Mundo ficciónIniciar sesiónNARA
Luís tem me evitado todos esses dias. Nunca pensei que sentiria tanta falta das loucuras dele. Estou muito arrependida por tê-lo magoado com palavras tão duras. Em uma conversa com Richard, abri meu coração e ele me aconselhou a procurar Luís para conversarmos. Segui seu conselho e fui atrás dele no hospital. Quando cheguei, fui diretamente ao escritório de Álvaro. Conversamos por alguns minutos e ele me contou que Luís estava realizando cirurgias gratuitas em crianças com lábio leporino. Fiquei extremamente feliz ao saber que ele estava dedicando parte do seu tempo a essa causa tão nobre. Luís tem um coração gigante, e isso sempre foi uma das qualidades que mais admirei nele. As horas passaram, e permaneci esperando que ele saísse do centro cirúrgico. Alguns colegas comentaram que ele praticamente estava morando no hospital de tanto trabalhar. Quando finalmente o vi caminhando em direção ao consultório, chamei seu nome. Ele olhou para trás. Pela primeira vez, não encontrei aquele sorriso que sempre surgia quando me via. Seu semblante cansado confirmava tudo o que haviam me contado. Conversamos um pouco ainda no hospital e depois fomos juntos para a casa dele. Lá, finalmente abri meu coração. Contei tudo o que aconteceu no meu passado. Luís me ouviu em silêncio, sem me interromper e, principalmente, sem me julgar. Não sei explicar o que havia de diferente nele. Sentamos lado a lado no sofá. Olhei para seus olhos e senti algo impossível de descrever. Antes mesmo de pensar, aproximei meu rosto do dele e o beijei. Foi o melhor beijo da minha vida. Luís foi apenas o segundo homem que beijei. Naquele instante, senti algo completamente novo. Era como se o mundo inteiro desaparecesse ao nosso redor. O calor dos nossos corpos aumentava a cada segundo, e logo estávamos trocando carícias. Eu nunca havia me sentido tão perdida nos braços de alguém. Nem mesmo com o homem que mais amei. Estava completamente entregue. Meu coração acelerava sem controle, e meu corpo reagia à proximidade dele de uma forma que eu jamais imaginei. Foi o próprio Luís quem interrompeu aquele momento. Aos poucos, nos afastamos, ainda ofegantes. Sem conseguir encará-lo por muito tempo, pedi desculpas e saí praticamente correndo da casa dele. Cheguei em casa completamente desnorteada. Tirei a roupa e fui direto para debaixo do chuveiro. Como eu iria olhar novamente para Luís? Como pude me sentir tão atraída por ele? Deixei a água escorrer pelo meu corpo durante longos minutos, tentando organizar meus pensamentos. Depois, deitei na cama, completamente confusa. Demorei muito para conseguir dormir, pensando em tudo o que havia acontecido naquela noite. --- Na manhã seguinte, caminhei pelo condomínio. De longe, observei Luís saindo de casa. Será que ele gostou do meu beijo? Como será que as coisas ficarão entre nós daqui para frente? Milhares de perguntas passaram pela minha cabeça. Foi então que cheguei à conclusão de que precisava ir embora. Precisava ficar longe. Precisava respirar. Saí de casa sem rumo, com uma confusão mental maior do que eu conseguia suportar. Foi nesse momento que tomei minha decisão. Partiria no dia seguinte. Sem pensar duas vezes, comprei uma passagem para a Grécia. Depois fui até a casa de Alfredo e Natália para me despedir. Em seguida, procurei Ana e pedi que assumisse a responsabilidade pela ONG ao lado de Natália. As duas estranharam minha decisão de viajar tão de repente, mas me apoiaram. Expliquei apenas que precisava de um tempo sozinha. Por fim, liguei para Richard. — Alô, Richard... Liguei apenas para avisar que estou partindo novamente. — falei, tentando conter o choro. — Não acredito, Nara! Você sabe que vai partir o coração do Luís outra vez, não sabe? — perguntou, respirando fundo. — Ficando longe, será melhor para que ele me esqueça. — Pelo menos se despediu dele? — Não tenho coragem. — respondi, triste. — Juízo, garota. Só posso te desejar boa sorte. Você vai fazer muita falta. Desliguei o telefone e permaneci olhando para a passagem em minhas mãos. O beijo de Luís mexeu profundamente comigo. Ele certamente vai me odiar por eu viajar sem me despedir. Meu coração não encontra paz. A angústia só aumenta. Levantei do sofá e fui até a casa dele. Quando cheguei, percebi que a porta estava entreaberta. Entrei devagar. Da sala, ouvi a voz de uma mulher vindo do escritório. Os dois conversavam alto. Depois começaram a rir. Não tive coragem de descobrir o que estava acontecendo ali. Voltei para casa completamente desiludida. Talvez Luís realmente não me amasse mais. Talvez aquele afastamento significasse exatamente isso. Entrei em casa e comecei a andar de um lado para o outro. — Preciso saber quem é essa mulher. — murmurei. Poucos minutos depois, voltei para a frente da casa dele. Esperei. Quando finalmente a mulher saiu, meu coração apertou. Ela caminhava de braços dados com Luís. Era a gerente de uma das empresas dele. Antes de entrar no carro, fez um carinho