Mundo de ficçãoIniciar sessão— Eu não fazia a menor ideia de que você estava vindo para a Itália — comentei, fitando a sua barba cerrada e bem desenhada.
— Foi uma decisão de última hora — ele respondeu, adotando um tom mais baixo e sério. — Devido ao que aconteceu com o Adrian, precisávamos centralizar as forças e estar juntos nesse momento de crise. — Sim, com certeza. Minha mãe me contou superficialmente. Seja muito bem-vindo. Sabe que é sempre um prazer enorme receber você aqui na nossa casa. — Muito obrigado, Sofia. Eu sempre me sinto em casa quando estou com vocês — ele respondeu de forma polida. Nossa conversa particular foi interrompida pela voz do meu pai, que havia voltado a falar com Chiara. Vittorio estava iniciando o que parecia ser um verdadeiro interrogatório policial, questionando a garota sobre a sua família, suas origens e suas intenções com o Don da Cosa Nostra. Massimo tentava blindá-la como podia. Mais tarde, após o jantar ter sido servido sob aquela tensão velada, todos nós nos mudamos para a imensa sala de estar da mansão dos meus pais. O ambiente estava um pouco mais relaxado. Giuseppe circulava pelo espaço com sua elegância habitual, servindo bebidas para os convidados. Meu pai, Massimo e Matteo estavam de pé perto da lareira, conversando em voz baixa sobre negócios e segurança enquanto tomavam generosas doses de uísque puro. Chiara estava sentada no sofá principal ao lado da minha mãe; para a minha surpresa, as duas pareciam estar rindo e conversando de forma muito fluida. Chiara parecia ter conseguido conquistar a simpatia de dona Aurora, o que me deixava genuinamente feliz pelo meu irmão. Eu, por outro lado, estava sentada de forma despojada no braço de um dos sofás laterais, segurando uma taça de vinho tinto. Eu fingia prestar atenção na conversa das duas mulheres, mas a verdade era que os meus olhos verdes estavam completamente fixos em Matteo. Eu o admirava sem qualquer pudor: os traços rudes e desenhados do seu rosto, a firmeza da sua postura e aquela boca perfeitamente desenhada que ele possuía. Eu sentia uma vontade avassaladora, uma curiosidade louca de saber qual era o gosto daqueles lábios. Hora ou outra, enquanto debatia com os homens, eu percebia que Matteo desviava o olhar da conversa séria e me fitava de relance. Mas no segundo exato em que ele notava que eu já o estava encarando de volta com intensidade, ele desviava rapidamente os olhos, fingindo focar no copo de uísque. Ele sabia o que eu estava fazendo. E eu adorava aquela pequena vitória. Em determinado momento, minha mãe se inseriu no círculo dos homens e se dirigiu ao Matteo com um tom maternal raro. — Matteo, meu filho, imagino que você esteja exausto após essa viagem longa e a reunião em Piemonte. — Estou acostumado com a rotina pesada, Aurora. Não se preocupe — ele respondeu educadamente. — Mesmo assim, o seu quarto de hóspedes aqui na mansão já está totalmente preparado e limpo. Se quiser subir para descansar mais cedo, fique à vontade. — Eu agradeço imensamente a sua hospitalidade, mas o Massimo me convidou para ficar hospedado na mansão dele durante essa temporada — Matteo explicou, gesticulando levemente com a mão. — Fica mais fácil para alinhar as investigações diárias. Quando escutei aquela frase, quase não consegui acreditar. Um misto de frustração e surpresa tomou conta de mim. Ele não iria ficar ali na propriedade dos meus pais. Aquilo destruía o meu plano inicial, pois a estadia dele sob o mesmo teto seria a oportunidade perfeitamente desenhada para que eu pudesse circular de madrugada e tentar seduzi-lo sem os olhares do meu irmão. Mas, conhecendo a minha própria determinação, engoli o desapontamento com um gole de vinho. Eu daria um jeito. Se ele estaria na mansão de Massimo, eu simplesmente passaria mais tempo visitando o meu irmão. Já era muito tarde da noite quando o jantar finalmente se encerrou. Eu estava caminhando pelos corredores silenciosos do andar térreo da mansão, segurando uma segunda taça de vinho, quando vi a silhueta de Matteo saindo do escritório do meu pai. O corredor estava fracamente iluminado pelas arandelas de parede. Aproveitei a oportunidade e me aproximei dele com passos macios, parando a poucos centímetros do seu peito largo. — Aceita uma taça de vinho para encerrar a noite de forma mais leve, Pakhan? — perguntei, erguendo o cristal com um sorriso. — Não, Sofia. Obrigado — ele respondeu de forma seca, mantendo as mãos nos bolsos do paletó. Sem tirar os olhos dos dele, virei o restante do líquido da taça de uma única vez, deixando o cristal de lado em uma mesinha de canto. Dei mais um passo à frente, quebrando qualquer barreira de espaço pessoal entre nós. Ergui a minha mão direita e, com movimentos lentos e ousados, passei as pontas dos meus dedos pela sua barba cheia e cerrada, sentindo a textura áspera da pele dele. — Eu senti muito a sua falta, Matteo... — sussurrei, olhando fixamente para a sua boca. — Eu gosto tanto de ter você por perto. Matteo segurou o meu pulso com firmeza, interrompendo o carinho na sua barba, mas sem machucar. Ele deu um passo para trás, os olhos brilhando com uma seriedade repreensora. — Sofia — ele pronunciou o meu nome com a voz firme, o tom de advertência clássico dele. — Você já bebeu o suficiente por hoje. Está agindo por impulso. — Eu estou perfeitamente sóbria, Matteo. Sei exatamente o que estou fazendo e o que estou sentindo — respondi, dando um passo à frente de novo, colando o meu corpo ao dele. Dei um sorriso manso e coloquei o meu dedo indicador delicadamente sobre os lábios dele, impedindo-o de continuar com o sermão. — Não fale nada agora. Só preciso de um abraço seu. Um abraço de verdade para matar a saudade. Ele me encarou por dois segundos longos, o maxilar tenso, travando uma batalha interna que eu adorava assistir. Por fim, soltou um suspiro derrotado. Matteo passou a sua mão grande e pesada pela minha cintura, puxando-me contra o seu corpo musculoso e me envolvendo em um abraço apertado. Encostei a minha cabeça no peito largo dele, escutando as batidas firmes do seu coração, e passei os meus braços ao redor do seu pescoço, aspirando o seu perfume. Ficamos naquela posição íntima por alguns segundos divinos, onde esqueci o mundo lá fora. No entanto, fomos abruptamente separados pelo susto que tomei ao ouvir uma voz tossir de forma discreta, vinda diretamente de trás de nós dois no corredor escuro. — Senhorita Sofia... — A voz suave e pausada de Giuseppe ecoou no ambiente. O velho mordomo estava parado ali com uma postura impecável. — A sua mãe está na sala de estar superior e está lhe procurando para resolver um assunto. Afastei-me de Matteo rapidamente, sentindo as minhas bochechas arderem levemente pela interrupção. Ajeitei o meu vestido justo e olhei para o russo, que já havia retomado a sua postura de pedra impenetrável. — Estou indo imediatamente, Giuseppe. Obrigado — respondi, tentando manter a dignidade. Dei uma última olhada profunda para Matteo, um olhar que carregava todas as promessas que eu pretendia cumprir em breve, virei as costas e segui pelo corredor em direção à sala superior para encontrar a minha mãe, sabendo que o jogo na Itália estava apenas começando.






