Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa manhã seguinte, Londres continuava coberta pela mesma garoa fria que parecia nunca abandonar a cidade. O céu cinza deixava o escritório da cobertura da Villar Group ainda mais silencioso enquanto Roman observava distraidamente os relatórios espalhados sobre a mesa. Normalmente, aquela era a parte do dia em que sua mente funcionava melhor. Sem interrupções. Sem jornalistas. Sem eventos sociais irritantes. Apenas números, contratos e decisões que realmente importavam.
Mas naquela manhã, sua concentração parecia estranhamente instável.
O problema era que sua mente insistia em voltar para a mulher ruiva do evento da noite anterior.
Ridículo.
Roman soltou um suspiro discreto antes de fechar a pasta financeira diante dele. Não fazia sentido continuar pensando naquilo. Ela era apenas uma funcionária organizando um problema num salão lotado. Nada além disso.
Mesmo assim…
Ele lembrava da expressão cansada dela.
Da forma tranquila como resolveu a situação sem criar drama. E principalmente do fato de que ela praticamente não demonstrou interesse algum em quem ele era.Aquilo era raro.
Talvez raro demais.
A porta do escritório se abriu alguns segundos depois e Henrique entrou carregando um café numa mão e uma pasta fina na outra.
Roman ergueu os olhos lentamente.
— Espero que essa pasta não seja mais uma seleção de candidatas desesperadas.
Henrique ignorou completamente o comentário enquanto deixava o café sobre a mesa.
— Na verdade, é exatamente o contrário.
Roman arqueou levemente a sobrancelha.
Henrique então colocou a pasta diante dele sem dizer nada por alguns segundos.
— A ruiva do evento.
O olhar de Roman desceu automaticamente para a pasta.
Aquilo irritou ele imediatamente.
Porque percebeu rápido demais.
Henrique quase sorriu ao notar.
— Então você reparou nela.
Roman voltou a encarar os documentos sobre a mesa como se estivesse completamente indiferente.
— Eu reparei numa funcionária resolvendo um problema.
— Claro.
Henrique sentou-se calmamente na cadeira à frente da mesa antes de continuar:
— Mesmo assim, fui atrás dela.
Roman fechou lentamente a caneta entre os dedos.
— Você anda ultrapassando alguns limites profissionais.
— E você ficou olhando pra ela tempo suficiente pra eu perceber.
Silêncio.
Roman odiava quando Henrique acertava alguma coisa sobre ele.
Principalmente porque isso acontecia raramente.
Henrique então abriu a pasta devagar.
— Olívia Becker. Vinte e seis anos. Brasileira. Trabalha numa empresa responsável por eventos corporativos em Londres há quase três anos.
Roman desviou os olhos lentamente para a fotografia anexada ao relatório.
Era ela.
Os mesmos cabelos ruivos presos de maneira simples.
Os mesmos olhos castanhos cansados. A mesma expressão séria de quem parecia carregar peso demais nas costas.Ela não parecia alguém pertencente ao mundo sofisticado em que Roman vivia.
E talvez fosse exatamente aquilo que chamava atenção.
— Sem histórico problemático — Henrique continuou. — Discreta. Reservada. Sem exposição pública. Nunca se envolveu em escândalos e aparentemente evita qualquer tipo de ambiente ligado à mídia.
Roman permaneceu em silêncio enquanto analisava as informações.
Henrique percebeu imediatamente o interesse contido por trás da postura fria dele.
— Ela não parece o tipo de mulher que correria atrás do seu sobrenome — comentou.
Roman fechou a pasta lentamente.
— Ou talvez apenas seja mais inteligente que as outras.
Henrique soltou uma risada baixa.
— Você realmente não sabe lidar quando alguém não fica impressionado com você, né?
Roman sustentou o olhar dele sem expressão alguma.
— Tome cuidado pra não confundir intimidade com liberdade.
Aquilo normalmente bastaria para encerrar qualquer provocação.
Mas Henrique já conhecia Roman bem demais para se intimidar.
— O ponto é simples — continuou calmamente. — Você precisa de alguém convincente. Alguém que pareça real ao seu lado. E sinceramente? Pela primeira vez eu encontrei uma mulher que talvez não aceite esse acordo imediatamente só por causa do dinheiro.
Roman desviou o olhar lentamente para as enormes janelas do escritório.
Londres permanecia fria do lado de fora.
Elegante. Distante.Exatamente como ele.
O contrato com os japoneses estava próximo. Os investidores continuavam pressionando a empresa discretamente, e as manchetes sobre sua vida pessoal pioravam a cada semana. Nos últimos meses, Roman percebeu algo que odiava admitir: sua reputação estava começando a afetar os negócios.
E aquilo era inaceitável.
Henrique então puxou outra folha do relatório.
— Ela também está com dificuldades financeiras.
Os olhos de Roman voltaram imediatamente para ele.
— Que tipo de dificuldades?
— Aluguel atrasado. Algumas dívidas acumuladas. Nada absurdo, mas aparentemente ela vem enfrentando problemas há meses.
O olhar dele endureceu levemente.
Aquilo incomodou instantaneamente.
Porque parecia errado.
— Então é isso? — perguntou friamente. — Você encontrou uma mulher desesperada financeiramente e decidiu que ela seria fácil de convencer?
Henrique manteve a calma.
— Não. Eu encontrei uma mulher inteligente, discreta e desesperadamente tentando manter a vida em pé sem pedir ajuda de ninguém.
Roman permaneceu em silêncio.
Algo naquela frase causou um desconforto estranho nele.
Porque lembrava perfeitamente da expressão dela no evento.
O cansaço.
A postura controlada. A sensação de que estava suportando coisas demais sozinha.Henrique apoiou os braços sobre a cadeira antes de continuar:
— Ela não parece interesseira, Roman. E talvez isso seja exatamente o motivo pelo qual funcione.
Aquilo fez o silêncio pesar no escritório novamente.
Roman sabia que precisava resolver aquela situação logo. Precisava estabilizar sua imagem antes que os acionistas começassem a pressionar oficialmente sua permanência na presidência da empresa.
Mas a ideia de envolver uma desconhecida naquele acordo ainda parecia absurda.
Principalmente alguém como ela.
Porque Olívia Becker claramente não pertencia ao mundo dele.
E talvez fosse justamente isso que tornava tudo perigosamente interessante.
Roman voltou a abrir a pasta devagar.
Os olhos dele passaram novamente pela fotografia dela.
Havia algo estranho naquela expressão cansada.
Algo real demais.
Sem arrogância.
Sem ambição aparente. Sem aquela fome irritante que quase todas as pessoas demonstravam perto dele.Ela parecia apenas… sobrevivendo.
E pela primeira vez em muito tempo, Roman sentiu curiosidade genuína por alguém.
Aquilo sozinho já era um problema.
— Quero mais informações — disse por fim, fechando a pasta novamente.
Henrique arqueou levemente a sobrancelha.
— Mais informações?
Roman pegou o celular sobre a mesa sem demonstrar reação alguma.
— Quero entender quem ela é antes de colocar alguém assim dentro da minha vida.
Henrique observou ele por alguns segundos em silêncio.
Porque aquela frase dizia muito mais do que Roman provavelmente percebia.
E talvez, pela primeira vez em anos, Roman Villar estivesse prestes a tomar uma decisão que não conseguiria controlar completamente.







