Mundo de ficçãoIniciar sessãoPhilip Caldwell - Narrando.
Já era noite quando saí do escritório. Peguei a minha pasta e fui para o estacionamento e ao entrar no carro, soltei um respiro de alívio. – Ali era onde ninguém via meus pedaços.
O dia havia sido muito exaustivo e eu não via a hora de descansar.
Me desfiz do paletó ainda dentro do carro, me livrando da gravata enquanto sentia a roupa me sufocar junto a uma terrível dor que começou a se alastrar no meu estômago.
No começo era só uma queimação, mas não demorou muito para que se intensificasse.
Havia uma garrafa de água no carro e eu a abri, bebendo alguns goles. Enquanto a água descia pela minha garganta, a dor se acalmava, mas não durava muito para que ela voltasse, irradiando para as costas.
Senti minhas mãos suarem e a minha paciência esvair enquanto a dor ia e vinha.
Assim que cheguei em casa e desci do carro, a dor voltou com mais força.
Quanto mais eu tentava pensar em algo para me distrair, mas ela piorava.
Passei pela porta e me sentei no sofá, jogando as coisas no chão, me contorcendo e me dobrando ao meio.
Aquela dor só piorava. Eu não conseguia pensar em nada. Só sentia meu corpo fraquejar junto a ela.
—Arrgh! – O barulho saiu sem a minha permissão.
Minha visão estava turva, e algo se descontrolava dentro de mim me fazendo perder toda a paciência, mas eu reconheci o cheiro antes mesmo da voz.
Então, passos se aproximaram.
—Senhor Caldwell... – Chamou Selena, com a voz preocupada. —O que houve? O senhor...está bem? Está pálido.
—Não. Não estou. Dor! – Respondi sem paciência. —Vá embora!
Ela não disse nada. Se afastou.
E por um instante, a dor desapareceu, mas ela ia e vinha sem pedir permissão.
Me deitei ali mesmo, tentando me acalmar com aqueles curtos minutos de pausa.
Foi quando algo me surpreendeu.
O perfume dela voltou. Os passos se aproximaram. E junto a eles, um cheiro forte de ervas.
—Philip, por favor, beba isso. – Disse ela, parando na minha frente.
Eu me sentei e levantei os olhos para ela.
—O que pensa que está fazendo? Quer me envenenar e aproveitar que já estou vulnerável?
Antes de ouvir a resposta, a dor voltou.
Pontiaguda. Irritante.
—E o que eu ganharia com isso? - Perguntou ela sem paciência, tocando a minha mão me obrigando a segurar a xícara. —Beba isso primeiro. Ao menos terá forças para discutir comigo.
Levei a xícara até os lábios, mas hesitei.
—O que é isso?
—Um chá. Boldo. Achei a planta no seu jardim. É uma erva muito forte e boa para inflamações.
Eu a olhei e arqueei uma sobrancelha.
—E para que serve?
—Infelizmente só desintoxica o corpo, não dá noção para a pessoa. – Disse ela me provocando. —Só beba o chá e descanse. Garanto que se sentirá bem pela manhã.
Eu não tinha outra escolha além de acreditar nela naquele instante.
Bebi o chá de uma vez, sentindo o gosto amargo e marrento na garganta.
Não sei se fiz uma careta, mas eu tive a certeza de ouvir um riso.
—O senhor bebe coisas piores. Acredite, isso te ajudará.
Assim que ela falou, eu lhe estendi a xícara e me levantei.
A dor era tão forte, que eu mal me sustentava de pé.
Eu, Philip Caldwell, o invencível nos tribunais, sendo derrubado por uma dor simples. – Era mesmo constrangedor.
Dei um passo arrastando o pé no chão com dificuldade e antes de dar o segundo, senti uma leve mão me tocar.
Assim que olhei para o lado, vi Selena segurar o meu braço.
—Senhor Caldwell, deixe-me te ajudar. – Disse ela, me fazendo franzir o cenho.
—Você sabe que temos um contrato, certo? Não precisa usar esses truques! – Falei, ouvindo minha voz sair mais frágil do que eu planejava.
Naquele instante, foi como se eu tivesse a atingido com um tapa.
Ela me soltou rapidamente, como se eu a tivesse queimado com o meu corpo.
—Senhor Caldwell, será que pode parar de achar que tudo o que eu faço é um ataque? – Perguntou ela, com um tom baixo, mas os olhos eram quentes de raiva.
Respirei fundo, olhando para ela e então, Selena continuou a falar:
—Eu poderia estar na minha cama descansando, já que tive um dia cheio. Acredito que o senhor sabe bem do que estou falando, mas eu estou aqui, te ajudando com a sua dor. – Disse ela diretamente, com uma leve irritação.
—Olha só, eu definitivamente não tenho nenhum tipo de interesse por você. Só quero te ajudar e mais nada.
—Por quê? – Perguntei a encarando fixamente. —Por que está me ajudando?
Nossos olhos se encontraram por mais tempo do que deveria.
E então, ela deu um passo, ficando novamente ao meu lado.
—Porque eu sei como é sentir dor e não querer pedir ajuda.
Assim que ela falou, senti aquelas palavras pesarem, mas o alívio da dor também me atingiu.
Eu a olhei nos olhos e assenti.
—Certo. Vou confiar em você. Dessa vez!







