmo jeito que apareceu, Henrique sumiu. Após exatos sete dias daquela rotina silenciosa da madrugada, ele simplesmente não apareceu mais. A porta permaneceu fechada, e o silêncio da noite voltou a ser o meu único companheiro. Esse sumiço repentino deixou no ar um vazio esquisito e a certeza de que eu estava, mais uma vez, completamente por minha conta. O cansaço físico de cuidar de dois bebês sozinha, o isolamento absoluto e o peso de tantos abandonos acumulados começaram a cobrar o seu preço mais alto. Na solidão daquela casa, a calmaria deu lugar a uma tristeza profunda. O tempo foi passando, e eu fui conhecendo novas pessoas na comunidade. No meio dessas novas interações, buscando um alívio, o cigarro e a bebida entraram na minha vida como as primeiras válvulas de escape, antes de tudo mudar com a viagem para a casa da minha mãe.