no rosto dele. Naquele instante, senti um ciúme absurdo. Esperei ela ir embora e caminhei até a porta. Luís abriu imediatamente. — Nara... por favor, entra. Entrei ainda tomada pela raiva. — Atrapalhei alguma coisa, Luís? Vi que uma mulher estava aqui. Ele respirou fundo. — O que você quer de mim? Veio rir da minha cara? Pelo amor de Deus... fala. — Não vim para isso. — respondi, já chorando. — Então veio para quê? Você só me confunde... e tira todo o meu juízo. Sem pensar, o abracei. Senti seu coração disparado. Ele retribuiu o abraço, acariciando meus cabelos. — Conheço esse abraço, Nara. Foi igual ao que você me deu antes de ir embora pela primeira vez. Ele fez uma pausa. — Você vai partir de novo? Fechei os olhos. — Sim. Continuei abraçada a ele. Era impossível não me sentir protegida em seus braços. — Meu maior sonho sempre foi casar com você. Nunca escondi de ninguém por quem sou apaixonado. Passei anos implorando por uma chance. As lágrimas voltaram a cair. — Luís... você é um homem perfeito. Ele sorriu sem alegria. — Só me responde uma coisa. Aquele beijo de ontem foi apenas para me confundir? Foi brincadeira? Segurei seu rosto entre minhas mãos. — Não foi brincadeira. Eu tive vontade de te beijar... e beijei. — Eu ainda tinha esperança de ouvir você dizer que me deseja tanto quanto eu desejo você. Ele afastou delicadamente minhas mãos. — As coisas não são tão simples quanto você imagina. Luís respirou fundo antes de concluir: — Boa viagem, Nara. É tudo o que posso te desejar. Seja muito feliz. — Luís... não faz isso. Em nome da nossa amizade... — Estou muito cansado, Nara. Muito cansado. Ele sentou no sofá e abaixou a cabeça. Enxuguei minhas lágrimas. Saí batendo a porta. Nunca me senti tão confusa. Durante todo o caminho de volta, só conseguia pensar em como ele sempre me tratou. Naquele sorriso. Naquele abraço. Naquele beijo. Também não consegui tirar da cabeça a imagem da gerente acariciando seu rosto. O ciúme me consumia. Peguei uma garrafa de vinho. Enchi uma taça e a virei de uma vez. Enquanto arrumava as malas, continuava bebendo e chorando. Quando percebi, já estava completamente embriagada. Acabei adormecendo largada no sofá, abraçada à dor que eu insistia em negar. VIAGEM No dia seguinte, fui acordada logo pela manhã com Richard batendo à minha porta e gritando meu nome. Mal conseguia abrir os olhos. Levantei da cama e fui abrir a porta. Richard estava acompanhado de Ana, e os dois me encaravam, analisando minha aparência. — Bom dia! A noite foi boa por aqui, hein? Vejo que o vinho foi todo tomado. — Richard observou ao olhar em volta da sala. Peguei uma almofada e joguei na direção dele. — Bebi sozinha, seu tonto. Os dois continuaram me encarando sem que eu entendesse o motivo. Subi para o quarto, tomei um banho rápido para não perder o voo e vesti uma roupa confortável. Enquanto isso, Richard colocou minhas malas no carro. Durante o caminho, uma única imagem não saía da minha cabeça. A gerente sorridente do Luís. — Richard... aquela gerente do Luís... ela tem algum caso com ele? — perguntei, tentando esconder o ciúme. — Lógico que não! — respondeu rapidamente. — Está com ciúmes? Acho melhor nem sentir ciúmes do Luís. Ele sempre foi rodeado por muitas mulheres. — Não tenho ciúmes de ninguém, seu chato. — respondi, desviando o olhar para os porta-retratos espalhados pela sala. Mas já era hora de partir. Sem olhar para trás. Ou, pelo menos, tentando acreditar que não me arrependeria. Entramos no carro e seguimos para o aeroporto. Mesmo odiando despedidas, Richard e Ana fizeram questão de me acompanhar até o embarque. Enquanto os observava juntos, percebia o quanto formavam um casal bonito. Era uma pena que os traumas ainda impedissem os dois de viverem esse sentimento. Mesmo sem estarem juntos, cuidavam um do outro de uma maneira bonita e sincera. Sempre torci para que eles encontrassem coragem para serem felizes. Quando chegou a hora do embarque, me despedi dos dois com um abraço apertado. Respirei fundo e segui viagem. Mais uma vez, eu estava indo embora. Levei comigo um coração pesado. Jamais imaginei que, um dia, minha amizade com Luís ficaria tão abalada. Sentada ao lado da janela do avião, fiquei tentando entender tudo o que havia acontecido entre nós. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Desta vez, não fiz questão de enxugá-las. Eu precisava chorar. Curiosamente, durante todo o voo, quase não pensei no meu passado. Pela primeira vez em muito tempo, não foi a dor da perda de Bryan que ocupou meus pensamentos. Foi Luís. Seu sorriso. Seu abraço. Seu beijo. Se eu tivesse lhe dado uma única chance... Será que teria sido feliz? Será que Luís seria capaz de me ajudar a superar todas as dores que carrego há tantos anos? Fechei os olhos e tentei afastar aqueles pensamentos. O que passou, passou. Não adiantava mais viver de hipóteses. Agora eu precisava retomar minha terapia, reconstruir minha vida e aprender, de uma vez por todas, a recomeçar.






